Para quem a Índia brilha

Jordi Joan Baños

"É proibido entrar com tabaco", avisa um vigilante, impassível, no coração de Nova Déli. O visitante quase não se surpreende por ter de passar por um detector de metais para entrar numa praça, porque já foi revistado na estação de metrô - assim como todos os passageiros - e sua bolsa foi inspecionada. Circundar o perímetro de Connaught Place [praça circular que abriga o centro de negócios da cidade], que é muitas vezes maior do que o da praça da Catalunha, por si só já é cansativo quando se é obrigado a localizar o único acesso aberto por motivos de alerta antiterrorista. Mas a poluição galopante das cidades indianas, que só deve aumentar com o novo Tata Nano, torna o passeio ainda mais fatigante. Por isso, o visitante tem a sensação de que estão pegando no seu pé quando lhe pedem o maço de cigarros, por mais que repita que não pensa em fumar dentro do parque.

"Seria melhor se controlassem a fumaça dos carros; na minha cidade, Calcutá, é insuportável, estamos todos doentes", afirma Lopamudra, estudante do suntuoso Instituto Cervantes, que fica nas proximidades. Preocupações de rico e pressa em sentar-se na mesa dos poderosos: não seria um resumo equivocado das piores manifestações do ciclo político que termina agora e que na realidade dura desde o começo dos anos 90. Em um terraço da praça, um copo de cerveja custa três euros, mais do que 90% dos indianos ganha em um dia de trabalho. Os mesmos indianos a quem a líder intocável Mayawati disse defender, ainda que ela mesma tenha várias propriedades nessa mesma praça, uma das mais caras do mundo.

Sob supervisão do primeiro ministro
Mahmohan Singh destaca o crescimento econômico dos últimos cinco anos, acima dos 17%, sem precedentes na história da Índia. O economista superou as expectativas que Sonia Gandhi tinha em relação a ele quando decidiu ceder-lhe o cargo de primeiro-ministro em 2004, para evitar que suas raízes italianas expusessem seu governo a uma chantagem permanente por parte da oposição. "Bravo para Sonia", dizem todos os barbeiros de Déli - e de Mumbai (antiga Bombaim) - muitos deles muçulmanos. "A classe política se degradou desde os anos 70, mas há exceções em todos os partidos, como os primeiros-ministros de Déli, Sheila Dikshit; Caxemira, Omar Abdullah; e Bihar, Nitish Kumar", explica o historiador Ramachandra Guha.

Uma jovem advogada me lembra o quanto que a defensora pública do único terrorista sobrevivente dos atentados de Mumbai (o julgamento começou na quarta-feira, 15) vai cobrar por sua assistência legal em todo o processo: oito euros. "É possível evitar a corrupção com esses salários? Os juízes são os primeiros corruptos".

O professor Manmohan Singh tem uma fama merecida de homem honrado - ainda que faça vista grossa dentro do partido -, mas é um tecnocrata que nunca teve que lutar pelo voto popular para conseguir uma cadeira no Congresso (Lok Sabha), mas que foi designado para o Senado (Raj Sabha) uma vez ou outra, também nessa ocasião.

Poucos duvidam que a linha política do governo não é dada por Singh, mas por Sonia Gandhi, presidente do partido e da multifacetada coalizão governante, a Aliança Progressita Unida (UPA, em inglês). "Manmohan toca os pés dela quando a vê", disse-me um diplomata.

Tradução: Eloise De Vylder

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