A destinatária da carta assassina

Núria Escur Em Barcelona

Para muitos, ela sempre será a mulher para quem um assassino dedicou uma carta. Uma carta que apareceu presa ao punhal cravado no corpo do diretor de cinema holandês Theo van Gogh, em 2 de novembro de 2004.

Ayaan Hirsi Ali ainda se sente culpada. "Eu era a destinatária, eu é que deveria ter morrido, e não Theo. Para mim, só chegou a mensagem", diz ela.

Hoje sabemos mais sobre o homem que coordenou o crime do cineasta. Chama-se Abdeladin Akoudad e está preso no Marrocos, onde têm vários processos pendentes e será julgado à revelia junto com os nove acusados da chamada operação Chacal.

Danilo Verpa/Folha Imagem - 29.jun.2008 
Ali diz que só quer conseguir com que os 'muçulmanos aceitem a crítica com naturalidade"


Enquanto isso não acontece, Hirsi Ali continua sofrendo uma perseguição permanente e muda de endereço com frequência. O debate quanto à sua cidadania holandesa - que lhe foi retirada e depois devolvida - desencadeou a queda do governo holandês. Ela se mudou então para os Estados Unidos para colaborar com o grupo conservador American Entreprise Institute, o que lhe rendeu várias críticas.

Por que Ayaan foi a destinatária de tanto ódio? Nascida em Mogadíscio [na Somália] em 1969, recebeu uma educação islâmica ortodoxa e era apenas mais uma menina que sabia recitar os 99 nomes de Alá. Cresceu desconfiada: "Sou de um lugar onde se ensina aos filhos a atacarem primeiro", explicou em 2007 numa entrevista a "La Vanguardia". Na época, ela estava lançando o livro "Mi vida, mi libertad".

Apareceu na sala, tão bonita quanto pequena, ao lado de seus guarda-costas, dois homens carecas, brancos como mármore de Carrara, e foi destilando sua história. Contou desde a infância, no dia em que sofreu uma infibulação [mutilação genital] aos cinco anos, até a juventude, quando decidiu fugir de um destino que considerava "uma grande mentira criada para confrontar civilizações".

Ayaan se instalou na Holanda aos 22 anos, fugindo de um casamento arranjado. E pôs-se a falar. A eloquência de suas ideias contra o Islã causou um enorme alvoroço em todo o mundo. Desde então, ela está ameaçada de morte. Cursou Ciências Políticas com brilhantismo, conseguiu ser parlamentar filiada ao partido socialdemocrata (PvDA) e colaborou com a elaboração de um filme - "Submissão" - que denunciava os maus-tratos contra as mulheres muçulmanas.

Pouco depois da estreia do filme, em 2004, o diretor Theo van Gogh foi apunhalado na rua por um radical islâmico. Em seu peito, havia uma carta de cinco folhas, dirigida a Ayaan, sugerindo que ela seria a próxima vítima.

"Na carta que deixaram sobre Theo van Gogh ao apunhalá-lo, qual é a frase que vai persegui-la para sempre?"

"'Está preparada para morrer por suas convicções, como eu?'"

Era uma mensagem clara. Uma mensagem que resume tudo o que Ayaan se dedicou a denunciar em seus livros, a despeito de seus perseguidores. Ela prefere ser uma mulher perseguida nos Estados Unidos do que uma mulher apedrejada na Somália. Foi o que explicou em Barcelona: "Se hoje eu morasse em qualquer comunidade muçulmana, seria um cadáver. Por ter abandonado a fé, por ter me rebelado, por ter fugido do casamento. Não são ocidentais que me ameaçam hoje no ocidente. Mais uma vez, são os membros da comunidade muçulmana, e isso só confirma que eu devo continuar falando. Só quero conseguir com que os muçulmanos aceitem a crítica com naturalidade".

Tradução: Eloise De Vylder

UOL Cursos Online

Todos os cursos