CIA ressuscita debate sobre Jaruzelski, o "Pinochet do comunismo polonês"

Maciej Stasinski

A CIA publicou recentemente mais de mil páginas de informes secretos que recebeu do coronel Ryszard Kuklinski durante o ano de 1981. Além disso, a apresentação de um documentário sobre o coronel já falecido, na sede da CIA em Langley, completou a homenagem ao espião e oficial polonês que o atual diretor da agência, Michael Hayden, chegou a chamar de um dos mais importantes oficiais de inteligência dos EUA.

Ainda hoje na Polônia não é tão evidente o papel-chave que ele desempenhou ao fornecer informações importantes para os governos Carter e Reagan sobre os segredos militares e estratégicos das forças do Pacto de Varsóvia. Kuklinski forneceu informações do Estado Maior do exército polonês durante uma década. Depois de sua fuga da Polônia às vésperas da proclamação da lei marcial em 13 de dezembro de 1981, Kuklinski foi rebaixado e condenado à morte por alta traição por um tribunal militar em pleno reinado de seu superior, o general Jaruzelski. Depois da queda do comunismo, em 1989, foi reabilitado em 1995 e restituído como coronel, e quando morreu em 2004, foi enterrado com todas as honras em Varsóvia. Enquanto uns o veneram como o herói nacional que combateu o comunismo em nome de altos ideais patrióticos, outros dizem que espiões pagos por potências estrangeiras, muito além de suas possíveis motivações ideológicas, só podem ser respeitados como figuras idealistas e moralmente incólumes.

Os informes de Kuklinski ressuscitam o debate sobre o papel do general e dirigente máximo comunista Wojciech Jaruzelski, que em 1981 derrotou o movimento Solidariedade e introduziu a lei marcial para, oito anos depois, pactuar com o Solidariedade pela morte do comunismo e restauração da democracia.

Durante quase vinte anos os poloneses debateram se Jaruzelski foi um ditador comunista que sufocou o primeiro despontar da liberdade e da democracia na Polônia ou, como ele mesmo defendia, um personagem trágico que "com mãos polonesas" chegou a restabelecer a ordem comunista livrando o país de uma invasão militar soviética como as que viveram na pele os húngaros, em 1956, e os tchecos e eslovacos, em 1968. A discussão se mantém viva há anos. A direita anticomunista mais violenta não quer aceitar nem os mínimos atenuantes ou pretextos para a conduta do general, que para muitos observadores, apesar de ter restaurado o regime comunista onipotente com auxílio do exército, resistiu durante muitos meses às pressões e chantagens dos dirigentes soviéticos que exigiam punho de ferro, e conseguiu minimizar os prejuízos e represálias. Para eles, Jaruzelski é mais ou menos como um Pinochet do comunismo polonês. Mas os principais líderes do Solidariedade, que em 1988-1989 fizeram o pacto com o general, e seus aliados mais próximos na transição democrática admitem que se Jaruzelski não tivesse feito sua intervenção em dezembro de 1981, a Polônia poderia ter sido vítima de uma invasão ou, na melhor das hipóteses, de um golpe de Estado interno por parte dos ortodoxos mais rígidos do regime, que só admitiam perdoar Jaruzelski com o pleno consentimento dos líderes soviéticos.

Os documentos de Kuklinski não dão uma resposta inequívoca. Jaruzelski aparece como um personagem que decide atuar por conta própria quando vê que seu regime corre perigo de cair diante dos embates com o Solidariedade por um lado, e com os soviéticos por outro. Eloise De Vylder

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