Um palestino e um israelense discutem a impossibilidade de acordo no Oriente Médio

Isabel Ramos Rioja

Eles pertencem a povos muito próximos que, por vicissitudes da história, estão há décadas em conflito. Cada um à sua maneira, em ambos os lados, há quem deseje uma aproximação. Hanna Siniora e Shlomo bem Ami são duas dessas pessoas. Siniora é um cristão palestino, ex-conselheiro da OLP, cavaleiro da ordem de Malta (título também concedido a Nelson Mandela), editor do jornal The Jerusalem Times e codiretor do Centro Israelense-Palestino para Pesquisa e Informação (IPCRI). Bem Ami, nascido em Tetuão, no Marrocos, foi o segundo embaixador de Israel na Espanha depois do estabelecimento de relações diplomáticas. Também foi ministro do Interior e de Assuntos Exteriores no governo do trabalhista Ehud Barak. Participou da Conferência de Paz de Madri em 1991, dirigiu as negociações de paz na cúpula de Camp David e participou das negociações em Taba. Atualmente é vice-presidente do Centro Internacional de Toledo pela Paz (CITpax).

Os dois inauguraram, com um diálogo recente em Barcelona, a linha de Estudos Nacionais e Identitários da Universidade Aberta da Catalunha (UOC).

O conflito no Oriente Médio
"O acordo é impossível", diz Shlomo bem Ami, representante israelense no processo de paz.

Quando Israel vai deixar de dar desculpas para a paz? Ora dizendo que Arafat era terrorista, corrupto, ora alegando a falta de democracia ou a vitória democrática do Hamas?

Pode ser que você tenha razão em tudo o que disse. Temos que nos perguntar por que não se chegou a um acordo nos momentos em que ninguém tinha nenhuma desculpa. Em Camp David, quando éramos um governo minoritário, seria o suicídio. O paradigma é falso. Talvez exista uma impossibilidade intrínseca na solução que estamos buscando.
A ideia de dois Estados nunca foi natural para o movimento palestino.
Houve uma janela aberta entre 1988 e 1991, quando a ideia foi imposta ao povo palestino. Naquela época, Rabin estava lá e ele teria chegado ao mesmo ponto que Barak e eu. Ao perder essa oportunidade, ficamos num vazio. A ideia de dois Estados se transformou num fetichismo. O máximo israelense não encontrará o mínimo palestino.

O que fazer então?

Há três opções. A primeira, insistir na solução de dois Estados apesar de tudo. Está mais do que provado que os dois lados não estão preparados para cruzar o rio em que se transformou o oceano que os separava. Egito, Arábia Saudita, Jordânia e Marrocos, e os EUA, a UE e a Rússia têm que apresentar propostas vinculadas. Se os dois lados não chegarem a um acordo num determinado prazo, deve ser imposta uma solução. Isso é tão complicado que não acredito que seja possível.

Felipe González declarou há pouco tempo que a política exterior da UE era "moldável".

Uma paz exclusivamente americana não funcionará. Para que os palestinos cheguem a um acordo, precisam do respaldo árabe. Se os israelenses perceberem que isso caminha para uma situação sul-africana, mas sem uma solução sul-africana, é possível que se retirem unilateralmente da Cisjordânia, dentro dos limites da barreira...

Do muro de 8 metros.

Há muitos quilômetros de barreira, não de muro. Isso implicaria a existência de um Estado hostil, um vulcão. O apocalipse demográfico é o que faz abandonar os territórios para manter a coesão. Esta segunda opção não é muito desejável, porque aconteceriam ataques como os do Hamas.

Por isso boicotaram.

A alternativa é entre ditadura laica e democracia islâmica. Por isso o Irã apoia a Palestina.

Por que não aceitam o resultado do voto?

Não deve haver intromissão. Os Estados Unidos e a Rússia queriam a democracia. Do outro lado do pêndulo de Mubarak estão os Irmãos Muçulmanos, do outro lado da FLN [Frente de Libertação Nacional] está a FIS [Frente Islâmica de Salvação].

E a terceira opção?

Por medo disso, pode-se optar por um Estado jordano-palestino. Este debate acontece na Jordânia, que preferiria que não fosse assim. Se a Jordânia perceber que um vulcão está se formando na Cisjordânia, tentará controlá-lo.

Por que quando Israel negocia com o Egito volta às fronteiras de 1967?

Com a Síria, Israel está disposto a voltar às fronteiras de 1967. No caso dos palestinos, trata-se de um movimento com correntes internas, imprevisível, e não de um Estado.

Israel tampouco se distingue por ter unidade.

Mas tem um governo que é quem negocia. O primeiro que boicotou o Hamas foi o Al Fatah; um erro. É impossível que as duas partes cheguem a um acordo. A retirada seria o equivalente a deixar um vulcão prestes a explodir.

Por que insistem na ameaça iraniana?

O que a Espanha faria se tivesse um país próximo com armamento quase nuclear?

Coisa que vocês já têm.

Nós não assinamos o tratado de Não-Proliferação Nuclear. A Síria, o Irã e a Coreia do Norte sim. Manteremos essa ambiguidade enquanto houver uma ameaça. Obama tem que negociar com o Irã. Concordo com Felipe que a Europa sozinha não pode fazer nada. O que se rompeu no Iraque talvez possa ser salvo em Israel.

Tradução: Eloise De Vylder

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