Ativismo sensual

Teresa Sesé

"Para mim o objeto artístico deve ser, acima de tudo, instantaneamente sedutor", diz Cildo Meireles (nascido no Rio de Janeiro em 1948), artista - um dos grandes - que enfrentou a ditadura brasileira com instalações sensuais cuja ousadia só é comparável a seu poder de cativar. "Não se pode abdicar da sedução", afirma o último prêmio Velázquez, enquanto passeia feliz pela sensacional retrospectiva que, depois de sua estreia na Tate Modern em Londres, agora se apresenta no Macba [Museu de Arte Contemporânea de Barcelona] a caminho dos EUA e do Canadá.

"Cildo Meireles", título da exposição que se inaugura amanhã, pode ser uma grande surpresa para muitos visitantes, que não esquecerão facilmente o espetáculo de sensações e inteligência que Meireles propõe. Nascido no Rio, onde ainda vive, Meireles é um dos mais destacados herdeiros dos também brasileiros Lygia Clark e Hélio Oiticica, que em 1959 se afastaram da via racionalista em busca de propostas multissensoriais e participativas. Meireles saltou para o cenário internacional em 1970, quando foi convidado pelo MoMA de Nova York a participar da exposição "Information", uma espécie de estréia da arte conceitual, e desde então teve de brigar com o rótulo, restritivo e preguiçoso. Meireles vai mais longe. "Impacta os sentidos para criar idéias que, em muitos casos, não se limitam a uma simples realização estética, mas introduzem o espectador em uma experiência", explica o diretor do Macba, Bartomeu Marí.

Na capela Macba, praticamente às escuras, a imagem imponente de uma torre de Babel de 5 metros de altura, formada por 700 rádios sintonizados em emissoras diferentes, convive com a inquietante "Volátil", num quarto escuro repleto de pó de talco e falso odor de gás; e a poética "Cruz do Sul", um diminuto dado feito de madeiras sagradas para os tupis, cujo tamanho, igual a um cubo de açúcar, lhe dá uma dimensão liliputiana no chão do quarto vazio.

O mais espetacular visualmente e o mais explicitamente religioso é "Como Construir Catedrais", uma alusão às missões jesuítas na América do Sul: um tapete de 600 mil moedas e um dossel de 200 ossos de boi unidos por uma coluna de hóstias.

"Trata-se de uma simples equação matemática: poder econômico mais poder espiritual, igual a tragédia", indica o criador, que no labiríntico "Através" semeia um mar de vidros quebrados; em "Globetrotter" cria as grandes travessias marítimas, cobrindo esferas de diversos tamanhos com uma malha de aço; convida ao jogo em "Eureka" (201 bolas de borracha da mesma cor e tamanho, mas cujos pesos oscilam entre 500 e 1.500 gramas) e uma inquietante experiência em três fases, em "Desvio para o Vermelho", na qual tudo começa em um quarto formado integralmente por elementos vermelhos, desde os quadros aos peixes ou os pimentões dentro da geladeira... vermelha.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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