A trégua amadurece em meio à violência em Gaza

Henrique Cymerman

Os combates foram muito intensos em Gaza, durante o 18º dia de guerra. As forças israelenses lutaram nos subúrbios da cidade de Gaza, apoiadas pela aviação que bombardeou mais de 60 alvos. O Hamas respondeu disparando cerca de 15 foguetes contra Israel.

Mas o fato de a violência não parar não implica que os esforços diplomáticos para conseguir uma trégua tenham descarrilado. Ao contrário, o governo israelense dá mostras de estar preparado para uma trégua. O primeiro-ministro Ehud Olmert afirmou que "a operação em Gaza não será ampliada" enquanto existir a possibilidade de conseguir o fim das hostilidades proposto pelo Egito. "O plano do Cairo para conseguir um cessar-fogo está amadurecendo", ele afirmou para vários líderes estrangeiros.

O Hamas também considera boa a proposta egípcia. As discrepâncias persistem no lançamento de foguetes e no controle da fronteira de Gaza com o Egito. Israel exige que os ataques parem. O Hamas responde que primeiro é preciso haver uma retirada total do Tsahal, o exército israelense.

De todo modo, Israel pede o fim do contrabando de armas. Uma força internacional deveria supervisionar a fronteira na zona de Rafah. O Egito por enquanto não aceita essa presença. A direção do Hamas em Damasco também não. Mas os islâmicos em Gaza, liderados pelo primeiro-ministro Ismail Haniye, são a favor, segundo uma série de mensagens cruzadas entre Gaza e Damasco interceptadas pela inteligência palestina.

No meio desse difícil cenário, Olmert está disposto a fazer o possível para pôr fim à ofensiva o quanto antes, sem que seja necessário passar à terceira fase prevista pelos militares, o que representaria uma ocupação prolongada da Faixa e muitas dificuldades para o Hamas e a população civil.

Os militares, mesmo assim, se preparam para a operação. Os carros blindados cercam a cidade de Gaza e assediam Khan Yunis, Beit Lahiya e Jabalia. Para este campo de refugiados, onde ontem morreram três crianças, foi transferida parte dos 90 mil desalojados pela violência. Os demais resistem em escolas da ONU, no campo de Shati e em casas de parentes. Um porta-voz militar israelense afirmou que o Hamas mantém 15 mil homens armados e conserva boa parte de seu arsenal de foguetes.

Apesar de o Hamas ter diminuído a média de foguetes que lança diariamente contra Israel - antes da guerra eram cerca de 80 e hoje beiram os 20 -, é muito possível que reserve muitos, sobretudo os de mais longo alcance, para as horas finais do conflito.

O Tsahal havia advertido nos últimos meses sobre a força militar do Hamas. Chegou a calcular que seria capaz de lançar 300 mísseis diários contra Israel. Mas o mito das brigadas islâmicas se deteriora. Quase todos os combates corpo-a-corpo das forças israelenses foram com pequenos grupos de milicianos que se escondiam entre os moradores. À espera do que possa acontecer na cidade de Gaza, começa em Jerusalém um debate sobre se o exército exagerou a força militar do Hamas para justificar a ofensiva.

O general Yoav Galant, responsável pela zona sul, insiste que a segurança do milhão de israelenses que vivem no sul do país exige continuar a ofensiva. Há generais do estado maior, porém, que não compartilham essa opinião e comentam que "é preferível se preparar para a guerra e não ter de lutar do que ter de lutar sem se preparar".

Por enquanto a guerra continua dizimando a população civil. Ontem morreram cerca de 30 palestinos. O total de mortos supera os 950 e menos da metade - cerca de 400 - foram identificados como milicianos do Hamas. É possível que o número total de mortos - civis e militantes islâmicos - aumente de forma significativa, já que há mortos não identificados sob os escombros de centenas de edifícios de Gaza.

A resistência está sendo tão dura para os palestinos que os líderes do Hamas em Gaza, que estão há 18 dias escondidos em bunkers, apoiam um cessar-fogo. A direção em Damasco, porém, se opõe. Essa discrepância interna não é só sobre a trégua e a abertura das fronteiras, mas também sobre o futuro do movimento fundamentalista islâmico.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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