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25/08/2005
No Brasil, familiares e amigos denunciam o "assassinato" de um "inocente pacífico"

Annie Gasnier
Correspondente em São Paulo


A pequena cidade de Gonzaga, no Estado de Minas Gerais, chora até hoje a morte de Jean Charles de Menezes, o eletricista brasileiro morto por engano pela polícia, em 22 de julho no metrô de Londres, no dia que se seguiu aos atentados fracassados de 21 de julho.

Um mês após a sua morte, a pequena igreja estava lotada, nesta segunda-feira (22/08), por pessoas que vieram apresentar seus pêsames aos pais inconsoláveis que assistiam à missa-aniversário em homenagem ao "menino da cidade".

"Eles destruíram a sua vida, e a minha", confiou a sua mãe, Maria de Menezes, ainda sob o choque provocado pelas revelações sobre as circunstâncias da morte do seu filho.

Alex Alves Pereira, o primo que compartilhava a vida de Jean Charles em Londres e que acompanhou seus despojos até o berço familiar, conta de que maneira ele tentou poupar os pais desta prova, suplicando-os para não assistirem à televisão.

Mas, diante da telinha do televisor da sua humilde casa isolada no meio de campos de milho, Maria, o seu marido Matozinhos e seu mais novo filho, Giovani, descobriram as fotos do corpo ensangüentado na plataforma do metrô. "Foi um choque terrível", testemunha o primo.

Esses mesmos documentos conduziram o governo brasileiro a falar pela primeira vez em "assassinato", num comunicado no qual o ministério das Relações Exteriores evoca "detalhes e imagens de forte impacto, o que agrava nosso sentimento de indignação".

A mudança do tom empregado pelas autoridades brasileiras está confirmada: "Houve efetivamente um assassinato, mas por razões estratégicas", limitam-se a dizer os diplomatas do Itamaraty (nome do ministério brasileiro).

Contudo, esta palavra parece caracterizar certo descontentamento em Brasília, em relação à maneira com a qual tem sido tratada a morte do súdito brasileiro pelas autoridades britânicas.

Um acúmulo de fatos, que foram recenseados pela imprensa, irritou os brasileiros. Primeiro, foi a longa espera à qual foi submetido o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, até ser recebido pelo seu homólogo Jack Straw.

Depois, foi a justificativa oficial alegada para a morte, bastante anterior ao pedido de desculpas que foi apresentado pelo primeiro-ministro Tony Blair ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seguida pelo relato divulgado por Scotland Yard, a polícia londrina, baseado em falsos detalhes, mas que permanece sendo a única versão da polícia até hoje.

Pedido de explicações sem resposta

Quando o governo britânico divulgou as informações sobre o visto vencido ou falso de Jean Charles de Menezes às vésperas do seu funeral, o Itamaraty precisou que "a sua situação, ilegal ou não, não alterava em nada a responsabilidade das autoridades britânicas na morte trágica de um cidadão brasileiro inocente e pacífico".

O Brasil enviou, portanto, três emissários para Londres. Wagner Gonçalves, Marcio Garcia e Manoel Pereira foram encarregados de obter mais amplos esclarecimentos sobre as circunstâncias que resultaram no engano da polícia, mas, em caso algum, eles tiveram autorização para efetuar um inquérito paralelo.

"É uma questão de direitos humanos. O nosso governo deveria se mostrar mais firme e mais exigente em relação a Londres", estima Maria José Maninha, uma deputada do Partido dos Trabalhadores (PT, esquerda, no poder), que considera "ridícula" a indenização de 15.000 libras esterlinas (R$ 65.094,45) que foi oferecida à família por Scotland Yard.

Maria José, que é vice-presidenta da Comissão das Relações Exteriores da Câmara dos Deputados, se diz espantada por ver um pedido de explicações sobre este caso, que havia sido transmitido ao governo britânico já faz três semanas, permanecer até hoje sem resposta.

Mas, dentro do contexto da crise política que mobiliza há três meses o Congresso, o poder executivo e a imprensa, o caso Jean Charles de Menezes não chegou a ser objeto de um grande interesse.

Diferentemente do que ocorreu em Gonzaga, uma comuna rural onde um terço dos 6 mil habitantes trabalham no exterior, e onde a morte violenta do jovem eletricista provoca até hoje uma imensa emoção e uma grande perplexidade.

Durante a vigília do corpo, 10 mil pessoas compareceram para se recolher diante do caixão, coberto por uma bandeira do Brasil. "Tony Blair, nós não queremos um pedido de desculpas, o que nós pedimos é justiça", clamava uma faixa que havia sido estendida perto do cemitério. A família de Menezes pede para que os policiais autores dos disparos sejam punidos.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

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