UOL Mídia GlobalUOL Mídia Global
UOL BUSCA

RECEBA O BOLETIM
UOL MÍDIA GLOBAL


22/09/2005
China planeja revitalizar seu patrimônio histórico

Frédéric Educam
Enviado especial a Qikou (China)


A proteção das aldeias e do patrimônio rural na China foi objeto de uma declaração tão firme quanto solene, neste domingo (18/09), apresentada no final de uma conferencia que reuniu a nata dos arquitetos e dos historiadores, vindos das mais prestigiosas universidades do país.

A escolha do local para esta reunião não foi feita ao acaso: classificado como patrimônio da humanidade, o pequeno vilarejo de Qikou, situado na ribanceira do rio Amarelo, na região do Shanxi, está ameaçado de destruição.

Outrora, a localidade fez fortuna por ser um ponto de escala obrigatória para quem viajava no rio Amarelo, cuja transformação repentina numa torrente furiosa à altura da saída de Qikou barrava os barcos vindos do Norte, carregados de alimentos e de bens. Era preciso então descarregar as mercadorias e retomar a viagem par via terrestre, seguindo trilhas que atravessam as montanhas do Shanxi.

Hoje, os trens e os caminhões tomaram conta do transporte, transformando o vale do rio Qiu, um afluente do rio Amarelo, num inferno preto e barulhento.

No mesmo dia em que ocorreu a conferência, no qual se celebrava a festa da lua de outono, era inaugurado o Festival Internacional da fotografia de Pingyao, uma cidade da mesma província, classificada pela Unesco na lista do patrimônio mundial.

Uma parte importante deste festival é constituída precisamente pelas realidades conflitantes estudadas em Qikou: os belos restos da China antiga confrontados a uma modernidade desprovida de qualquer sentimento, a miséria dos camponeses frente à opulência das grandes cidades, as destruições provocadas pela poluição bem ao lado das localidades as mais sublimes, a crueldade de uma globalização que se alimenta, na própria China, da pobreza de centenas de milhões de rurais que até agora têm sido abandonados e ignorados.

O que se vê, afinal, relativamente pouco em Pingyao, mas que foi finalmente ouvido claramente em Qikou, precisamente como um modelo a ser evitado, é a destruição quase sistemática do patrimônio das grandes cidades.

Do passado de Zhengzhou, a capital do Henan que fora cidade imperial, não resta absolutamente nada, enquanto a cidade atual é de uma mediocridade que dá vontade de chorar.

De Chengdu, sublime capital do Sichuan, nada restou a não ser três belas e tristes ruas antigas, enquanto o resto foi arrasado e reconstruído conforme o mesmo padrão de gosto encontrado em Zhengzhou.

A prestigiosa Xian, que foi em várias oportunidades a capital do país e perto da qual está enterrado Qin Shi Huangdi, o fundador do Império, conseguiu salvar suas muralhas, e conservou parcialmente a sua organização original, em forma de tabuleiro de damas, e os seus tradicionais meridianos, além de algumas maravilhas tais como a Floresta das Estelas (o templo de Confúcio) ou as mesquitas do bairro muçulmano.

Os interesses plenamente assimilados da modernidade se encarregaram do resto, ou seja, a maior parte da cidade, nela acrescentando, contudo, alguns elementos de pastiche sem-vergonha.

Chengde, uma outra localidade imperial no Hebei, a nordeste de Pequim, também está ameaçada por uma perigosa destruição, assim como Nankin, que já havia sido duramente castigada pelo exército japonês em 1937.

Uma vez que as decisões dependem dos prefeitos, pode haver exceções: este é o caso de Hangzhou (Zhejiang), célebre pelo seu lago (o grande lago do Oeste) e suas paisagens, onde toda destruição daqui para frente será proibida e onde as partes modernas foram confiadas a arquitetos cujos projetos, apesar de obedecerem a imperativos comerciais, atendem pelo menos a normas de uma qualidade estética muito honrosa. Uma nova cidade moderna foi construída a uma distância cuidadosamente calculada desta jóia histórica.

