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04/05/2006
Freud, o pensador das luzes sombrias, iluminou o pensamento do século 20

Elisabeth Roudinesco

Milhares de livros foram dedicados ao inventor da psicanálise e várias dezenas de biografias permitem hoje conhecer, nos seus menores detalhes, e muito além de toda lenda "rosa" ou "negra", a vida, os costumes e a história intelectual deste vienense paradoxal, pensador das Luzes sombrias, cuja obra - 25 volumes e uma imensa correspondência - foi traduzida em cerca de sessenta línguas.

Divulgação - Museu Freud Londres 
Sofá onde Freud analisava seus pacientes visto na casa em que ele viveu em Londres

Fascinado pela morte e pelo sexo, mas preocupado em explicar de maneira racional os aspectos os mais cruéis e os mais sombrios da alma humana, Freud teve a idéia genial, em 15 de outubro de 1897, aos 41 anos, de remeter para a grande cena das dinastias trágicas da Grécia antiga o pequeno caso privado da família burguesa fim de século à qual se dedicavam na mesma época que ele todos os psicólogos especializados no estudo das neuroses.

"Cada um dos ouvintes aqui presentes", disse, "foi um dia, em germe, na imaginação, um Édipo que se apavora diante da realização do seu sonho transposto para a realidade". À figura de Édipo ele acrescentou a de Hamlet, o herói culpado, confrontado ao espectro de um pai reclamando sua vingança.

O fato de o complexo de Édipo - matar o pai e casar-se com a mãe - ter se tornado mais tarde, pela própria culpa dos psicanalistas, uma psicologia familista denunciada por numerosos filósofos nada tira da força de um gesto inaugural que consistiu em colocar o sujeito moderno frente ao seu destino: o de um inconsciente que, sem privá-lo contudo da sua liberdade de pensar, o determina à sua revelia. Uma revolução do senso íntimo, a psicanálise teve por vocação primeira de mudar o homem, mostrando que o "Eu é um outro" e que "o eu não é o senhor em sua moradia".

Freud foi tanto um pensador do irracional e da desrazão quanto um teórico da democracia apegado à idéia de que somente a civilização, isto é, a obrigação de uma lei imposta ao poderio absoluto das pulsões assassinas, permitia à sociedade escapar de uma barbárie desejada pela própria humanidade.

Em 1905, já em seus primeiros escritos sobre a sexualidade infantil, Freud foi odiado, primeiro, pelos expoentes de todas as religiões, que o acusaram de destruir os valores da moral, depois pelos adeptos dos nacionalismos, que enxergavam na sua teoria a expressão de um rebaixamento da soberania patriarcal, e, por fim, pelos representantes de todas as ditaduras, que o suspeitaram de semear a desordem nas consciências.

Vista como uma ciência "boche" (germânica no sentido pejorativo) pelos franceses; como uma ciência latina pelos nórdicos; como uma ciência degenerada pelos puritanos anglófonos, a psicanálise foi taxada de ciência judia pelos nazistas e, por fim, de ciência burguesa pelos stalinianos.

Durante a segunda metade do século 20, ela foi considerada como uma falsa ciência pelos expoentes das ciências duras, que a criticaram por ela não ser mensurável, e então, novamente, como uma ciência judia e comunista pela extrema-direita, e, por fim, como uma ciência satânica pelos islâmicos radicais. Alguém ainda duvida de que esta detestação permanente permanece o sintoma o mais poderoso da verdade subversiva da invenção freudiana?

Nascido em Freiberg-Pribor, na Moravia (hoje a República Tcheca), em 6 de maio de 1856, e batizado de Schlomo-Sigismund, Sigmund Freud era o filho de Amalia Nathanson e de Jakob Freud, e, portanto, o primogênito do terceiro casamento do seu pai, o qual exercia a profissão de negociante em lã e em têxteis. Do seu primeiro casamento, Jakob tivera dois filhos, Emmanuel e Philipp, que o jovem Freud considerava como tios ao mesmo título que os cinco irmãos do seu pai. Do casamento de Jakob e de Amalia nascerão ainda sete filhos: Julius, Anna, Debora, Maria, Adolfine, Pauline e Alexander.

Adorado pela sua jovem mãe, que o chamava de o seu "Sigi de ouro" e lhe predizia um destino brilhante, Freud foi criado numa família numerosa e recomposta dentro da qual ele ocupava um lugar de rei, reinando sobre irmãs que lhe eram todas devotadas e se sentindo tanto o filho dos seus meio-irmãos quanto o protetor do seu irmão caçula, e depois da sua mãe, quando o seu pai veio a falecer. Com isso, ninguém se espantará, conforme mostram alguns dos seus relatos clínicos, com o fato de que ele tivesse entendido melhor a rebelião dos filhos contra os pais do que a das filhas contra a sua família.

