"É preciso deixar de falar em sanções", diz o primeiro-ministro turco

Félix Flores

O primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, fez ontem uma defesa entusiástica da diplomacia para resolver a polêmica nuclear do Irã, e concretamente do acordo alcançado no fim de semana em Teerã com seu "querido amigo" Lula da Silva. Erdogan, que participou da cúpula UE-América Latina em Madri como convidado do governo espanhol, afirmou que o acordo é "um mapa do caminho" e que "em cada parada ou etapa será preciso aplicar soluções diferentes". E afirmou, respondendo a perguntas de "La Vanguardia" sobre as garantias do acordo, que "o próprio acordo é a maior garantia que temos, e se o Irã falhar ficará só porque a Turquia e o Brasil sairão de cena".

"Desde ontem, pelo que vi nas declarações da China, Rússia ou EUA, foram precavidos, mas eu também sou", afirmou. "Há certa desconfiança e fala-se em sanções, mas os que desconfiam não são os que vivem na região. Nós não queremos armas nucleares na região nem em parte alguma. A Turquia é o único país que está fazendo, só ele, o maior esforço" contra a proliferação.

Lula deixou ontem para o primeiro-ministro turco o protagonismo sobre o acordo de Teerã. Ou, dito de outro modo, lhe deixou a conta, depois da reação europeia e americana. No último domingo, Erdogan foi o último a se incorporar ao encontro de Teerã. Seu ministro das Relações Exteriores, Ahmed Davutoglu, com o chanceler brasileiro, Celso Amorim (talvez os dois diplomatas que desenvolvem uma atividade mais ambiciosa atualmente no mundo), estiveram encerrados com seu homólogo iraniano, Manuchehr Mottaki, durante 18 horas seguidas. Se Lula se apresentava como mediador (feitas suas consultas a Washington e a Moscou), Erdogan foi o anfitrião de uma proposta baseada nos acordos de Viena do ano passado, assinados por França, Rússia, EUA e a Agência Internacional de Energia Atômica.

A base do pacto de Teerã é que será em Istambul - e não em território iraniano, como exigia Mahmoud Ahmadinejad - que se fará o intercâmbio de urânio. "Dentro de um mês poderá ser feita a primeira entrega, de cerca de 20 quilos de urânio, de Teerã a Istambul", disse Erdogan, e defendeu que o Irã continue paralelamente enriquecendo urânio, porque "todo país tem o direito de fazê-lo para uso civil".

Segundo o líder turco, chegados a esse ponto, "devemos deixar de falar de sanções", porque em Teerã se negociou "sob os princípios do Conselho de Segurança da ONU".

"Os que falam de sanções são os que exportam armas e tecnologia e os que violam as leis", disse Erdogan. "Não queremos armas nucleares na região nem em nenhuma parte. Os que falam de armas nucleares são exatamente os que as têm."

Evocando a política turca de "zero problemas" com seus vizinhos, Erdogan apelou tanto aos envolvidos no debate nuclear iraniano como a Israel a que "conduzam as coisas em termos diplomáticos e de forma amistosa".
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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