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27/01/2006
Prada, grande estilista do chique não-conformista

Anne-Laure Quilleriet
Em Paris


Miuccia Prada aparece raramente. Quando muito, ela surge furtivamente na extremidade do pódio no final dos seus desfiles. Esse gosto pelo segredo não a impediu de ser a única estilista de moda a figurar no ranking das cem personalidades mais influentes do mundo, publicado em abril de 2005 pela revista americana "Time".

AFP - 16.jan.2006 
Miuccia Prada é aplaudida após apresentar sua coleção masculina de inverno em Milão

Aos 54 anos, a herdeira de uma marroquinaria (empresa que se dedica à confecção de artigos de couro, tais como sapatos, bolsas, cintos...) de família milanesa, fundada em 1913, preside junto com o seu marido, Patrizio Bertelli, um império da moda que "pesa" 1,46 bilhão de euros (R$ 4,02 bilhões) e produz cerca de oito milhões de artigos por ano.

Em vez de participar da projeção desenfreada dos estilistas por parte da mídia, que costumam ser consagrados no espaço de poucos meses como superstars dos panos, Miuccia Prada atua na sombra da sua marca. Enquanto outros se fazem fotografar, abraçados com modelos ou na sua residência de férias, ela prefere se afirmar por meio do seu trabalho.

"O meu maior orgulho é de ter obrigado a indústria a adaptar-se à criatividade", reivindica, num inglês impregnado de um sotaque italiano, esta madona do chique, com os cabelos puxados para trás e o rosto sem maquiagem.

"A finalidade do meu trabalho é vender. Agradar pessoas no mundo inteiro, e ao mesmo tempo permanecer fiel às minhas convicções, o que é bem mais difícil do que fazer roupas para quaisquer pessoas", insiste a estilista, cujo nome acompanhou ao longo dos anos 90 o desenvolvimento exponencial dos logotipos, a emergência das produções de segunda linha e um princípio de globalização da moda na escala planetária.

Enquanto as suas bolsas são vendidas, em média, a 600 euros (R$ 1.651,33) nas 205 lojas que foram abertas em todo o mundo pela grife Prada e a sua linha mais acessível, a Miu Miu, ela detesta a palavra "luxo", "porque ela expressa a banalidade burguesa, a falta de cultura".

E este não é o menor dos paradoxos que caracterizam esta antiga simpatizante do Partido Comunista italiano, que não sabe nem costurar nem desenhar, mas que é possuidora de um mestrado em ciências políticas.

Em 2000, para a abertura da butique Miu Miu em Paris, ela havia tomado conta da sede do Partido Comunista (francês), na Praça do Coronel Fabien, no espaço de uma noitada. "As minhas idéias políticas e o meu trabalho podem parecer perfeitamente contraditórios. Este é um dos grandes problemas da minha vida, mas eu estou tentando encontrar um caminho que reconcilie os dois. Dentro de alguns anos, eu talvez venha a me dedicar novamente a atividades políticas".

Isso explica a sua relação mais intelectual do que sensorial com a moda e a sua vontade quase obsessiva de evitar os clichês surrados que se aplicam à mulher.

"Para mim, as roupas servem para conferir segurança e expressar idéias. Se uma criação for horrível, mas se ela valorizar ou desnudar o corpo, as pessoas a compram. Eu tento encontrar caminhos menos convencionais para tornar uma mulher sedutora", confia esta adepta de Giorgio Strehler (diretor de teatro italiano, 1921-1997) que teve aulas de mímica no Piccolo Teatro (fundado por Strehler) antas de começar a atuar a serviço da marca da família em meados dos anos 70.

Nas suas grandes linhas, o estilo Prada --que esteve associado durante uma época às bolsas de náilon e aos tecidos impressos aparentando papéis de parede pintados no estilo dos Deschiens ("A Família Deschiens", seriado francês humorístico de televisão que estreou em 1994)--, define uma silhueta burguesa transformada pelas experimentações têxteis.

"Em cada temporada, as mudanças provêm muito mais das técnicas e dos materiais que do desenho. Eu prefiro me referir às formas clássicas em vez de tentar inventar outras novas, as quais em muitos casos acabam ficando distantes da realidade", reconhece Miuccia Prada, que se mantém fiel no cotidiano a este estilo chique anti-conformista, a esta mistura de austeridade e de fantasia que caracterizam suas criações.