Em 1860, enquanto Emmanuel e Philipp emigravam para Manchester, Jakob, depois de vários reveses financeiros, se instalou em Viena. É nesta cidade da qual ele não gostava, mas onde ele viverá até 1938 que Freud seguiu seus estudos de medicina, apaixonando-se ao mesmo tempo pela biologia darwiniana, que servirá de modelo para todos as suas pesquisas.

A idéia segundo a qual a psicanálise não passa de um puro produto do espírito judaico vienense nada mais é que um clichê. E, contudo, é de conhecimento geral que os contragolpes da desintegração progressiva do Império austro-húngaro fizeram desta cidade, conforme sublinha Carl Schorske, um dos "mais férteis caldeirões de cultura a - histórica do nosso século".

Rejeitando as ilusões dos seus pais, que acreditavam nos benefícios do liberalismo, os filhos da burguesia se voltaram para uma nova busca de identidade. Judeus na sua maior parte, e falando várias línguas, eles sonharam, uns com a conquista de uma terra prometida, e os outros com uma possível regeneração do homem por meio do retorno aos grandes mitos dopassado: um projeto de um Estado judeu para Theodor Herzl, a desconstrução do ego para Hugo von Hoffmannsthal, a renegação ou a conversão para os intelectuais assombrados pelo ódio de si judaico, o culto de uma feminilidade transgressiva ou ainda, a "secessão" ou a inversão dos valores da arte clássica para Robert Musil, Arthur Schnitzler, Gustav Klimt ou Gustav Mahler.

Embora eles fosse alheio a esta modernidade, à qual ele preferia a arte do Renascimento ou da Antiguidade greco-latina, Freud foi marcado muito mais do que ele mesmo achava por este movimento, nem que seja na sua concepção de um inconsciente atemporal ou de um psiquismo estruturado em tópicos (o ego, o id, o superego) : "A ele deve ser atribuído todo o mérito", dizia Karl Kraus, "de ter conferido uma organização à anarquia do sonho. Mas tudo neles acontece como se estivessem ocorrendo na Áustria".

Em 1885, após ter sido nomeado "privat-dozent" (docente) de neurologia, Freud obteve uma bolsa de estudos que lhe permitiu mudar-se para Paris. Ele mal podia esperar então para conhecer o médico Jean-Martin Charcot (1825-1893), cujas experiências sobre a histeria o fascinavam. Já celebrado no mundo inteiro, o grande mestre da neurologia francesa hipnotizava as mulheres do povo, internadas no hospital da Salpêtrière. Diante de uma platéia de intelectuais, ele fazia os seus sintomas desaparecerem e depois reaparecerem - paralisias ou contraturas - demonstrando assim que elas não eram de modo algum simuladoras. Em Nancy, Hippolyte Bernheim, o rival de Charcot, utilizava a sugestão com objetivos terapêuticos.

De volta a Viena, Freud casou-se finalmente com Martha Bernays depois de um noivado de cinco anos durante o qual ele havia vivenciado uma intensa frustração sexual, a ponto de mergulhar por vezes na neurastenia. Desta união nascerão seis filhos: Mathilde, Martin, Oliver, Ernst, Sofie e Anna.

No seu apartamento do 19 Berggasse, incentivado pelo seu amigo Josef Breuer (1842-1925, fisiologista e psiquiatra austríaco), ele começou a tratar jovens garotas e mulheres da burguesia acometidas de distúrbios histéricos

Buscando curá-las, ele utilizou os métodos aceitos naquela época:
hidroterapia, massagens, eletroterapia. Mas, após ter logo constatado sua total ineficiência, ele praticou primeiro a hipnose e a sugestão, e mais tarde a catarse. Foi a partir destas práticas que nasceu o termo de psico-análise, que foi empregado pela primeira vez em 1896 para designar uma cura pela palavra e por meio da exploração do inconsciente sem intervenção corporal nem sugestiva.

A publicação por Breuer e Freud, em 1895, dos "Estudos sobre a histeria" foi um evento. Neste trabalho, os autores apresentavam oito casos de mulheres, entre os quais o de Bertha Pappenheim (Anna O.), afirmando que todas elas haviam sido curadas da sua neurose. Hoje sabemos que tal afirmação não era exata. Mas a grandeza deste livro residia na utilização pelos autores de um estilo romanesco, despido de todo jargão técnico, e que conferia uma dignidade a mulheres anônimas descritas como as heroínas de uma aventura inovadora da psique humana.

