Hospital de Barcelona abre caminho para melhorar o tratamento dos tumores cerebrais

Por Josep Corbella

Pesquisadores do hospital Vall d'Hebron descobriram como evoluem os gliomas - o principal tipo de tumor cerebral - e como se transformam numa das formas de câncer mais difíceis de tratar. O avanço aponta para novas estratégias que, em tese, devem melhorar o tratamento dos gliomas. O Vall d'Hebron já começou testes clínicos para comprovar se, na prática, essas estratégias se traduzem em benefícios para os pacientes.

"É preciso alertar as pessoas que foram diagnosticadas com tumores e seus familiares de que ainda não sabemos se estes tratamentos serão eficazes, não queremos criar falsas esperanças", diz Joan Seoane, pesquisador do Instituto de Oncologia Vall d'Hebron e diretor do trabalho.

O glioma

O glioma é o tipo de tumor mais comum do sistema nervoso. É um tipo de câncer que não afeta os neurônios, mas sim as células gliais, ou seja, aquelas que desempenham uma função de suporte para os neurônios. Os sintomas variam segundo a localização do tumor, que pode se localizar tanto no cérebro como na medula espinhal. O tratamento costuma combinar cirurgia, quimioterapia e radioterapia

A pesquisa é centrada nas células-mãe dos gliomas, que são consideradas responsáveis pela origem da doença, por sua resistência aos tratamentos disponíveis e pelas recaídas dos pacientes. Nas primeiras fases do câncer, as células-mãe representam apenas uma pequena proporção do total de células do tumor. Entretanto, mesmo que os tratamentos de quimioterapia e radioterapia destruam a grande maioria das células cancerígenas, eles têm uma eficácia limitada frente às células-mãe. Por isso, nas fases mais avançadas da doença, a proporção dessas células aumenta no tumor.

"Se conseguirmos atacar com êxito as células-mãe, poderemos frear o progresso do tumor", destaca Seoane. Sua pesquisa esclarece precisamente como as células-mãe se proliferam no glioma e identifica três pontos vulneráveis por onde atacá-las.

Os resultados, apresentados nesta semana na revista científica Cancer Cell, demonstram que a proliferação das células-mãe dos gliomas se deve a um efeito dominó no interior do tumor. Inicialmente, uma proteína denominada TGF beta é ativada na membrana das células tumorais. Isso faz com que as células segreguem uma proteína denominada LIF, que, por sua vez, ativa a proteína JAK nas células-mãe do glioma, fazendo com que a população destas células se renove.

Para evitar que a população de células-mãe se renove, é preciso agir contra alguma dessas proteínas. Existem pelo menos quatro medicamentos experimentais que atuam contra a TGF beta, a LIF e contra a JAK (há outras proteínas envolvidas no efeito dominó, mas uma vez que não existem fármacos contra elas, foram desconsideradas para não complicar a explicação).

Alguns desses medicamentos, que a princípio não foram criados com o objetivo de tratar os gliomas, estão sendo testados em pacientes com tumores cerebrais no hospital Vall d'Hebron. Os testes são feitos em grupos reduzidos de voluntários. Se os resultados forem positivos, eles deverão ser estendidos a grupos mais numerosos no futuro. Os experimentos são dirigidos por Josep Baselga, chefe do serviço de oncologia de Vall d'Hebron e do Instituto VHIO, em colaboração com Juan Sahuaquillo, chefe do serviço de neurocirurgia.

O objetivo dos pesquisadores nesse momento ainda não é curar os gliomas, já que por enquanto não se conhece nenhuma maneira de erradicar todas as células-mãe. Porém, "não é descabido pensar que num futuro muito próximo poderemos controlar a doença da mesma maneira que é possível controlar a Aids numa grande proporção de pacientes", explica Seoane.

Segundo essa estratégia, os médicos poderiam avaliar o tratamento adequado para cada paciente nas diferentes fases da doença, analisando o nível das proteínas TGF beta, LIF e JAK presentes num glioma. E, com a combinação adequada de medicamentos, poder-se-ia frear o progresso do glioma do mesmo modo que os antirretrovirais conseguem frear a progressão da Aids, apesar de não erradicar o HIV do organismo.

Tradução: Eloise De Vylder

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