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26/05/2005
Brasil não consegue deter o desmatamento do MT, o paraíso da soja e do gado

Annie Gasnier
Em São Paulo


As imagens são precisas para quem sabe decodificá-las. Em São José dos Campos (a 80 km a leste de São Paulo), os computadores do Instituto Nacional da Pesquisa Espacial (INPE) varrem com precisão o que está acontecendo na distante floresta amazônica, por meio de levantamentos feitos por satélites, que são coletados diariamente.

Três satélites fornecem regularmente os seus dados --dois americanos da Nasa e o brasileiro CBERS (iniciais de China Brazil Earth Resources Satellite-- Satélite Sino-Brasileiro de Rastreamento dos Recursos Terrestres). A freqüência da ocorrência de camadas de nuvens na Amazônia obriga a multiplicar as fontes de observação.

Examinadas pelo serviço de observação da Terra, as imagens, a cada dez dias são objeto de um comunicado. As informações sobre o desmatamento são enviadas para o governo em Brasília e a todos os interessados, entre os quais as organizações não-governamentais (ONG).

Simultaneamente, esses estudos são disponibilizados gratuitamente na Internet (www.obt.inpe.br/deter). A sua consulta online é uma inovação recente, que foi decidida sob a presidência de Luiz Inácio Lula da Silva.

"Nada é censurado, mesmo se a situação está longe de ser brilhante", explica o diretor do serviço, Gilberto Câmara. No passado, diz, esses dados, que vêm sendo colhidos desde 1988, eram considerados como sendo perigosos e permaneciam em sigilo até a publicação do balanço anual.

A vigilância em tempo quase real pode ter efeitos imediatos, garante Gilberto Câmara. Ele cite como exemplo um início de devastação no Estado do Pará, em 2004: 60 km2 de floresta foram devastados em menos de um mês.

Alertadas, as autoridades nunca concederam a licença de exploração temporária para o grupo que empreendeu este arroteamento das terras públicas.

Entretanto, o controle por satélite não impediu o Brasil de bater um triste recorde de desmatamento na Amazônia: este aumentou em 6% durante o período entre agosto de 2003 e agosto de 2004, quando 26.130 km2 de árvores desapareceram, ou seja, praticamente a superfície da Bélgica, segundo as estatísticas que foram publicadas pelo governo brasileiro na quarta-feira passada (18/05).

Os especialistas da INPE sublinham que o balanço diz respeito ao período que precedeu a entrada em vigor do "plano governamental de prevenção e de controle do desmatamento".

Desde então, um "início" de diminuição da devastação teria aparecido nos levantamentos. A redução da floresta varia de uma região para outra, nos oito Estados amazônicos que são objeto de vigilância (5 milhões de km2, ou seja, dez vezes a superfície da França).

Uma fronteira desenha-se no mapa da bacia amazônica. No norte, nos Estados mais protegidos onde a selva tropical é mais densa, o desmatamento está regredindo.

No sul, encontram-se os Estados onde a pressão econômica e social e os avanços das culturas de soja vão arrasando a vegetação conhecida como de transição. De fato, nos Estados do Acre, Amazonas, Pará, Tocantins, Roraima e Maranhão, onde a floresta é mais densa e primitiva, o desmatamento está regredindo, em certos casos de maneira muito nítida.

Esta área corresponde às regiões nas quais o governo federal concentrou os seus meios de controle, e promoveu a criação de imensas zonas de proteção.

Dois dias após o choque causado pelos números negativos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, contudo, denunciou a voracidade dos devastadores e anunciou a criação de cinco novas reservas no Pará.

No total, ele já protegeu desta forma 80.000 km2 de floresta dentro de um perímetro conhecido pelo nome de "a Terra do meio", cobiçada pelos cortadores de madeira e pela especulação imobiliária. Criticada, Marina Silva, a ministra do Meio-Ambiente, defende a sua ação e destaca a suspensão do asfaltamento da estrada Sul-Norte, de Cuiabá a Santarém.

O INPE já constatou nos seus monitores que a abertura de novas vias resulta numa aceleração do desmatamento, uma vez que a população acaba se instalando à beira do caminho assim aberto e amplia a devastação para subsistir. Por muito tempo, este foi o caso da rodovia Transamazônica.

No sul, encontram-se os Estados que apresentam os piores resultados, Rondônia e, sobretudo, o Mato Grosso.

Neste último, que é responsável, sozinho, pela metade da devastação da selva brasileira, o desmatamento aumentou em 23% em 2004. O Mato Grosso é o paraíso da agricultura de exportação, da criação de gado e da soja.

Rei da soja

O seu governador, Blairo Maggi, conhecido como o "rei da soja", está sendo suspeitado de incentivar a expansão das culturas em detrimento da floresta. Maggi defendeu-se, em entrevista à "Folha de S.Paulo" de ser um campeão do desmatamento.

"A soja tem um grande impacto na economia brasileira", afirma o governador, sob pretexto de se justificar. Em nome do federalismo, o princípio de base da Constituição brasileira, o Mato Grosso tem competência para combater a devastação ilegal, atribuindo autorizações de desmatamento limitadas a 20% de uma propriedade.

Os ecologistas não aceitam conformar-se com tal situação, na qual são registrados progressos no norte e uma degradação no sul. A organização Greenpeace fala em tragédia, e denuncia a contradição que impera dentro do próprio governo, que defende com maior afinco o agri-business e as suas atividades destruidoras em detrimento da Amazônia.

Um aliado histórico do Partido dos Trabalhadores, do presidente Lula, o Partido Verde com os seus sete deputados abandonaram a maioria parlamentar, sem que o ministro da Cultura, Gilberto Gil, apesar de tudo, se retirasse da coalizão governamental de centro esquerda, embora ele pertença ao PV.

Segundo o especialista Gilberto Câmara, "Marina Silva é certamente a ministra a mais envolvida com este combate. Sem ela, os resultados seriam piores".

Tradução: Jean-Yves de Neufville

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