"Minha mãe colocou uma granada entre as fraldas e saímos", diz filha de guerrilheiro do M19

Por Lluís Amiguet

O jornal La Vanguardia entrevista María José Pizarro, filha de Carlos Pizarro, líder da guerrilha colombiana Movimento 19 de Abril - o M19.

Tenho 31 anos: ainda tenho dúvidas dos 18, mas minha filha já começou a respondê-las. Nasci em Bogotá quando meus pais estavam na guerrilha, e vim para Barcelona por causa de Serrat. Sou joalheira, assim como Aureliano Buendía. Colaboro com a exposição "Já volto", da Casa América.

Os liberais na Colômbia eram uma guerrilha... Lembra o coronel Aureliano Buendía, do livro "Cem Anos de Solidão?"

Sim, claro. Ele fala da guerra "dos mil dias", em 1940. Por fim, houve um acordo de paz aqui em Benidorm, com uma alternância de liberais e conservadores, mas parte da guerrilha não aceitou o acordo e foi essa parte que acabou formando as Farc. E ainda continuam lá, na selva.

Meu avô, almirante, era chefe das Forças Armadas Colombianas, mas meu pai, Carlos Pizarro, junto com meus dois tios, tia Nina e tio Hernando, tornaram-se comunistas e depois guerrilheiros das Farc, como muitos jovens colombianos nos anos 70.

Foi uma década guerrilheira...

Mas meus pais entendiam que a revolução colombiana não era a soviética, a chinesa ou a cubana, mas sim colombiana, e que deveria ser urbana e dinâmica, ligada à realidade do país e não uma eterna sombra na selva... Uma moderna guerrilha urbana.

Tampouco era um criadouro de heróis. Meu pai não quis ser um herói, mas sim gozar da vida acima de tudo, o modelo colombiano. Por isso aos
18 anos abandonou as Farc. Deixou um bilhete sobre o uniforme que
dizia: "Já volto"...

Isso tinha algum significado oculto?

Com certeza, meu pai gostava de poesia. As Farc o procuravam. Enquanto isso, os sociais-democratas da Aliança Nacional Popular, a Anapo, ganharam as eleições, mas o governo deu um golpe: fraudou as eleições e por isso meus pais participaram da fundação, em 1973, do Movimento
19 de Abril para exigir respeito à legalidade.

E em 1974 roubaram a espada de Simón Bolívar para reivindicar o espírito bolivariano, do qual ninguém falava na época. Logo eu nasci e pouco depois o M19 roubou 5 mil armas do exército, cavando um túnel embaixo do arsenal.

A confusão revolucionária...

Que desencadeou detenções em massa. Meu pai recebeu um telefonema de alerta. Nos pegou às pressas e, por via das dúvidas, colocou uma granada de fragmentação dentro da sacola com as minhas fraldas. Deixou-me com minha avó - que também foi interrogada - e depois meus pais foram torturados em Picota e Bucaramanga.

O que contaram a você sobre isso?

Meu pai transformou sua prisão em processo contra o regime. Depois de três anos de um tenso estado de emergência acabaram por libertá-los com a lei de anistia de 1983.

E ele abandonou as armas?

Ainda não havia condições para isso. Enviaram-me para Cuba por um ano, depois morei com minhas avós, sob ameaças de morte e sequestro; até que aos 8 anos, quando meu pai já dirigia o M19, enviaram-me para a França, e entrei numa depressão terrível ali sozinha.

Era apenas uma menina. Minha avó disse que preferia me ver morta a me ver morta de tristeza e foi me buscar. Minha mãe abandonou o M19, mas então sequestraram o conservador Álvaro Gómez e tivemos que vender a casa e fugir para o Equador, até que meu pai nos disse que finalmente o processo de paz transcorria com seriedade e voltamos.

Teve tempo de falar com seu pai?

Sempre que tomavam um vilarejo ele ligava para casa e me contava. Eu sentia que era a parte mais importante daquilo pelo qual ele lutava.
Quando deixou as armas, eu tinha 12 anos. Candidatou-se às eleições presidenciais e eu não me separei mais dele. Então fui feliz.

Já não faz tanto tempo desde então.

Isso foi em 1990. Já haviam assassinado outros três candidatos, quando pedimos que ele fugisse ou que pelo menos - eu pedi chorando que ele colocasse o colete a prova de balas, e ele falou que aquilo era uma bobagem, que não tinha utilidade já que iam matá-lo com um tiro na cabeça.

No dia seguinte, foi morto com 15 balas com uma Mini Uzi por um assassino de 21 anos, que também morreu quando o avião em que voavam caiu.

O que você pensou ao saber da notícia?

Eu estava no liceu francês, matriculada com outro nome, quando a diretora chegou e perguntou por mim, e eu pensei que seria expulsa novamente, porque todos os colégios me expulsavam por causa do medo quando ficavam sabendo quem era meu pai, mas ela me levou para sua sala e minha mãe estava lá chorando e eu adivinhei tudo, e não me lembro de mais nada daqueles dias.

O que fez depois?

Ninguém nos perturbou mais. Continuei estudando até os 18 anos, quando comecei a fazer perguntas. Viajei durante seis anos pela América buscando respostas.

Quando voltou?

Aos 23 fiquei grávida de minha filha e decidi voltar, mas então Carlos e Fidel Castro admitiram haver instigado a morte de meu pai, e já não pude mais. Fui à embaixada espanhola e pedi asilo. Disseram-me para escolher a cidade.

E?

Pensei em Barcelona por causa de Serrat e do Mediterrâneo. Peguei minhas coisas e vim com mil euros que minha irmã havia me deixado.

Imagino que foi duro: isso não é fácil.

Fiquei muito sozinha. Era uma imigrante sul-americana; mãe solteira jovem e sem dinheiro. Fui empregada doméstica até que consegui um emprego administrativo - graças a meus idiomas - em uma agência hoteleira por 700 euros por mês. Minha irmã me deu uma bolsa para estudar joalheria em Massana.

Por que joalheria?

Talvez porque meu pai sempre dizia que queria acabar de frente para o mar fazendo peixinhos de ouro como Aureliano Buendía.

De um país próximo

María José fala comigo num espanhol afetuoso, doce e expressivo, e com seu namorado ensaia um catalão ainda incipiente, mas já carregado de carinho. Seu namorado me diz com orgulho que a jovem estudou joalheria em Massana. Depois de escutá-la, baixo um vídeo de seu pai, Carlos Pizarro, na internet e verifico que, mesmo depois de anos e milhas de distância, seu carisma continua vivo por debaixo do chapéu panamá.
Vejo-o com armas em mão pedindo justiça para o povo e, anos depois, entregando a última pistola do M19, e antes de morrer como candidato social-democrata em campanha, microfone em punho, pedindo o fim "do ciclo interminável das guerras civis colombianas": fazendo campanha pela paz. E ele não soa tão distante.


Tradução: Eloise De Vylder

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