Camisetas estampadas com o rosto de Bin Laden fazem sucesso no Níger

Xavier Aldekoa

  • AFP Photo

    Osama Bin Laden vira estampa de camiseta no Níger

    Osama Bin Laden vira estampa de camiseta no Níger

Bin Laden e Obama estão separados por um caixote à prova de olhos indiscretos. Uma camiseta com a cara do líder norte-americano dá as boas-vindas aos clientes na loja de Sarakole. A pechincha começa em cinco euros. Uma fortuna no Níger. Para ter um souvenir com a imagem do chefe da Al Qaeda é preciso se esconder. Só um pouco.

Numa rua de terra e muros de adobe, Abdul coloca a arara de roupas no cenário. Veste um gorro amarelo enfiado até as sobrancelhas e uma camiseta que traça uma linha de 50 anos da história do Níger: nela se vê o rosto de bin Laden junto a um tanque e um avião de guerra. O retrato do chefe jihadista ajuda a desenhar o país no final.

No Níger, assim como acontece em outros países do Sahel, como a Mauritânia ou o Mali, as camisetas, posteres, placas ou adesivos com a imagem do terrorista mais procurado do mundo são vendidos como churros. Ou eram.

Desde o ano passado, as autoridades dos três países perseguem a venda de mercadorias com ilustrações da Al Qaeda. Sarakole fica furioso. “Um dia a polícia veio e levou umas quinze camisetas e adesivos com o rosto de bin Laden que tínhamos na loja. É injusto, eu vendia muitas e tiraram de nós sem nos dar nada. Não nos deram opção”, explica em sua loja cheia de camisetas falsas de times de futebol e de astros do hip hop. Ele calcula que, entre as que foram proibidas, ele vendia de cinco a dez peças por dia. Sarakole está apoiado na parede, junto a uma camiseta com as cores da bandeira dos Estados Unidos.

Entre as estrelas brancas e o fundo azul, sobressai o rosto de um Obama com sorriso aberto. Também há carteiras, cinturões e chaveiros com a foto do presidente norte-americano. A pergunta sobre qual é mais vendido: Obama ou bin Laden, faz ele rir. “Este – e aponta para o presidente dos EUA – não é tão vendido, se quiser esta eu faço por 3.500 cefeas (5,30 euros). A de bin Laden não é proibida, então custaria um pouco mais”, diz. No fundo da loja, há um armário discreto, com um monte de caixas com a mercadoria proibida.

A presença da Al Qaeda do Magreb Islâmico (AQMI) em algumas áreas do norte e oeste do país deram espaço ao Níger nos meios de comunicação por motivos outros que não suas impressionantes secas e falta de alimentos. Mas também para o mal. Alguns sequestros de ocidentais na fronteira com Mali ou Argélia – às vezes com final trágico como o recente assassinato de um refém francês – preocupa em Niamey, e é a pior promoção de um país que sempre precisou de mãos estendidas desde o exterior.

O motivo pelo qual alguns nigerinos abraçam os artigos de Bin Laden está em parte em amargos números: o Níger está em último lugar no índice de desenvolvimento humano, quase dois terços de sua população é pobre e só 15% das mulheres sabem ler e escrever.

Abdul prefere relativizar a importância da camiseta. “Eu uso porque é bonita, não sou desse grupo, ainda que não goste dos norte-americanos”, enfatiza. Ele diz que se a polícia o vir com a camiseta, será obrigado a tirar, mas não se importa muito.

O tanque e o avião de guerra da camiseta de Abdul sugerem outro traço da história do país. Os golpes de Estado prejudicaram o Níger independente. Quando Hamani Diori se transformou em primeiro presidente em 1960, demorou apenas quatro anos para que se ouvisse o ruído das espadas em suas costas. Sufocou a revolta no exército, mas depois de uma seca terrível, que desencadeou uma fome ainda pior, caiu por um golpe liderado por Seyni Kuntché.

O Níger de hoje também é herança desse mandato autoritário que se esconde numa escrita íntegra nos livros de história.

Um menino de cerca de nove anos nos segue com atrevimento pelo mercado. O Níger é o país com a maior taxa de natalidade do mundo – cada mulher têm em média quase oito filhos e a população passou de 3 para 15,8 milhões em meio século – assim, não é raro ver crianças surgindo de qualquer canto. O garoto não sabe muito francês, mas entende em seguida que procuramos camisetas de bin Laden. Num sussurro, pergunta se somos “controladores de camisetas”. Dizemos que não, mas ele não acredita na resposta. “É claro que são, os brancos não compram dessas”, diz.

O Níger é um país de porta aberta aos estrangeiros e sorriso de boas-vindas em cada casa, mas talvez com um estilo mais discreto e desconfiado do que seus vizinhos de Mali e Burkina Fasso. O coronel Kuntché construiu seu regime sobre serviços de inteligência que beiravam a paranoia e que, embora tenham impedido vários golpes de Estado, controlavam rigidamente a população. Queriam saber tudo. O próprio militar anunciou não começar mais nada. Dirigiu-se a estudantes, funcionários e comerciantes – principais propulsores dos protestos – e advertiu: “Estou de olho em vocês.”

O país já não sacudiria o ar marcial em seu posto de governo. Se as tentativas de abertura nos anos 90 acabaram com sangue no palácio governamental, o fevereiro passado voltou a repetir a história. Um novo golpe de Estado para “salvar a república” desbancou do poder o presidente e preencheu o poder com os boinas vermelhas.

No final da rua onde Abdul passeia com sua camiseta, há um bar de placas de uralita. De um lado está pintada o logotipo da Coca-Cola e do outro dos pneus Michelin. No balcão, dois homens devoram um sanduíche de ovos e cebola acompanhado por um Nescafé com leite condensado. O Níger também tem sua relação comercial – e desigual – com o mundo. Durante décadas, a França teve o monopólio da exploração e exportação das reservas de urânio. Paris ditava o preço. A entrada da China no cenário – planeja explorar os depósitos de petróleo além dos de urano – dá mais margem de manobra na mesa de negociações. A França agiu rapidamente. Em 2012, a gigante gaulesa Areva transformará a mina de Imuraren na maior da África. Com 5 mil toneladas por ano, só essa mina – que criaria 6.500 empregos – deveria triplicar a enorme produção nacional de urânio. O Níger já é o quinto produtor mundial.

Esses números parecem distantes para Sarakole. Sua economia vive em outra dimensão. No momento, chega com alguns adesivos de bin Laden. A um euro cada. E seja discreto, por favor.

Tradutor: Eloise De Vylder

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