Caso Madeleine: nas mãos da fé

Sergio Heredia

Em 21 de julho de 2008, um ano e dois meses depois do desaparecimento de Madeleine McCann na Praia da luz em Portugal, a promotoria portuguesa encerrou o caso. Não havia provas, nem pistas, nem suspeitos. Assim, desde então, tudo parecia estar nas mãos de Deus. Incapazes de aceitar as circunstâncias, os McCann se transformaram numa espécie de missionários da fé. Os pais fervorosos visitaram o Papa e lutam pela memória da filha perdida atualizando sua página na internet (Findmadeleine.com) para manter o caso vivo, além de colocarem o assunto nas mãos de detetives particulares.

"Até agora, ninguém encontrou nenhum indício de que Maddie esteja viva. Mas todos nós esperamos que ela volte um dia", disse o pastor Haynes Hubbard.

Homem jovem, com olhar franco e pastor da igreja anglicana de Saint Vincent, Hubbard tem um forte aperto de mão. Amigo e conselheiro dos McCann, sua influência sobre a comunidade britânica da ilha é evidente. Dezenas de fiéis frequentam sua paróquia em busca de uma notícia que não chega. "Tomara que a menina volte. Mas, enquanto isso, é melhor esquecer - diz ele. - O povo está cansado e não quer se lembrar do caso. É triste, mas é compreensível. É uma coisa trágica: se não falarmos, o caso pode ser esquecido".

Entretanto, os McCann não esquecem. Desde a Inglaterra, seguem adiante em sua cruzada. Os investigadores de seu site atendem a todos os chamados, investigando todas as pistas. As hipóteses são muitas. Um sequestro, um assassinato, um erro. "Não podemos contar nada do que sabemos", respondem por telefone. Sabe-se muito pouco sobre Robert Murat, cidadão britânico de um vilarejo vizinho, considerado suspeito (ou arguido, na linguagem judicial portuguesa) desde que algumas testemunhas acreditaram reconhecê-lo atravessando a noite com a menina nos braços (por fim, não apareceram provas que permitissem processá-lo). "Eu não voltei a vê-lo", disse o padre.

Ignorando as pistas, os McCann se agarram à sua fé. Não permitirão que o caso seja abandonado (sua página na internet recebeu 60 milhões de visitas logo depois de ir ao ar). Empenhado no assunto, o casal redobrou os esforços. Consciente de que os fundos para a investigação estão se esgotando, Gerry visitou Praia da Luz no começo de abril para preparar um documento sobre o caso (que será divulgado nesta quinta-feira, quando Maddie completaria seis anos.). Nesse dia, aconteceram fatos terríveis na vila: dezenas de vizinhos se reuniram ao redor de Gerry, que foi cercado e até mesmo agredido.

Depois viajaram para os Estados Unidos, onde o assunto ganhou as manchetes. Em Chicago, o casal viveu um momento bastante emotivo. Durante uma entrevista ao vivo para a TV, a popular Oprah Winfrey teve que enxugar as lágrimas: Kate acabava de lhe mostrar o rosto que Maddie teria hoje, numa simulação feita pelo Centro Nacional de Crianças Desaparecidas e Exploradas de Alexandria (Virgínia).

Calcula-se que o programa, que será transmitido na segunda-feira, reúna cerca de 1,2 bilhão de pessoas de 144 países em frente à televisão. "O casal saiu devastado dessa experiência. Acho que não vão querer falar com ninguém nos próximos dias", disse um cronista do Channel 5, enviado a Praia da Luz.

Enquanto isso, os investigadores portugueses revelam suas últimas descobertas, cada vez com menos certezas. Gonçalo Amaral, inspetor que coordenava a investigação antes que ela fosse arquivada, declarou ao TV1 Channel que há indícios para acreditar que Maddie morreu no mesmo dia de seu desaparecimento. É uma tentativa desesperada: Amaral mantém sua tese de que os McCann são culpados e que deveriam voltar à condição de suspeitos. "Se Madeleine aparecerá?", pergunta-se um vizinho. "Não sei, mas duvido. Parece quase impossível. Se foram os pais? Também não sei. O caso é que o assunto foi encerrado por aqui. E ninguém tem a mínima ideia de nada".

Tradução: Eloise De Vylder

UOL Cursos Online

Todos os cursos