Néstor Kirchner volta para salvar seu projeto político

Robert Mur

"Se Cristina não tiver a maioria legislativa, voltaremos à crise de 2001, à pobreza, ao desemprego, isso vai explodir". A frase catastrofista, dita há alguns dias pelo ex-presidente argentino Néstor Kirchner, exemplifica com perfeição a tensa situação política criada no país pelo próprio casal governante. Kirchner será candidato a deputado e encabeçará a lista parlamentar de seu movimento peronista, o Frente para a Vitória (FPV), nas eleições legislativas antecipadas de 28 de junho. Com a polêmica elaboração das listas governistas e com discursos explosivos, Kirchner e sua mulher, a presidente Cristina Kirchner, transformaram as eleições legislativas de 28 de junho em um plebiscito para sua gestão.

Assim, um ano e meio depois de deixar o poder, Kirchner volta à arena institucional para defender a todo custo seu projeto, iniciado com sua presidência em 2003 e continuado por sua mulher. Contudo, o ex-mandatário certamente nunca abandonou a política. Nos últimos meses continuou tomando decisões de Estado a partir da sombra marital, e além disso tomou as rédeas oficiais do peronismo, depois de se tornar presidente do Partido Judicialista (PJ).

Por exigência constitucional, as legislativas deveriam ser realizadas em outubro próximo, mas Cristina Kirchner decidiu de surpresa adiantá-las para junho. A crise econômica global foi a desculpa oficial, mas o motivo real foi o desgaste do governo nas pesquisas de opinião e as deserções entre os kirchneristas. Apesar disso, a decadência começou antes que se vislumbrasse a crise financeira. Em março de 2008, poucos meses antes de Cristina Kirchner assumir, a greve dos produtores agrários provocou a polarização da Argentina, além do desabastecimento nas cidades pelo bloqueio das estradas de todo o pais. Depois de quatro meses de tensão insuportável, o vice-presidente da Argentina e presidente do Senado, Julio Cobos - um radical rebelde aliado dos Kirchner - , injetou oxigênio na vida política, votando contra o governo e abolindo o polêmico imposto sobre a exportação de cereais.

A antecipação das eleições foi o primeiro gesto de nervosismo dos Kirchner diante da perspectiva de ficarem sozinhos. Mas a partir daí tudo foi plebiscitário, a começar pela elaboração das listas de junho. Apesar de ser de domínio público há meses, Kirchner manteve em absurdo mistério a oficialização de sua candidatura até a meia-noite do sábado, quando acabava o prazo de apresentação. Até essa hora, o ex-presidente tomou medidas para que na foto da lista estivessem a maioria dos cargos peronistas com poder, e assim evitar qualquer dissidência posterior. Assim nasceram as chamadas "candidaturas testemunhais". Kirchner é candidato pela circunscrição da província de Buenos Aires, e atrás dele se alinham desde o governador da província, Daniel Scioli, até 45 prefeitos peronistas. A oposição critica essas candidaturas, pois a grande maioria, como Scioli, não aceitará o decreto do deputado.

Kirchner terá pela frente uma oposição dividida, da qual o principal inimigo é o milionário Francisco de Narváez, representante dos peronistas dissidentes.

O estilo de confrontação é inerente ao kirchnerismo, que abusou da polarização para defender seu modelo estereotipado: entre ricos e pobres, entre o campo e a cidade, entre esquerda e direita. Se os Kirchner perderem em junho, eles mesmos terão se exposto ao ridículo com este plebiscito.

Tradução: Lana Lim

UOL Cursos Online

Todos os cursos