Raúl Castro confirma o papel da Igreja como porta-voz

Fernando García

  • Enrique de la Osa/Reuters

    Ditador de Cuba, Raúl Castro: ateu, mas aceita o papel de porta-voz da Igreja Católica

    Ditador de Cuba, Raúl Castro: ateu, mas aceita o papel de porta-voz da Igreja Católica

O arcebispo de Havana falará pelo governo no processo dos presos

A Igreja Católica cubana conquistou algo mais que o papel de árbitro no conflito entre o governo de Raúl Castro e a dissidência interna. A instituição também recebeu do presidente o insólito papel de porta-voz oficial para tudo o que se relacione ao processo de concessões aos presos políticos da ilha, o qual começou na noite de terça-feira e, segundo se prevê, será gradual e lento.

O primeiro passo do processo, consistente na transferência de seis detentos para prisões próximas de suas casas, foi comunicado à mídia através de uma significativa nota de imprensa do Arcebispado de Havana. O texto começava indicando que o cardeal e arcebispo Jaime Ortega havia sido informado "pelas autoridades" sobre as aproximações. E depois da relação das transferências acrescentou: "Diante das especulações dos últimos dias em relação a este processo, comunico-lhes que toda informação fidedigna a respeito será gerada ou confirmada exclusivamente por uma fonte do Arcebispado de Havana".

Ao mencionar as especulações anteriores a essa medida, a Igreja referia-se a certos avisos de fontes familiares e da dissidência - alguns verdadeiros, outros não - sobre iminentes movimentações de presos. O opositor Guillermo Fariñas, em greve de fome e sede desde 24 de fevereiro em protesto pela morte de Orlando Zapata e para pedir a libertação de 26 reclusos doentes, precipitou-se e errou ao prever a data dos primeiros deslocamentos de presos (24 de maio).

O anúncio de terça-feira no sentido de que a partir de então só as fontes eclesiásticas estariam autorizadas a divulgar essas informações deu cunho oficial ao que já era um fato desde o início da mediação da Igreja.

O cardeal Ortega começou a atuar como porta-voz vicário do governo em 2 de maio, quando conseguiu que Raúl Castro autorizasse as Damas de Branco - parentes dos 75 - a desfilar pela rua sem ter de suportar o assédio das brigadas que as vinham importunando e bloqueando sua passagem. O prelado deu a notícia na missa que decidiu celebrar nesse mesmo dia na Igreja de Santa Rita, onde as Damas se reúnem antes das marchas.

Também foi Ortega quem, junto do arcebispo de Santiago, Dionisio García, deu conta da importante reunião que ambos realizaram em 19 de maio com Raúl Castro. O cardeal explicou em entrevista coletiva o conteúdo do encontro, do qual saiu o compromisso do presidente de "aliviar" gradualmente a situação dos presos: primeiro através de transferências como as seis de terça-feira e depois, talvez, com a hospitalização e libertação de presos doentes.

O trovador Silvio Rodríguez, em turnê pelos EUA, disse em Nova York que "pelo menos a maioria" dos presos políticos deveria estar livre.
 

"Damas de Branco" são hostilizadas pelas forças do governo de Cuba

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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