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06/01/2006
George Michael fala sobre os percalços da sua carreira e anuncia a volta aos palcos

Stéphane Davet
Enviado especial a Londres


Estrela inconteste do pop dos anos 80 e do início dos 90, George Michael também conheceu alguns incidentes de carreira, seja o seu enfrentamento contratual com a sua gravadora, a Sony, um atentado ao pudor orquestrado pela polícia americana em mictórios públicos de Beverly Hills, os ataques que ele sofreu por parte dos tablóides ingleses depois da sua tomada de posição contra a guerra no Iraque, que acabaram prejudicando um pouco a sua popularidade nos anos 2000.

Por muito tempo refratário às entrevistas, aquele que continua considerado o décimo músico mais rico do Reino Unido oferece explicações sobre o seu percurso, suas derrapadas e seus amores num documentário, "George Michael: Minha História", de Southan Morris, que estréia nas salas francesas em 11 de janeiro. Le Monde conversou com ele num palácio londrino.

Le Monde - Por que o senhor, que tantas vezes recusou pedidos de entrevista, sentiu a necessidade de contar a sua vida num documentário?

George Michael -
Para mim sempre foi difícil ter ao mesmo tempo de mostrar meu trabalho e expor a minha vida. Existe em mim algo muito inglês que não considera digno mostrar sua dor. Eu herdei da minha mãe este lado muito vitoriano. Ao mesmo tempo, a minha obra é extremamente vinculada à minha biografia. Ao trabalhar por um longo período com uma equipe de cinema, eu pude me confiar mais facilmente.

Também me ocorreu que seriam os fãs que iriam ver este filme, que eles poderiam me ver me estrangulando ao evocar a morte do meu namorado. Eles já sabem até qual ponto a minha vida inspirou a minha música.

LM - Quem vê neste filme algumas imagens de shows logo se pergunta por que o senhor se recusa há tantos anos a partir em turnê?

George Michael
- Eu tenho efetivamente a impressão de poder criar uma ligação instantânea com o público. Tenho muito prazer em dar shows, conheço esta emoção, esta necessidade quase histérica de se mexer no palco para tornar as pessoas felizes. Mas, para essas duas horas de prazer, eu tenho de viver 22 horas de inferno. Sempre tive a impressão de que este grande circo ameaçava a minha saúde mental. Nunca estive tão próximo da loucura quanto durante uma turnê.

Devo também confessar que eu me tornei muito preguiçoso. Antes, eu um cara bastante ansioso. Mas, dez anos de vida com um super-companheiro me libertaram dessas angústias. Dito isso, hoje, tornou-se mais fácil realizar turnês sem se detonar e sem perder dinheiro. É muito provável que eu dê séries de shows num futuro próximo.

LM - Em sua opinião, se o senhor tivesse ganhado seu processo contra a sua gravadora, a Sony, a indústria do disco teria sofrido mudanças importantes?

George Michael
- Eu tentei estabelecer para os músicos o mesmo tipo de contrato que os que existem na indústria do cinema, desde os anos 50 e do início dos anos 60, quando os estúdios concederam aos atores a sua independência. Os contratos das gravadoras foram criados em função dos antigos modelos de contratos de cinema que escravizavam os atores, mas eles não evoluíram da mesma forma. Num dado momento, todos os profissionais da indústria estavam convencidos de que eu iria ganhar.

Mas o juiz achou que haveria um risco de sabotar a indústria musical britânica, que, na época, era a fonte de exportações a mais importante do país. Quando você analisa a situação atual, creio que a única coisa que poderia ter salvado esta indústria é um melhor controle da qualidade. E os artistas eram mais capacitados a fazer isso do que esses imbecis que são os diretores artísticos.

LM - Em sua opinião, a explosão da Internet é uma coisa boa?

George Michael
- Mesmo se sociedades tais como a Apple adquiriram um poder excessivo, com uma rapidez excessiva, eu prefiro ter de lidar com elas às gravadoras. Acho que o desenvolvimento da Internet só pode estreitar os laços entre os artistas e seus fãs. Já faz algum tempo, estou oferecendo músicas para download no meu site, cujo pagamento é encaminhado para organismos caritativos.

LM - A sua carreira foi marcada por vários incidentes de percurso; como o senhor faz para dar a volta por cima?