Sem memória

Por sua vez, Xangai também foi generosamente mutilada, principalmente a antiga cidade chinesa, transformada numa armadilha para turistas, os quais, aliás, parecem estar gostando desta cidade artificial, dedicada paradoxalmente à venda de "suvenires" de um bairro que perdeu toda e qualquer memória.

Mas, já faz alguns anos, os defensores do patrimônio, ao menos nas antigas concessões francesas e internacionais, conseguiram proteger o equivalente a vários quilômetros quadrados (o número de 20 km2 é geralmente citado), e a impedir a construção de uma grande quantidade de torres: para estas últimas, os temores de que se produza uma bolha imobiliária cujas conseqüências seriam fatais exerceu provavelmente uma influência nestas decisões.

Mas, em meio a esta briga entre patrimônio e modernidade, a formação dos arquitetos nas grandes universidades tais como Tongji colocou no mercado da construção civil, profissionais conscientes e competentes, que têm como interlocutores dirigentes que passaram a se mostrar mais sensíveis às dimensões culturais.

Pequim não teve esta sorte. O processo de modernização foi iniciado no final dos anos 90, ou seja, um pouco mais tarde do que em outras grandes cidades, mas ele adquiriu uma amplidão e uma rapidez tais que a cidade acabou ficando irreconhecível.

A atribuição dos Jogos Olímpicos à capital chinesa conduziu à implementação de uma política de destruição maciça e de reconstrução sistemática que foram confiadas, na sua maioria, aos grandes institutos de arquitetura, associados ou não aos pesos pesados da construção ocidental, americanos, australianos, alemães, italianos e franceses.

As construtoras francesas são representadas principalmente pela AREP, uma agência que detém com uma relativa felicidade o monopólio dês estações ferroviárias francesas e que vem utilizando a região de Pequim como território de experimentação desinibida, com maior freqüência para o pior do que para o melhor.

A cidade, que foi uma das mais belas do mundo até as primeiras destruições empreendidas pelo regime maoísta (principalmente as muralhas), perdeu a sua alma, aquela geografia sutil que compensava a ausência de pontos de referência, os seus relevos ou seus riachos, que eram reservados aos domínios imperiais.

Já faz alguns meses, Hu Jintao e o seu primeiro-ministro, Wen Jiabao, impuseram teoricamente novos princípios que visam a gerenciar o equilíbrio das cidades e do campo: economia de energia e de matérias-primas, melhora das condições de vida nas regiões rurais e desenvolvimento sustentável, tornaram-se as palavras-chave explicitas do ministério da construção.

A partir dessas medidas, a defesa do patrimônio torna-se uma causa suscetível de ser defendida. A idéia de fazer dele, por meio do turismo, uma fonte de dividendos para as populações rurais está presente nos projetos dos funcionários das províncias, enquanto arquitetos, historiadores e urbanistas defendem o princípio de uma restauração mais desinteressada.

Contudo, os especialistas ainda estão hesitantes em relação às formas que deve tomar esta restauração. A corrente majoritária defende que este processo deve reproduzir de maneira mais ou menos idêntica as construções que foram destruídas, dentro de uma perspectiva mais ancorada no sentimento e na tradição (que tem por nome em chinês de "fengmao") do que no respeito escrupuloso da história e da cultura.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

ÍNDICE DE NOTÍCIAS  IMPRIMIR  ENVIE POR E-MAIL

Folha Online
Reforma visual da Folha facilita a leitura; conheça as mudanças
UOL Esporte
Após fiasco de público, CBF reduz preços de ingressos para partida
UOL Economia
Bovespa reduz ritmo de perdas
perto do fim dos negócios

UOL Tecnologia
Fãs do iPhone promovem encontro no Brasil; veja mais
UOL Notícias
Chuvas deixam quatro mortos e afetam mais de 4 mil no Paraná
UOL Vestibular
Cotista tem nota parecida com de não-cotista aponta Unifesp
UOL Televisão
Nova novela da Record terá máfia e Gabriel Braga Nunes como protagonista
UOL Música
Radiohead entra em estúdio para trabalhar em disco novo
UOL Diversão & Arte
Escritor indiano Aravind Adiga ganha o Booker Prize
UOL Cinema
Novo filme dos irmãos
Coen tem maior bilheteria nos EUA