Meninas também batem

Javier Ricou

Elas sobem cada vez mais nas estatísticas, ainda que em termos globais continuem sendo minoria. Os atos violentos protagonizados por meninas adolescentes têm aumentado nos últimos anos e o estilo de vida delas já se equipara - em alguns comportamentos próprios da cultura juvenil - às condutas dos meninos. Fumam tanta ou mais maconha que eles, bebem a mesma quantidade e, no âmbito dos delitos, já superam os rapazes nos pequenos furtos.

Ainda que a face mais extrema da violência continue sendo coisa de meninos, será que as meninas estão mais violentas que há uma década?
Cometem mais delitos que antes?

Se a análise se basear apenas nos dados das estatísticas, a conclusão é que sim. Na Catalunha, os centros de Justiça Juvenil atenderam no primeiro semestre de 2008 um total de 5.258 menores. Isso supõe uma queda de 7,55% no número de casos em relação ao mesmo período de 2007.

Mas essa diminuição não foi registrada no ingresso em centros de reabilitação, onde chegam os casos mais graves. Foi aí onde mais cresceu o número de meninas. Entre 2000 e 2008, dobrou o número de meninas (de 5,19% a 10,38%) a ingressar nesses centros. Mais da metade desses menores (a média de idade é de 17 anos) cometeram delitos contra a propriedade. São números muito similares aos de oito anos atrás. Mas há outro indicador que revela um aumento de violência nas condutas desses adolescentes, incluindo meninas. Os delitos de lesões registram um aumento muito grande. Em 2000, representavam 14,22%, e hoje quase 23%.

Cristina Rechea, professora de psicologia e diretora do Centro de Pesquisa em Criminologia de Castilha-La Mancha, aceita a validade dessas estatísticas - o aumento de causas judiciais contra meninas acontece em âmbito nacional -, mas aponta uma nova visão desse fenômeno, do qual o resto da Europa também padece. O centro que Rechea dirige se destaca por ser o único na Espanha que investiga os dados globais da evolução da adolescente na delinquência. Seus estudos contaram com o apoio do Conselho Geral do Poder Judiciário e, segundo ela, "não detectamos uma mudança tão grande no comportamento quanto alguns encontraram depois de uma leitura rápida das pesquisas" realizadas na última década com menores e jovens.

"Nossos estudos revelam que as meninas estão muito parecidas ao que eram há alguns anos", afirma Raquel Bartolomé, psicóloga do centro de criminologia. No entanto, agora essa violência se tornou muito mais visível. E isso se deve, acrescenta a pesquisadora, "à denúncia judicial desses casos, que antes eram solucionados por outras vias, como por exemplo a terapêutica".

Entretanto, o trabalho realizado pelo centro de Castilha-La Mancha revelou novas condutas entre as meninas, próprias do sexo oposto. "Em temas específicos, como o consumo de maconha ou de álcool, quase não há diferenças entre os sexos", afirma Esther Fernández, outras das psicólogas que participaram desses estudos. Essa equiparação de papéis se deve, mais do que a uma imitação dos padrões masculinos, à inclusão das meninas no estilo de vida juvenil, regido por condutas mais próprias dos rapazes do que do sexo feminino.

Na comparação de delitos, os rapazes ganham por goleada em condutas de violência extrema. As meninas, pelo contrário, superam o outro sexo em pequenos furtos cometidos em lojas. Dentro desse mundo juvenil, o que as meninas fizeram foi "adaptarem-se ao que existe", acrescenta Raquel Bartolomé. O fato, por exemplo, de que um bando de meninas dê uma surra em outra com um telefone celular "deveria ser entendido como uma consequência da nova realidade ou dos meios dos quais os adolescentes dispõem agora", dizem as psicólogas.

Essas três especialistas em criminologia acreditam que é impossível que algum dia meninas e meninos, ou mulheres e homens, alcancem níveis idênticos nas estatísticas de delitos ou atos violentos. O sexo feminino continua sendo, nesse mundo, uma minoria.

A percepção entre outros profissionais com experiência no tratamento de menores é que as meninas que hoje acabam imersas num mundo de violência e delitos costumam mostrar uma insensibilidade maior que a dos meninos. "E também - afirma Javier Urra, psicólogo da fiscalização de menores de Madri - costumam se mostrar mais distantes e duras emocionalmente do que os rapazes. E isso complica o tratamento".

As agressões no seio da família são outro indicador do novo papel assumido pela menina violenta. Há pouquíssimos anos aconteciam poucos casos de mães ou pais agredidos por uma filha. Hoje, indica Javier Urra, três em cada dez agressões desse tipo são protagonizadas pelas adolescentes.

Tradução: Eloise De Vylder

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