Rússia e Japão buscam a paz das ilhas Curilas

Gonzalo Aragonés

Oficialmente a Segunda Guerra Mundial ainda não terminou pois dois dos participantes, Japão e Rússia, nunca firmaram um tratado de paz. O motivo é a disputa sobre quatro ilhas do arquipélago das Curilas, das quais o exército soviético se apoderou. Ontem se apresentou uma boa oportunidade para incentivar uma solução para o conflito. O presidente da Rússia, Dimitri Medvedev, e o premiê japonês, Taro Aso, se reuniram em Sakhalin, no Oceano Pacífico, cuja parte sul o Japão ocupou entre 1905 e 1945. Foi a primeira vez, desde o fim da guerra, que um chefe do governo japonês colocou os pés na ilha.

O motivo do encontro era inaugurar uma das maiores indústrias de gás liquefeito do mundo, da qual o Japão se tornará um cliente fundamental. Essa fábrica é parte do projeto "Sakhalin 2", do qual participam como investidores as empresas japonesas Mitsui e Mitsubishi, a anglo-holandesa Royal Dutch Shell e a russa Gazprom, que tem o principal pacote acionário.

Os interesses econômicos mandam. O Japão tenta diversificar os fornecedores de energia para não depender do Oriente Médio, e a Rússia ganha um cliente depois da última crise do gás com a Ucrânia, que afetou seriamente seus clientes da União Europeia. "Sem dúvida alguma esta fábrica fortalece nossa posição como um dos principais participantes no mercado da energia", assegurou Medvedev à agência ITAR-Tass. Mas a opinião pública japonesa esperava que as boas relações trouxessem à discussão o assunto das Curilas.

Quando, em 24 de janeiro passado, Medvedev convidou Aso para Sakhalin, a parte russa não se recusava a falar sobre nenhum tema. A imprensa japonesa advertiu que as preocupações econômicas não podem acabar com a prioridade número um: que a Rússia devolva "os Territórios do Norte". Esse é o nome que receberam no Japão. Na Rússia são "as Curilas do Sul". As ilhas sob disputa se encontram entre Sakhalin e a ilha japonesa de Hokkaido.

Apesar desses temores, Aso disse depois do encontro que ele e Medvedev haviam concordado em acelerar os esforços para resolver a disputa. "Quando a Rússia fala de duas ilhas e nós, de quatro, isso indica claramente que não há uma ruptura", ele explicou. A aposta no diálogo e na cooperação podem ser uma boa estratégia para acabar com o conflito, ainda que Aso possa sair prejudicado na política interna ao voltar de Sakhalin sem nada de concreto. Os dois líderes concordam em não deixar este problema para a próxima geração.

Em 2005 a Rússia sugeriu que poderia ceder duas das ilhas se o Japão desistisse de suas reivindicações sobre as outras duas. Tóquio, no entanto, rejeitou essa ideia. As ilhas em disputa se encontram perto da costa de Hokkaido, a 400 quilômetros de Sakhalin.

A fábrica inaugurada ontem é a primeira de gás liquefeito que a Rússia constrói. Espera-se que em 2010 sejam produzidos 10 milhões de toneladas.

Tradução: Lana Lim

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