A tensão aumenta em Atenas

Andy Robinson

Desde os tumultos de dezembro, o bairro universitário de Exarchia é território liberado para o público do clube anarquista Nosotros. Já não é mais só o campus universitário, refúgio antipolicial há 25 anos em homenagem aos 30 mortos na revolta estudantil contra a junta militar grega em 1973. Agora, o bairro todo é terreno proibido para a polícia depois da morte de Alexis Gregoropoulos, atingido por uma bala policial em dezembro, fato que detonou uma semana de tumultos em Atenas. "Nenhum guarda vai pisar em Exarchia por medo de provocar algo grande", afirma Vassilis Papadimitriou, porta-voz do Partido Socialista (Pasok).

A liberdade tem seus prós e contras. Na rua onde Gregoropoulos morreu - batizada de rua Alexis, sem consultar a prefeitura - se vê o positivo. Armados com furadeiras, um grupo de cidadãos transformou da noite para o dia um velho estacionamento em um jardim com árvores e balanços: a prefeitura planejava ali uma zona verde, mas os moradores não querem promessas eternas.

"Alguém veio e plantou esse plátano que custa € 400", disse Panos, um barbudo de vinte e poucos anos que participava de uma assembleia ao ar livre, em que se debatiam maneiras de reduzir o ruído na zona com a participação dos moradores. "Se não fosse pelos protestos de dezembro, isso não estaria acontecendo", acrescentou.

Em uma cidade urbanizada de forma anárquica devido à especulação imobiliária, capital de um país de corrupção endêmica em que "todas as instituições estão desacreditadas", diz Panos, a ação direta pode ser a única forma de estabelecer ordem.

Mas também existe um lado obscuro da nova liberdade ateniense. "Estamos em uma situação de terrorismo light", diz Stelios Kouloglou, diretor do novo portal de esquerda Tvxs.gr. Por terrorismo ele não se refere ao vandalismo mais ou menos politizado que já é comum em Atenas; os "carros queimados quase todas as noites"; a destruição de 80 lojas, seis agências bancárias e 37 carros de luxo no fim de março, no bairro de Kolonkai - ironicamente muito perto da loja de roupas da mãe de Alexis - por uma dezena de jovens encapuzados que protestavam contra o julgamento do assaltante de bancos anarquista Giorgios Voutsis-Vogiatzis.

O preocupante não é isso, diz Kouloglou, mas sim a proliferação de grupos de guerrilha urbana cujos alvos, além da polícia e dos banqueiros, também são os meios de comunicação. Em janeiro o grupo Luta Revolucionária - que disparou uma granada contra a embaixada dos Estados Unidos antes dos tumultos - atacou duas vezes escritórios do Citigroup e feriu gravemente um policial em um tiroteio. Um mês depois, um novo grupo - Sekta Epanastaton (Seita Revolucionária) - lançou uma granada caseira contra a sede da rede de TV Alter. Do outro lado, um grupo de supostos neonazistas atirou uma granada de mão pela janela de uma sala de aula em Exarchia, onde se reuniam rebeldes contra o serviço militar.

"Atenas é hoje a 'Laranja Mecânica', com uma violência descontrolada; e nos campi universitários todos querem fazer algo, como a Itália nos anos 1970", diz Kouloglou. "Os grupos violentos e traficantes de droga aproveitam" o histórico refúgio antipolicial da universidade.

Kouloglou - exilado durante os anos da junta - e outros da geração de protesto dos anos 1960 e 1970 se mostram ambivalentes diante da onda de politização e violência juvenil. "Minha filha tem 14 anos; seis meses atrás ela não se interessava por política; agora não fala de outra coisa; isso é maravilhoso, mas as mobilizações estão totalmente desconectadas do sistema político", afirma Yanis Varoufakis, economista da Universidade de Atenas.

Crescem os temores entre os antigos ativistas de que a violência juvenil vá provocar medidas severas por parte do governo conservador de Kostas Karamanlis. Ele já decretou leis de constitucionalidade duvidosa, como a proibição de capuzes nas manifestações, e a contratação de especialistas da Scotland Yard, cujos métodos para controlar tumultos custaram a vida do passante Ian Tomlinson durante a cúpula do G20 em Londres. Ainda que caia o governo Karamanlis, o vencedor das eleições - muito provavelmente o socialista Giorgos Papandreu - "vai herdar uma bomba", avisa Kouloglou.

Tradução: Lana Lim

UOL Cursos Online

Todos os cursos