Como é uma feira de desempregados em tempos de crise nos EUA?

Marc Bassets

No sexto andar de um hotel em Boston, 80 pessoas - na maioria homens brancos entre 40 e 60 anos, de terno e gravata e uma pasta embaixo do braço - escutam Jay Wallus. Ele gesticula, grita, ri diante de uma tela onde projeta fotografias e frases.

"Acho que vocês vão gostar desta", repete a cada vez que se dispõe a contar outra anedota.

O discurso passa da maratona de Boston para um restaurante de beisebol na Flórida, dos biscoitos de queijo Cheez-It à vida de um pescador, do inventor da Starbucks a uma mulher que teve a ideia de escrever um livro chamado "Tudo o que os Homens Sabem sobre as Mulheres", com todas as páginas em branco, que vendeu um milhão de exemplares.

"Não me digam que isso não pode ser feito na América. O que foi necessário? Um currículo?"

REPORTAGEM DO THE NEW YORK TIMES

  • Fila de empregos revela o tamanho da crise



"Não!", respondem várias pessoas da plateia.

"Do que eu preciso?", insiste Wallus.

"De uma ideia", responde um homem.

"Uma ideeeia!", aprova Wallus, um motivador profissional de 44 anos, "showman" e pregador, conferencista nos quatro cantos dos EUA, vendedor de fórmulas mágicas para curar o mal de um país que sofre uma das piores recessões das últimas décadas.

São 10h30 da manhã e Wallus está aqui para preparar os que vão chegando a um hotel da cadeia Radisson em Boston, para participar de uma "job fair": literalmente, uma feira de empregos, uma espécie de mercado em que os desempregados entram em contato com empresas que precisam de funcionários.

O currículo é o grande inimigo do guru Wallus. "Eles precisam de alguém que resolva um problema, e não de um currículo", ele diz aos aspirantes. "Odeio ter de dizer isso, mas hoje vocês são vendedores. Estão vendendo a si mesmos." E mais: "São caçadores de empregos, e não distribuidores de currículos".

No final da conversa, Wallus mostra as cartas: "Eu sou um vendedor". E vende seu pacote pedagógico - como ter sucesso buscando trabalho -, que custa US$ 242, mas hoje só US$ 97. "E se vocês comprarem e não gostarem devolvo o dinheiro."

Se nos anos 1930 as filas do desemprego se transformaram em uma das imagens icônicas da Grande Depressão, hoje a imagem da recessão são as "job fairs". Nos últimos anos proliferaram por todo o país e agora atraem cada vez mais pessoas com o sonho de "conectar-se face a face", como reza o slogan da National Career Fairs, a empresa que organiza o encontro em Boston.

A "job fair" começa às 11h. A palestra de Jay Wallus é só um aquecimento para os primeiros a chegar. Durante as três horas seguintes, 750 pessoas desfilarão por uma sala contígua, mais ampla, na qual cerca de 30 empresas instalaram estandes onde oferecem informação e recebem solicitações de emprego.

Ali, atrás de uma mesa, está Dave Griswold, de cabelo branco, sorriso de galã, especialista em redigir currículos. Os aspirantes se aproximam, mostram seus currículos e ele sugere mudanças. Algumas mesas depois, o sargento Bryan Fletcher recruta soldados para a Guarda Nacional de Massachusetts, Estado do qual Boston é a capital. Ao todo receberá mais de dez currículos.

E mais além se encontram dois empregados do banco de investimentos Merrill Lynch, outra vítima da crise: agora faz parte do Bank of America. Eles não recrutam. Os bancos, e muito menos este, não estão para contratar ninguém.

Robert Edmunds e um colega seu do Merrill Lynch vieram em missão filantrópica, para aconselhar os desempregados e ajudá-los a "evitar a catástrofe durante a etapa de transição".

Quando alguém fica desempregado de repente, a catástrofe espreita em cada esquina, adverte Edmunds. Em quatro dias os bancos deixam de lhe dar crédito. A pessoa pode cair na tentação de sacar o dinheiro poupado para a aposentadoria. E o atraso no pagamento da hipoteca pode levar ao despejo.

A alguns metros da mesa da Merrill Lynch, Demetrios Salpoglou, bostoniano de pais gregos e conselheiro delegado da imobiliária Boardwalk Properties, não vê despejos em nenhum lugar. Pelo menos em Boston.

Salpoglou, 39 anos, de cabeça raspada, precisa de mais agentes. Sua empresa já tem 120 funcionários e pretende contratar mais 30 por ano. Ele diz que, ao contrário do resto dos EUA, o mercado imobiliário em Boston está "à prova de recessão", graças em parte ao fato de ser uma capital universitária - Harvard e o MIT estão na região de Boston -, onde os professores e estudantes vêm e vão, haja ou não recessão.

"Dave e eu", diz, referindo-se ao empregado que o acompanha, "temos segurança no trabalho garantida para o resto de nossas vidas."

Na próspera Boston, certamente a mais europeia das grandes cidades americanas, o índice de desemprego passou em um ano de 4,5% para 7,2%. Nos EUA, o índice supera 8%, o nível mais alto desde a recessão do início dos anos 1980.

É quase meio-dia e a "job fair" é uma dança. Os desempregados buscam parceiras, mas há pretendentes demais para poucas mulheres.

"Esta fila é para qual empresa?", pergunta uma delas.

"Não sei", responde um homem que espera na mesma fila. Simplesmente tentará a sorte.

O homem se chama Joseph - não dá seu sobrenome - e há três semanas trabalhava em uma gráfica. Tem uma filha de 16 anos. Deixou seu currículo no estande de um hospital - a empresa diante da qual se formam mais filas na feira - e no da empresa telefônica Verizon. Não lhe importaria mudar de ofício nem ganhar menos. "Tenho 56 anos. Estou ficando velho", sorri.

Steve Green, 48 anos, trabalhava há 16 no departamento de tecnologia de uma firma de investimentos. "Não encontro nada no meu setor. Aqui oferecem principalmente empregos de vendedor", constata. "Tenho três filhos, por isso preciso encontrar trabalho", acrescenta, acreditando que dentro de seis meses as coisas vão melhorar.

"Por enquanto eu mantenho o nível de vida anterior. Recebi uma indenização decente", afirma Christopher Ramsden, 44. "Mas mesmo quando você trabalha deixa de ir jantar fora ou de tirar férias." Há um mês perdeu o emprego no departamento de publicidade do banco Fidelity Investments de Boston. "Nunca tinha ficado sem trabalho mais de uma semana", ele diz.

A "job fair" de Boston é frequentada por muitos desses novos desempregados, membros da classe média mais ou menos acomodada que até há alguns meses não se imaginariam distribuindo currículos em um hotel.

"Habitualmente vêm pessoas com emprego de nível básico ou médio. Nas feiras não se contratam executivos nem conselheiros delegados. Mas estamos começando a ver pessoas mais experientes", explica Diana Richardson, da empresa organizadora do evento.

Os candidatos, segundo ela, não costumam estar preparados para se vender em uma feira de trabalho. O maior erro, ela prossegue, é "não se vestir profissionalmente, vir de suéter e jeans".

A "job fair" chega ao fim e a sala começa a se esvaziar. Em alguns dias esses desempregados saberão se, ao contrário da maré nacional de demissões, alguém os contrata.

Na entrada, uma fotógrafa tira retratos dos participantes em um estúdio improvisado. Na parede há um cartaz: "O modo como o veem socialmente é como o julgam profissionalmente".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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