"Eu tento abordar a banalidade com ironia. A coleção Prada é mais séria e conceitual, enquanto a linha Miu Miu opera num registro engraçado e ingênuo", precisa a estilista, instalada no seu escritório de decoração clínica, cujo chão é de concreto.

"Não se pode dizer que ela tenha inventado um tipo de vestuário em particular", analisa Olivier Saillard, encarregado da programação do Museu da moda e do têxtil, em Paris. "Ela trabalha a partir de uma colagem de intuições, contrapondo ou associando épocas diferentes que se encaixam entre elas assim como bonecas russas".

Uma iniciadora do movimento "vintage" (tendência que valoriza a autenticidade do clássico dentro de uma perspectiva atual), ela é insuperável na arte de reconciliar os contrários, de fazer algo novo a partir do antigo, de associar os pregueados à antiga com as impressões futuristas.

"O seu estilo é impossível de copiar, uma vez que ele é portador de uma cultura imensa", constata a estilista Irène Silvagni, atualmente uma colaboradora de Yohji Yamamoto e que foi uma das primeiras a perceber a fase de renovação da Prada.

No passado, a jovem Miuccia imaginava acessórios junto com a sua mãe, na sua butique da galeria Victor-Emmanuel, em Milão. Nada a predestinava a lidar com moda, exceto o fato de pertencer à burguesia comerciante lombarda e a sua paixão imoderada pelas roupas, a qual ela confessa de maneira quase constrangida, devido à sua preocupação em não ser assimilada a um mundo que privilegia a superficialidade e a encenação de si. O seu encontro com Patrizio Bertelli saberá convencê-la a profissionalizar o negócio.

Os bastidores da sua história revelam que ela cruzou com o seu futuro marido por ocasião de um Salão do couro, em 1978. Ela teria acusado este atacadista toscano de copiar seus modelos, antes que ele se torne o seu fornecedor preferencial, e, mais tarde, o pai dos seus dois filhos, hoje com idades de 18 e 16 anos.

"O meu marido está evidentemente envolvido nas atividades de todos os escalões do grupo, mas eu mesma prefiro concentrar-me na criação. Eu nem quero saber o que acontece com as outras marcas que nós possuímos", diz, para pôr fim de uma vez por todas às perguntas sobre as relações conturbadas de Patrizio Bertelli com Jil Sander e Helmut Lang, estilistas que se demitiram das marcas homônimas que possui o grupo Prada, também proprietário da Alaïa, da Car Shoe e de 45% do capital da Church.

A sua complementaridade exemplar não impede as discussões explosivas durante as reuniões, que andaram assustando mais de um colaborador.

Juntos, esses colecionadores eruditos implantaram em 1995 em Milão uma Fundação de arte contemporânea. Mas, nem por isso Miuccia Prada banca as artistas da moda. "Enquanto existem similitudes na maneira com a qual você deve se impregnar do seu meio-ambiente e transcrevê-lo sobre um objeto, as motivações da arte e da moda são completamente diferentes. A relação entre os dois é quase sempre falaciosa e oportunista".

Esta separação dos gêneros não a impediu de recorrer aos serviços dos maiores nomes da arquitetura, para "inscrever a moda dentro de um contexto social" e romper com a padronização dos espaços de venda, criando monumentais butiques batizadas de "Epicentro". A próxima, cuja realização foi confiada ao arquiteto holandês Rem Koolhaas, deverá ver a luz do dia dentro de alguns anos em Xangai.

Percurso de Miuccia Prada

  • 1951 - Nascimento em Milão (Itália).

  • 1972 - Mestrado em Ciência Política.

  • 1978 - Conhece Patrizio Bertelli, com quem ela se casa em 1987, e cria as bolsas Prada de náilon.

  • 1989 - Primeira coleção de vestuário feminino.

  • 1993 - Lançamento da linha Miu Miu e do prêt-à-porter masculino.

  • 2005 - Abertura em dezembro, em Moscou, da 174ª butique Prada.

    Tradução: Jean-Yves de Neufville

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