Viagem à origem da escravidão

Tomás Alcoverro

Houve um tempo em que penas de aves impregnadas de ouro em pó, chamadas de metical, que hoje é o nome da moeda nacional da república, serviam como instrumento de troca nestas vastas terras africanas. A ilha de Moçambique era a capital desta antiga colônia portuguesa, escala no caminho para as Índias, empório florescente do tráfico de escravos, do comércio de ouro e de marfim. Há outras ilhas, coladas ao continente, como a do extinto sultanato de Zanzibar na Tanzânia, e a de Gore no Senegal, que também foram utilizadas durante séculos pelos comerciantes de escravos, árabes e europeus, como centros de concentração e portos para exportá-los ao Oriente Médio, Brasil e Cuba.

Por uma ponte estreita de três quilômetros e meio, chega-se a esta ilha no norte de Moçambique. A população se dividiu, desde a época colonial portuguesa, entre a cidade de Pedra, com sua grande fortaleza, seus fortes, igrejas, palácios e casas bem construídas, e a cidade Macuti, assim chamada porque é o nome, na língua macua, das folhas de palmeira que cobrem desde sempre as cabanas habitadas pelos negros. Em Zanzibar também há um antigo núcleo urbano de pedra, que foi habitado por árabes e ingleses, e bairros mais vulneráveis e pobres da população negra de escravos. Foram seus descendentes, como narra Kapuscinski, que armados com trabucos e facões, derrubaram, nos anos 60, o governo do sultão.

A cidade de Macuti é superpovoada devido aos refugiados que, afugentados pela longa guerra civil moçambicana que começou depois da guerra de independência contra Portugal, vieram da vizinha terra firme.

A indigência e a pauperização de seus habitantes - crianças em farrapos, sujas, de cabeças raspadas; mulheres descalças envoltas em saias ou capulanas [pano colorido usado como saia]; homens envelhecidos e indolentes (a expectativa de vida não chega aos 50 anos) - são ainda mais evidentes em meio à fecundidade e exuberância dessas paisagens, vivificada pelas chuvas do trópico. Na ilha de Moçambique, a maioria da população é muçulmana, como em outras regiões do norte da república, e há mesquitas humildes dispersas, pintadas de verdade, desprovidas de minaretes. A influência árabe, através da língua swahili e dos costumes da ilha, é muito patente na vida diária.

Em sua praia cheia de lixo, onde o peixe é vendido, há, debaixo de uma rede, um pobre mercado de cocos. Os dhoves, tradicionais embarcações do golfo Pérsico e do Oceano Índico, com suas velas coloridas, ficam encalhados na areia.

A cidade de Pedra, com seus monumentos, ficou abandonada desde que os portugueses a deixaram. Muitas de suas mansões e casas estão fechadas e vazias. O grande hospital, com suas escadas majestosas e seus pavilhões, está desativado. Só em algumas dependências acontecem consultas médias. A malária e a Aids foram especialmente virulentas para a população de Moçambique.

Ironicamente, a fortaleza de São Sebastião, o palácio de São Paulo, antiga residência do governador, e os demais monumentos erigidos desde o século 15 pelos portugueses se mantêm em bom estado para a visitação dos turistas. Todos têm a grande ilusão de que algum dia, graças ao turismo, esta cidade bela e sensual se transforme numa cidade jardim.

A contemplação da elegância de seus móveis e porcelanas palacianas procedentes da Índia, a riqueza de seus objetos sagrados barrocos, recolhidos de igrejas e capelas, é uma tortura quando se rememora o imenso sofrimento dos escravos na ilha antes de embarcarem rumo à América.

Pelo relatório de um dos governadores lusitanos da época, sabemos que todos os materiais da construção dos edifícios foram carregados sobre as costas dos escravos, porque não havia carroças nem animais de carga na ilha. Os negros escavavam os canteiros para extrair a pedra e construir as casas dos brancos. Até o ano de 1974, existiam riquixás na ilha, veículos de transporte de duas rodas, muito comuns na Índia, movidos graças à extenuante tração humana.

Ao perambular por essas praças e ruas em decadência, com belas acácias, é preciso conter a tentação de sentir nostalgia pelo passado dessa cidade de diversas etnias, culturas e línguas, lembrando os insondáveis sofrimentos de sua população ancestral, porque a exploração dos negros foi o que lhe conferiu prosperidade ao longo dos séculos.

À noite, em meu pequeno hotel, em meio a uma súbita tempestade tropical, ouve-se uma canção popular que em macua, a língua mais falada pela população do norte de Moçambique, chama-se Tenha Paciência.

Tradução: Eloise De Vylder

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