Todos os homens de Beppino Englaro

María-Paz López

Em Udine, microcosmo da Itália rasgada por Eluana Englaro, a paciente em coma morta na segunda-feira nesta cidade, se verifica como a proximidade física de uma tragédia dilui certezas abstratas e dificulta a defesa acirrada de dogmas. Se a família Englaro conseguiu executar a sentença judicial que autorizava Eluana a morrer, deve-se a uma aliança transversal alheia à política nacional italiana, uma entente local de personagens de diversos partidos, que diz muito sobre o tecido social de Udine e de sua região, Friuli-Venecia Julia.

"Aqui houve a mesma fratura genérica entre a centro-direita e a centro-esquerda que no resto da Itália, mas havia católicos que apoiavam o pai de Eluana e eleitores da centro-esquerda que se opunham a sua batalha", explica Luca Tosolini, conselheiro de Cultura de Premariacco, localidade de 4.100 habitantes a apenas 12 quilômetros de Udine. Tosolini afirma que "é preciso distinguir entre a posição moral pessoal e o respeito à autoridade judicial que ditou a sentença". Esse é o espírito que animou o comitê Englaro Non Mollare (Englaro não amoleça), que na segunda-feira organizou uma manifestação de apoio ao direito do pai de Eluana, Beppino Englaro, a facilitar sua morte. Foi na Loggia del Lionello, bela galeria em estilo gótico veneziano do século 15, e estavam lá quando se soube que Eluana havia morrido, em seu quarto dia sem alimentação artificial.

No caminho para esse desenlace, Beppino, nativo da província de Udine, contou com a assistência (ou a aquiescência) de políticos e profissionais de centro-esquerda, mas também de centro-direita, e com o auxílio de laicos, mas também de católicos. Assim, o prefeito de centro-esquerda de Udine, Furio Honsell, decidiu apoiar os Englaro porque, como disse nestes dias, "a sentença declarava que não se tratava de eutanásia" e porque Beppino "é um herói, um exemplo de dignidade cívica".

Honsell, ex-reitor universitário, apostou na clínica La Quiete por sugestão do socialista Daniele Renzulli, ex-conselheiro regional. Renzulli viu que o regime de La Quiete, controlada pelo município, tornava impossível uma intervenção do serviço de saúde regional, que havia recebido uma ordem ministerial que proibia de fato a aplicação da sentença de Eluana.

Depois há o presidente regional de Friuli, Renzo Tondo, de centro-direita, amigo da família Englaro, à qual apoiou contra o parecer de seu conselheiro de Saúde. Sua atitude pode ser definida como de não-ingerência, pois, como admitem no comitê pró-Englaro, não poderia fazer mais. O friulano Ferruccio Saro, senador do partido de Berlusconi e também amigo de Beppino, foi outro dos poucos dissidentes da centro-direita.

Outro exemplo desse pacto transversal: o advogado mais caro de Udine, Giuseppe Campeis, ex-militar, católico, teceu de graça para a família Englaro a trama jurídica contra a qual se chocaram os inspetores do ministro da Saúde, Maurizio Sacconi. Mais nomes: o neurologista Carlo Alberto Defanti, que durante anos acompanhou Eluana; e o anestesista Amato De Monte, que executou o protocolo para sua desconexão, junto com um punhado de enfermeiras, todos sem cobrar. E Ines Domenicali, presidente de La Quiete, que resistiu com estoicismo às inspeções.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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