Elise: sequestrada três vezes pelos próprios pais

Lluís Uría

A história de Elise André, uma menina de nacionalidade franco-russa de três anos e meio, poderia ser a de tantas outras crianças transformadas em reféns das disputas de seus pais depois de um divórcio. A história banal de uma família desfeita. Se não fosse pelo fato de Elise, com sua pouca idade, tivesse sido vítima de três sequestros consecutivos - alguns com violência - pelos seus próprios progenitores ou por bandidos contratados para tal fim. E porque o conflito que separa esta família desde o final de 2007 acabou forçando a intervenção das diplomacias da França e da Rússia.

Patrick Gherdoussi/AP - 14.abr.2009 
Jean-Michel Andre beija sua filha Elise, em Marseille, França

Irina Belenkaya, mãe de Elise - que chama a filha de Lisa, em russo -, foi detida junto com sua filha na noite de domingo (12) no povoado húngaro de Tiszabecs, no nordeste do país, quando se dispunha a atravessar a fronteira para entrar na Ucrânia e, de lá, prosseguir caminho até a Rússia, onde mora. Três semanas antes, em 20 de março, Elise havia sido seqüestrada por três indivíduos - dois homens e uma mulher - quando passeava com seu pai, Jean-Michel André, oceanógrafo de profissão, pelas ruas de Arlés (Provença), onde ele mora. O pai foi violentamente agredido pelos bandidos, mas Elise - dizem testemunhas da cena - não gritou, nem chorou.

Era a terceira vez que a pequena Elise era levada a força por um de seus progenitores. Na primeira ocasião foi sua mãe, que em novembro de 2007 rompeu com o marido - que havia conhecido na faculdade em Paris, sete anos antes - e levou a filha consigo para a Rússia. Na segunda, foi o pai, que no ano seguinte foi até Moscou e pegou a filha numa distração da babá. Irina Belenkaya, que está detida na Hungria, tinha duas ordens europeias de busca e captura por sequestro. Jean-Michel André é perseguido pelo mesmo motivo pela justiça russa.

O caso, além do juízo moral que mereça a atuação de cada um dos protagonistas deste drama, está longe de ser claro e transparente. Porque a resposta para a pergunta de quem tem a custódia é: os dois. Por trás do conflito por Elise há uma enorme confusão jurídica que acabou tendo implicações políticas. A justiça francesa outorgou a custódia de Elise ao pai, enquanto a justiça russa a concedeu à mãe. Com dupla nacionalidade, a menina nasceu em 2 de novembro de 2005 em Moscou, o que aos olhos russos é um dado relevante.

Consequentemente, para as autoridades russas, a forma pela qual os franceses e húngaros fizeram as coisas é inaceitável, em particular a rapidez com que as autoridades húngaras devolveram Elise a seu pai, que na segunda-feira (13) viajou a Budapeste e ainda na quarta-feira (15) voltou para a França com a filha.

O ministro de Assuntos Exteriores russo, Serguei Lavrov, expressou os protestos de Moscou pelo que considerou uma "decisão precipitada" e propôs a Paris uma reunião de juristas de ambos os países - entre os quais não há nenhum convênio de cooperação sobre o assunto - para resolver o conflito jurídico que rodeia o caso. Pouco desejoso de acrescentar ao problema um conflito diplomático, o Quai d'Orsay - ainda defendendo a legalidade do procedimento adotado - aceitou a busca de uma solução conjunta "pelo interesse maior da menina".

O que pensa ou deseja Elise é um mistério. A única coisa que ficou clara foram algumas palavras sucintas, captadas pela televisão, depois de seu resgate: "Estou cansada".

Tradução: Eloise De Vylder

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