Quem usa as calças na Turquia?

Ricardo Ginas

Quando o emigrante judeu alemão Levi Strauss decidiu fabricar roupas no atacado - calças de brim azul - que tornaram mais cômoda a busca do ouro no oeste longínquo, não tinha consciência de que sua invenção seria revolucionária.

Isso faz mais de 150 anos, mas a roupa que conhecemos como "jeans", símbolo por excelência da igualdade de sexos na moda, terá afinal, e provavelmente em breve, acesso livre e indiscriminado ao Parlamento da Turquia. Foi o que decidiu o órgão ao dar sinal verde para uma moção de lei destinada a que as deputadas também possam usar calças. A emenda será discutida depois das eleições de março.

Se for aprovada, como é provável, romperá uma tradição segundo a qual só os homens representantes da vontade popular merecem usar o traje citado.

Em meados da década de 1990, várias parlamentares de diversos campos ideológicos tentaram burlar a regra sem sucesso e foram expulsas da Assembléia legislativa, na qual os que continuavam usando calças eram os homens. Isso que a lei até hoje estipula que os homens devem usar gravata e paletó. Quer dizer, sem qualquer menção a calças, e por isso se poderia entender que se chegarem com as pernas à mostra ninguém poderá proibir sua entrada no Parlamento, de um ponto de vista estritamente legal.

Em todo caso, o veto vigente surpreende em um país que tem a laicidade como bandeira - em seu nome proíbe a entrada de mulheres com véu nos edifícios oficiais - e onde as mulheres tiveram acesso ao sufrágio universal em 1930, antes da Espanha e de muitos outros países. É que a indumentária na Turquia, sobretudo a feminina, é em si mesma causa de acalorada discussão política.

A mulher turca que usa véu indica com seu uniforme cotidiano que decidiu optar por normas que impedirão seu acesso às dependências estatais e a trabalhar ou estudar nelas. E isso é assim porque a elite laica turca continua contemplando essa peça como um símbolo do islã político. O certo é que por trás da decisão de muitas mulheres turcas de cobrir a cabeça há diversos motivos. Os principais estão ligados aos usos e costumes de suas famílias. Mas em uma mesma família é habitual que uma das irmãs seja recatada no vestir e use um turbante ou hijab turco, enquanto outra ande com calças jeans e camiseta justa. Também é habitual que uma mulher com véu use jeans. É ainda comum ver na rua mulheres com véu passeando ou fazendo compras com outras de cabelo descoberto.

"Fora, fora!", gritaram centenas de parlamentares kemalistas para a política de credo islâmico Merve Kavakçi em 2 de maio de 1999. Seu delito: ter entrado na Câmara com um véu islâmico. Isso foi interpretado de forma colérica como uma violação da laicidade, cujo autoproclamado defensor é, em última instância e até novo aviso, o exército.

"Não é exibicionismo, trata-se de machismo!" e "Estado, tire suas mãos do meu corpo!", gritaram cerca de 70 mulheres sobre a ponte Gálata em julho do ano passado, em protesto pela multa imposta por um tribunal a uma mulher. Seu delito: pescar sobre a ponte, que liga o Chifre de Ouro a Beyoglu, com um traje parecido com um vestido de noite que, segundo alguns jornais turcos, poderia ser facilmente levantado pelo vento. Algo que provocou as queixas dos pacientes pescadores da ponte.

O inegável é que ambos os gritos de protesto, os dos kemalistas no Parlamento e os das feministas na ponte Gálata têm algo em comum: remetem a decisões tomadas por homens turcos sobre como devem se vestir as mulheres turcas.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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