George Michael
- Em geral, o senso de humor me tira dessas armadilhas. Mas, quando, em 2002, eu tomei posição contra a guerra no Iraque, atacando Tony Blair e George Bush no compacto "Shoot the Dog", o magnata da imprensa Rupert Murdoch decidiu que eu havia extrapolado meus direitos de cantor pop; ele desencadeou uma campanha nos seus jornais e matou o meu álbum. Para eles, o pop não deve se imiscuir na política, porque eles acham isso perigoso. Eles têm certa razão. Veja a pressão que os jovens artistas que foram mobilizados por Bob Geldof, por ocasião do Live 8, exerceram sobre os governos do mundo. O que mais me deixou decepcionado, na época, foi a completa falta de solidariedade por parte dos outros artistas a meu respeito.

LM - Noel Gallagher, o cantor do Oasis, disse a seu respeito: "Como confiar num cara que durante quinze anos mentiu sobre as suas preferências sexuais?"...

George Michael
- É uma declaração tão homofóbica que ela chega a ser profundamente ridícula! Durante muito tempo, eu menti, sobretudo, a mim mesmo. Quando eu tinha cerca de 19 anos, quase assumi publicamente a minha opção sexual, mas o medo de deixar a minha mãe preocupada, num momento em que estávamos no auge dos anos da Aids, me impediu de fazê-lo. Até a idade de 25-26 anos, eu não estava completamente seguro de mim. Uma vez que eu me tornei seguro, comecei a compor em conseqüência, sendo tão honesto quanto possível. Mas, enquanto você não disser 'eu sou gay', você ainda não 'saiu do armário'.

Biografia

  • 1964

    Nascimento de Georgios Kyriacos Panayiotou, em East Finchley, na periferia de Londres, de mãe inglesa e pai cipriota grego.

  • 1981

    Sob o nome de George Michael, ele funda o grupo Wham! Junto com o seu camarada de colégio, Andrew Ridgeley. Até a sua separação, em 1986, este duo disco pop terá um grande número de sucessos ("Wake Me Up Before You Go-Go", "Everything She Wants"), sobretudo junto a um público de jovens adolescentes, na sua maioria feminino. Isso não o impede de tomar regularmente posição contra o governo de Margaret Thatcher.

  • 1984

    Lançamento do seu primeiro compacto solo, a balada "Careless Whisper", que se torna um hit mundial.

  • 1987

    Lançamento de "Faith", o primeiro álbum solo, cuja música de trabalho é a muito sugestiva "I Want Your Sex", acompanhado por videoclipes luxuosos. Na encruzilhada do pop com o rhythm'n'blues, o disco vende no mundo todo mais de 10 milhões de exemplares.

  • 1990

    Lançamento do álbum "Listen Without Prejudice, Vol. 1". Vivendo um conflito com o seu status de estrela, o cantor se recusa a conceder entrevistas e a aparecer nos seus clipes. Ele acusará a sua gravadora, a Sony, de ter deliberadamente sabotado as vendas do disco e de querer mantê-lo em estado de "escravidão profissional".

  • 1993

    George Michael perde o seu processo contra a Sony, mas triunfa no estádio de Wembley, acompanhando o grupo Queen, por ocasião do show em homenagem ao cantor Freddie Mercury, morto de Aids.

  • 1998

    George Michael é preso por atentado ao pudor dentro do banheiro público de um parque de Beverly Hills, onde ele cai numa armadilha armada por um policial a paisana. O seu amigo Elton John declara então que "um mictório não é o melhor lugar para assumir sua sexualidade".

  • 2002

    Ataca Tony Blair e George Bush, no início da guerra no Iraque, no compacto "Shoot the Dog". Os jornais de propriedade de Rupert Murdoch disparam uma campanha que visa a depreciar o cantor.

  • 2004

    Lançamento do álbum "Patience", que vende "apenas" 3 milhões de exemplares. George Michael anuncia que, daqui para frente, ele quer difundir suas obras essencialmente na Internet.

  • 2005

    Canta no Live 8, em duo com Paul McCartney. Anuncia seu casamento com o seu companheiro, Kenny Goss, na esteira da adoção da lei britânica sobre as uniões civis.

  • 2006

    Lançamento do filme-documentário "George Michael: Minha História", e preparação de uma nova compilação na qual devem constar duas músicas inéditas. George Michael anuncia que ele voltará em breve aos palcos.

    Tradução: Jean-Yves de Neufville

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