Entre 1887 e 1902, Freud tornou-se amigo de Wilhelm Fliess (1858-1928), um médico berlinense adepto de teorias extravagantes. Ao longo das páginas desta correspondência que, por muito tempo, permaneceu expurgada, descobrimos de que maneira ele se interessou à bissexualidade; como ele nunca parou de duvidar dele mesmo; como ele delirou com a cocaína sem, contudo, renunciar ao seu tabagismo; e como, após ter suspeitado seu pai de ser um pervertido sexual que chegou a abusar dos seus filhos, ele abandonou sua teoria chamada de teoria da sedução real para adotar aquela da fantasia.

No decorrer desta experiência íntima, que acabou resultando numa ruptura violenta, Freud elaborou uma teoria original do sonho, da sexualidade, do recalque e do desejo. A partir de 1900, ele publicou todos os livros que fizeram dele um clínico fora do comum e o fundador de uma nova disciplina: "A Interpretação dos sonhos" (1900), "Psicopatologia da vida cotidiana" (1901), "Três Ensaios sobre a teoria sexual" (1905), "Os Chistes e a sua relação com o inconsciente" (1905), "Totem e tabu" (1912).

Em 1909, convidado para pronunciar cinco conferências na Clark University de Worcester, na Costa leste dos Estados Unidos, Freud obteve um sucesso triunfal falando sem notas, em alemão, e então dialogando em inglês com a platéia. Contudo, ele conservou desta experiência um preconceito desfavorável para com este país pragmático que havia recebido seus ensinamentos com uma ingenuidade desconcertante.

Preocupado em universalizar sua doutrina e acreditando poder protegê-la contra supostos desvios, ele fundou uma internacional, reunindo em volta dele um grande número de discípulos europeus: Sandor Ferenczi (Budapeste), Karl Abraham (Berlim), Ernest Jones (Londres), Carl Gustav Jung (Zurique), Raymond de Saussure (Genebra), Marie Bonaparte (Paris), Lou Andreas-Salomé (Göttingen). Após ter sido analisada pelo pai, a sua filha Anna tornou-se a sua mais fiel herdeira.

Longe de evitar as dissidências, esta iniciativa as favoreceu, e se a psicanálise conseguiu se implantar em todo o mundo ocidental, o preço a ser pago por isso foram inúmeros conflitos e excomunhões que mostraram que a cura pela palavra nunca conseguiu ajudar os psicanalistas a se entenderem entre eles e a dissipar suas querelas.

Depois da Primeira Guerra mundial e do desmoronamento do Império austro-húngaro, Viena deixou de ser a capital do freudismo, isso no mesmo momento em que médicos americanos se rendiam em peso a esta prática e procuravam se formar no divã do mestre. Foi naquela época que ele decidiu remanejar sua primeira teoria do inconsciente, postulando a existência de uma pulsão de morte própria da humanidade em si ("Além do princípio de prazer").

Esta revisão, que o conduziu a redigir suas mais belas obras de teórico da cultura ("O Futuro de uma ilusão", "O Mal-estar na civilização"), produziu-se no mesmo momento em que a sociedade vienense, já assombrada pela sua própria agonia, estava confrontada à negação radical da sua identidade, uma vez que ela não passava mais, segundo a frase de Stefan Zweig, de uma "centelha crepuscular" no mapa da Europa.

Em 1923, Freud descobriu do lado direito do seu paladar um pequeno tumor maligno. Seis meses mais tarde, ele foi amputado de uma parte do maxilar. Durante 16 anos, ele se submeterá a cerca de trinta operações mutiladoras. Infiel ao judaísmo, hostil a todos os ritos de vinculação à sua religião e/ou cultura, ele permaneceu, contudo, fiel à sua judeidade. Ele se considerava como um judeu ateu, universalista e de cultura alemã.

Em 1930, ele se pronunciou contra a criação de um Estado judeu na Palestina, sublinhando com lucidez que a questão dos Lugares santos estaria um dia no centro de uma querela insolúvel entre os três monoteísmos. A partir de 1933, ele assistiu, desesperado, ao exílio forçado rumo ao mundo anglófono de todos os seus discípulos da velha Europa continental, expulsos pelo nazismo.

Obrigado a deixar Viena depois do Anschluss (anexação da Áustria pela Alemanha nazista em 1938), ele se instalou em Londres com a sua família, numa bela mansão, cercado pelos seus livros e as suas coleções de antiguidades. Foi lá que ele redigiu seu derradeiro trabalho, "O Homem Moises e a religião monoteísta", no qual ele afirmava que o ódio para com os judeus era alimentado pela sua crença na superioridade do povo eleito e pela angústia de castração que suscitava a circuncisão como signo da eleição.

Freud morreu em 23 de setembro de 1939, após ter pedido ao seu médico, Max Schur, para abreviar seus sofrimentos. Ele nunca soube do destino que seria reservado pelos nazistas às suas quatro irmãs, que desapareceram em meio às trevas da solução final.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

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