Fim de um ciclo? "Wait a minute"...

Juan M. Hernández Puertolas

Sem pretender questionar o caráter absolutamente histórico da eleição de Barack Obama como 44º presidente dos EUA, a história recente do país - desde a Grande Depressão até hoje - recomenda usar extrema prudência. Em muitas eleições se falou que o eleitorado tinha conferido ao presidente eleito um verdadeiro mandato, com a correspondente mudança de ciclo. Na prática, porém, se demonstrou que os ciclos não mudam tão facilmente.

Mandato, o que se chama mandato, foi o que recebeu o Partido Democrata em 1932, ano da primeira vitória nas presidenciais de Franklin D. Roosevelt, que se prolonga além das eleições de 1948, quando Harry Truman, contra todos os prognósticos, se impõe ao governador Dewey. Durante quase 20 anos os democratas dominaram à vontade os poderes Executivo e Legislativo, e um dos escassos erros - e fracassos - de Roosevelt foi sua tentativa frustrada de manipular a Suprema Corte (Court Packing). Na legislatura 1937-39, os republicanos se viram reduzidos à mínima expressão, 16 senadores de um total de 96 e 88 deputados de um total de 435, como hoje.

Em 1964 pareceu ocorrer um realinhamento de características semelhantes. O presidente Lyndon Johnson não só barrou seu rival - o senador republicano Barry Goldwater, também do Arizona, como McCain -, como gozou na legislatura 1965-67 de cômodas maiorias em ambas as câmaras do Congresso - 68 senadores, 295 deputados -, em cujo calor se aprovaram leis transcendentais contra a segregação racial e ambiciosas medidas contra a pobreza e a exclusão social.

Mas a guerra do Vietnã e a correspondente redistribuição dos gastos públicos que acarretou, os distúrbios raciais - os de Watts, o bairro negro de Los Angeles, terminaram em agosto de 1965 com 34 mortos e mil feridos - e uma certa permissividade sociocultural propiciaram uma rápida reação conservadora, a ponto de que um dos ícones do movimento, Ronald Reagan, é eleito governador da Califórnia em data tão precoce quanto novembro de 1966. Só dois anos mais tarde a fera negra dos democratas e dos liberais, Richard Nixon, que chamavam de Tricky Dick (Ricardinho Truqueiro) seria eleito presidente. O aparente mandato de Johnson havia durado apenas quatro anos.

Alguns autores e cientistas políticos afirmam que na terça-feira passada terminou um ciclo neoconservador que começa com a eleição presidencial de Ronald Reagan em 1980. Eu não estaria tão seguro, mas se é verdade que os republicanos controlaram a Casa Branca em 20 dos 28 anos transcorridos - a presidência de Bill Clinton seria nesse sentido um simples parêntese -, seu controle do Congresso foi muito mais tênue, especialmente na Câmara de Deputados, que só dominaram de 1995 a 2007.

É que em geral o eleitorado americano, como em muitos outros países ocidentais, costuma votar mais contra uma determinada força política do que a favor de outra. Em sua época, Reagan era uma incógnita, um sexagenário simpático, mas os eleitores tiraram Carter da Casa Branca em 1980 por causa da crise energética, das altas taxas de juros e da humilhação que representou a tomada de reféns americanos pelo governo iraniano. Clinton foi eleito em 1992 basicamente pela ruptura da promessa de Bush pai no sentido de que não aumentaria os impostos.

E, não nos enganemos, as eleições de terça-feira passada não foram tanto um referendo sobre Obama - como pretendeu sem sucesso McCain -, mas uma rejeição dos oito anos de Bush filho. É tal a impopularidade do atual inquilino da Casa Branca que ele não compareceu à convenção de seu partido nem se atreveu a fazer a tradicional foto emitindo seu voto, um caso verdadeiramente insólito. A gravação do vice-presidente Cheney dando seu apoio a McCain se transformou instantaneamente em um anúncio da campanha de Obama, que a reproduziu até a saciedade.

É verdade que a alta participação e as emoções provocadas pelo já presidente eleito sugerem uma mudança de ritmo, mas não será fácil, e muito menos automática. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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