A raiz da delinquência

Rafael Ramos

As estatísticas assinalam que o número de delitos cometidos por meninas adolescentes aumentou 25% nos últimos três anos, mas inúmeros sociólogos expressam sérias dúvidas de que essas cifras constituam um reflexo da realidade social, e acreditam que isso se deva a uma maior intolerância em relação ao comportamento violento do sexo feminino e ao desejo político do governo e da polícia de mostrar firmeza.

Um estudo oficial recente publicado no Reino Unido indica que um quinto dos delitos atribuídos à faixa etária entre dez e 17 anos são cometidos por meninas. No ano passado, as adolescentes foram autoras de 15.672 ataques violentos, 19.722 roubos, 5.964 incidentes de desordem pública e 5.748 de danos criminais à propriedade. 188 jovens foram condenadas por incêndios premeditados, e 1.500 por tráfico ou consumo de drogas.

"A verdade se encontra à metade do caminho entre as estatísticas e o ceticismo de alguns especialistas", disse Olivia Spencer, professora especializada em delinquência juvenil. Nos últimos anos, aumentou de maneira alarmante o abuso de álcool e a participação em quadrilhas por parte de meninas menores de idade, fator que contribui para o comportamento antissocial e a violência, mas não é suficiente para justificar um aumento da delinquência da ordem de 25%".

Hoje, 207 meninas estão internadas em prisões ou reformatórios para menores, em comparação com 2.735 meninos, e ambos os números registram uma alta contínua em relação a um ano atrás, o que corresponde tanto ao aumento da criminalidade quanto ao da população juvenil na Grã-Bretanha e às políticas de tolerância zero em matéria de lei e ordem. Sobretudo no caso das mulheres, comportamentos agressivos ou antissociais que até há pouco tempo eram deixados nas mãos das famílias ou de professores agora justificam a intervenção policial e a apresentação de acusações judiciais.

"Um fator nada desdenhável - disse o criminologista Steven Cahill - é a necessidade de a polícia, sob pressão do governo, alcançar determinados objetivos em matéria de prisões e sentenças, a fim de dar a impressão de que o Estado está firme na luta contra a delinqüência".

"E nada mais fácil para engrossar as estatísticas do que autuar as meninas que se excedem sob a influência do álcool ou roubam cosméticos em grandes lojas, quando até há pouco tempo bastava uma simples advertência".

A crescente violência nas escolas públicas britânicas - onde são cada vez mais comuns os detectores de metais para impedir que os adolescentes entrem armados com pistolas e facas - e a cultura de ameaças, insultos e até ataques a professores fazem com que os responsáveis pelos colégios chamem a polícia com mais frequência quando acontece uma briga ou um incidente qualquer, quer seja protagonizado por meninos ou meninas.

O comportamento delinquente das meninas está muito vinculado a episódios de abusos sexuais e a fatores sociais como a pobreza, o abandono, a expulsão do lar, o fracasso escolar, o alcoolismo e o crescimento em famílias disfuncionais.

Tradução: Eloise De Vylder

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