Assassino em série vive e morre cantando

Orei Joan Baños

O assassino em série mais famoso da Indonésia não se satisfaz com a fama obtida por causa de seus crimes horrendos. Verry Idham Henyansyah, mais conhecido como Ryan, quer ser artista. E mesmo que morra no paredão, e não no palco, quer morrer cantando. Como nunca é tarde para ser feliz, neste mês de abril lança à venda seu primeiro álbum, "Minha Última Atuação". Um título de humor negro, levando em conta que dentro de alguns dias sairá sua sentença, muito provavelmente a condenação a ser executado por um pelotão de fuzilamento.
  • Bay Ismoyo/AFP

    O indonésio Henyansyah publicou suas memórias onde admite 11 assassinatos de que é acusado



Ryan, um ex-modelo que foi detido em julho passado, teve tempo desde então para criar uma dúzia de canções. As gravou na prisão mesmo, já que, diante de sua fama, não teve problemas para encontrar uma gravadora. Nestes dias que antecedem a saída do disco, Ryan, 31 anos, deleita seus companheiros de prisão e os carcereiros com interpretações melosas de temas tão sentidos como "Mamãe, perdoe-me" ou "Tirem-me esses grilhões". Ele faz isso vestido de branco e com a cabeça coberta ao modo muçulmano da Indonésia. "Parece uma estrela, com essa cara de anjo", exclama um presidiário subitamente enternecido.

O assassino pop também não teve problemas para encontrar uma editora, pela qual publicou no mês passado suas memórias, "A História Não-Contada de Ryan". Nelas, o criminoso admite os 11 assassinatos de que é acusado e inclusive acrescenta um plano do jardim de seus pais, no leste rural da ilha de Java. Nele não localiza árvores frutíferas, mas o lugar exato onde enterrou os cadáveres de suas vítimas. "Quase todos eram homossexuais como eu", explica Ryan. Com alguma exceção, como uma mulher que se atreveu a insinuar-se. Primeiro a matou e depois a sua filha de 3 anos, que tinha presenciado o crime.

No livro também revela sua agitada trajetória - de recitador do Corão a modelo - e as complicações de sua vida como homossexual em um país muçulmano e puritano como a Indonésia. É seu testamento de efêmero ícone islamo-gay, que não confirma nem desmente a existência de fotos na Internet nas quais apareceria nu.

Mesmo assim, Ryan se considera um homem de princípios: "O amor é muito importante para mim. Fico furioso quando dizem que no mundo gay não há lealdade". Ryan se irritava com as propostas de outros homens, às vezes com dinheiro no meio: "Me faziam sentir barato. Eu me aborrecia, brigávamos e, acidentalmente, os matava", confessou. Os ciúmes também lhe pregaram peças. Sua última vítima, Henry Santoso - um ex-namorado -, lhe ofereceu dinheiro e um carro para dormir com seu novo namorado. Louco de fúria, Ryan garante que quando percebeu - de navalha na mão - já não tinha na sua frente um homem, mas sete pedaços de carne que couberam sem problemas em uma mala e uma sacola de viagem. Sua descoberta, em uma vala em Jacarta, foi o que permitiu à polícia encontrar a pista.

O advogado de acusação, Budi Hartawan, parece ser dos poucos que não aplaudem a súbita vocação cantora do assassino. "Os crimes de Henyansyah são sádicos e impiedosos. Estava plenamente consciente quando cometeu os assassinatos e não demonstra remorso. Ao ver que não era descoberto, voltou a assassinar várias vezes." O assassino pop goza hoje seus últimos dias de fama, em que as pessoas fazem fila para tirar fotos diante de sua cela, sob o olhar complacente dos carcereiros. Mas não está nada claro se terá tempo para desfrutar seus direitos autorais.

Diferentemente do mais famoso dos criminosos em série asiáticos, Charles Sobhraj, um indo-vietnamita conhecido como "o assassino de biquíni". Sobhraj, que atualmente cumpre pena de prisão no Nepal, exprimiu aos que quiseram relatar sua história em livros ou filmes, cobrando inclusive valores astronômicos pelas entrevistas que concedeu durante seus anos de liberdade em Paris. Antes havia roubado dinheiro e passaporte de suas vítimas ocidentais em busca de exotismo, as quais convertia em adeptas graças a seus dotes de sedutor. Depois lhes administrava um veneno e voltava a mudar de identidade.

Recentemente foi inaugurada uma estátua de Sobhraj em um restaurante em Goa, que o representa sentado e algemado na mesa onde foi detido pela penúltima vez, nos anos 1980. O restaurante, chamado O Coqueiro, foi premiado no mês passado não por seu humor duvidoso mas por sua cozinha, pelas mãos da ministra da Cultura e, pasmem, do ministro do Interior.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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