Governo argentino cancela a licença de provedor de internet do grupo Clarín

Robert Mur

  • AFP

    A presidente argentina Cristina Fernandez de Kirchner e seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, acenam para simpatizantes durante manifestação de apoio ao governo em 2008

    A presidente argentina Cristina Fernandez de Kirchner e seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, acenam para simpatizantes durante manifestação de apoio ao governo em 2008

Como todo ano, o diretor do jornal "El Clarín", Ricardo Kirschbaum, subiu em uma mesa no centro da redação e dirigiu-se aos jornalistas. Foi em 8 de junho passado. Mas este ano, entre canapês e empanadas, e com as telas dos computadores prestes a fechar a edição, o discurso para comemorar o Dia do Jornalista foi mais sério que nunca. Kirschbaum admitiu que os ataques do governo argentino contra o grupo Clarín tinham sido duros, mas alertou que nos próximos meses o seriam ainda mais.

E o veterano diretor não se enganou. Na última quinta-feira, o governo kirchnerista de Cristina Fernández lançou um novo torpedo contra a linha de flutuação do grupo: seu financiamento. Inesperadamente, o ministro do Planejamento, Julio de Vido, homem de confiança do ex-presidente Néstor Kirchner e principal interlocutor entre o governo e a empresa privada, anunciou o cancelamento da licença do Clarín como provedor de internet através da Fibertel, subsidiária de sua empresa Cablevisión.

A empresa de internet, junto com a de televisão a cabo, representa a principal fonte de receitas do grupo, já que no último exercício lhe trouxe mais de 830 milhões de euros de faturamento. O Clarín é o maior conglomerado de mídia da Argentina. Além do jornal homônimo de referência e da Cablevisión, possui diversas revistas, o jornal gratuito "La Razón", o rotativo desportivo "Olé", assim como emissoras de rádio e canais de televisão abertos e pagos.

O governo alega que o grupo não tem direito a oferecer internet, já que nunca foi concedida licença à Cablevisión. No entanto, a empresa entende que tem autorização, pois a Fibertel é provedor de internet desde 1997 e foi absorvida pela Cablevisión em um processo iniciado em 2003 e concluído no ano passado. Além disso, em 2007 o Executivo autorizou a fusão da Cablevisión com a Multicanal, outra plataforma de cabo. Foi ainda sob a presidência de Kirchner, que então mantinha uma relação próxima com o Clarín.

Na prática, o anúncio de quinta-feira representa o fechamento da Fibertel dentro de 90 dias. Seu milhão de clientes deverão buscar outro provedor antes desse prazo, o que está provocando queixas dos usuários. Para o Clarín, a medida favorece intencionalmente seus dois grandes concorrentes, Telefónica e Telecom. Através de um comunicado, a Cablevisión considerou a medida "ilegal e arbitrária" e advertiu que recorrerá à justiça. "Trata-se de mais um passo na brutal campanha de perseguição, ataques e assédio", indicou.

A oposição política, por sua vez, apoia o Clarín. Cinco forças parlamentares consideram que o governo tenta "restringir a liberdade de expressão no país" e apresentarão no Congresso um projeto de lei para anular o fechamento da Fibertel.

Os Kirchner parecem decididos a acabar com o Clarín, o grande inimigo a derrotar desde que o grupo aumentou suas críticas ao governo, coincidindo com a chegada de Fernández à presidência, em 2007. No fundo está a chamada Lei de Mídia, aprovada no ano passado embora paralisada parcialmente pela justiça. Com o argumento de evitar o suposto monopólio do Clarín, a lei representa, entre outras coisas, a limitação de licenças de canais de televisão.

Nos últimos tempos, a guerra recrudesceu e, como previa Kirschbaum, se intensificará nos próximos meses. As eleições presidenciais serão em outubro próximo e o casal presidencial está jogando todas as cartas para continuar no poder.

Enquanto isso, o "Clarín" publica diariamente revelações sobre os diversos escândalos de corrupção que salpicam funcionários próximos aos Kirchner.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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