Mais de 11 mil espécies invasoras ameaçam os ecossistemas europeus

Rosa M. Bosch

Chegou do sudeste asiático, suas picadas são muito dolorosas e entre outras doenças pode transmitir o chikungunya (reumatismo virótico) e a dengue. O mosquito-tigre, detectado pela primeira vez na Catalunha em 2004, é uma das 1.400 espécies invasoras que habitam a Espanha. Uma equipe internacional, da qual participa o Centro Superior de Pesquisas Científicas (CSIC, na sigla em espanhol), documentou ao todo 11 mil plantas, animais e microrganismos invasores na Europa. A conclusão é que mais de 10% das espécies desse censo têm um forte impacto nos ecossistemas e na economia europeus.

Os pesquisadores do CSIC confirmam que o mosquito-tigre está entre as cem espécies mais nocivas desse primeiro inventário, assim como o mexilhão-zebra ou o caranguejo americano, muito conhecidos e temidos na região do rio Ebro. Exatamente em janeiro passado se confirmou que o peixe dojo, originário de águas asiáticas, havia colonizado o delta do Ebro, contabilizando-se dezenas de milhares de exemplares no trecho final do rio. O peixe dojo poderia questionar o futuro da colmilleja (cobitídeo) ou do peixe-frade do Ebro, um ecossistema que há anos enfrenta outras espécies exóticas como o siluro (bagre).

O projeto europeu Daisie (Delivering Alien Invasive Inventories for Europe, ou Produzindo Inventários de Invasores Estrangeiros para a Europa), documenta todas essas espécies em uma completa base de dados (www. europe-aliens. org). Esse programa dispõe de fichas com as características de todos os animais e plantas catalogados, com recomendações para conter sua expansão.

Os promotores dessa iniciativa reclamam uma legislação mais severa e sobretudo controles mais rígidos no transporte de mercadorias, para detectar a tempo a chegada de exemplares exóticos. Cabe destacar que nos últimos dez anos a gestão das plantas invasoras na Espanha representou uma despesa de 50 milhões de euros, segundo informou ontem a CSIC. A pressão exercida pelas espécies não-autóctones é um dos principais problemas que muitos refúgios naturais enfrentam.

As ilhas Galápagos, no Equador, comemoram este ano o 50º aniversário da criação de seu parque nacional com o desafio de reduzir a presença de animais e plantas vindos de outras latitudes, que estão pondo em xeque sua rica biodiversidade.

Montserrat Martí, diretora da equipe espanhola participante do projeto Daisie e pesquisadora do CSIC, salienta que na Espanha um dos casos mais preocupantes é o da tartaruga da Flórida, que compete com a tartaruga aquática autóctone. Também cita o impacto que a unha-de-leão, planta procedente da África do Sul que cresce muito rapidamente, está tendo "na flora litorânea, em ecossistemas que já estão muito afetados pelo urbanismo". A hibridação entre a uva malvasia da América e a autóctone também preocupa, "pois está modificando a genética da espécie nativa".

"Os principais efeitos das espécies invasoras é que competem com as autóctones pelos recursos alimentícios e pelo hábitat; mas em geral ainda desconhecemos muito sobre seu impacto", explica Jorge Cassinello, pesquisador do CSIC. Ele está estudando o caso do arrui, um mamífero ungulado de origem norte-africana que chegou na década de 1970 à Espanha, concretamente a Murcia, com finalidades ligadas à caça. Daí passou a ocupar serras vizinhas de Almeria, Granada e Alicante, e também se instalou na ilha canária de La Palma. Os estudos se destinam a comprovar se o urrui já compete pelos recursos com a cabra montesa.

Na Europa, o Mediterrâneo é a área marinha mais ameaçada; concretamente, 1.313 espécies de outros mares dificultam a viabilidade das locais em uma faixa de 2,5 milhões de quilômetros quadrados.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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