UOL Mídia GlobalUOL Mídia Global
UOL BUSCA

RECEBA O BOLETIM
UOL MÍDIA GLOBAL


18/07/2006
No Chile, Valparaíso vive sem história seu declínio e busca sobreviver

Michel Faure

Nós estamos em Valparaíso, uma importante cidade litorânea não longe de Santiago, a capital do Chile. "Aqui", diz um historiador, "nós fazemos de conta que a história nunca existiu". Ronald Smith, o nosso interlocutor, é um chileno de sobrenome inglês, assim como muitos dos seus compatriotas que nasceram neste porto do Pacífico onde tantos marinheiros britânicos desembarcaram após terem passado pelo temido Cabo Horn. Ele é professor na universidade de Valparaíso e diretor da rádio desta instituição. Ele se define como um "porteño" autêntico, conforme são chamados aqui os habitantes de Valparaíso, um rebento desta cidade que não tem equivalente no mundo. Ele pronuncia seu sobrenome assim como ele se lê em castelhano. "Esmit", diz ele, ao apertar a mão do visitante.

Esmit, portanto, afirma que os chilenos em geral, e os porteños em particular, "seguem negando a história até hoje, porque esta os deixa envergonhados. Quando ela se realizou, nós preferimos olhar para outro lugar e fazer como se nada tivesse acontecido. Foi assim que nós nos tornamos mestres em empregar eufemismos. Quando nos referimos ao 11 de setembro de 1973 (data do golpe militar que derrubou o presidente Salvador Allende, liderado pelo general Augusto Pinochet), nós sempre falamos de 'pronunciamiento' militar, para não dizer golpe de Estado". Ele cita um artista local chamado de "o cigano Rodriguez" que cantava no passado: "Eu nasci aqui simplesmente / E nunca tomei conhecimento da história de Valparaíso".

O mesmo acontece com todos os porteños, diz o nosso historiador. Ninguém sabe nem sequer quando e por quem a cidade foi fundada, sendo este um enigma que ninguém procura desvendar verdadeiramente. Neste sentido, Valparaíso é o reflexo fiel do Chile, embora, para tudo mais, ela esteja evoluindo na contramão em relação ao resto do país. Ela é tão pobre hoje, num momento em que o Chile vai bem, ela que fora tão próspera quando este último não passava de um beco sem saída do mundo, como se ele fosse uma ilha perdida imprensada entre o mar e as montanhas, toda estirada no seu comprimento. "A minha magra pátria", dizia o poeta Pablo Neruda (1904-1973).

"Nós ocultamos a história", prossegue Ronald Smith. "Nós não assumimos o nosso passado. Nós minimizamos os eventos quando a verdade e dura demais de enfrentar". Assim, nada indica que foi aqui, em Valparaíso, que teve início o golpe de Estado, na primeira hora do dia 11 de setembro de 1973, quando a infantaria da marinha tomou posição na cidade enquanto a calma ainda reinava em Santiago, a capital.

Nada indica, tampouco, que os dois protagonistas os mais marcantes da história chilena contemporânea, o general Augusto Pinochet e o presidente Salvador Allende, tivessem ambos nascido em Valparaíso. O primeiro nasceu na cidade em 25 de novembro de 1915 e o segundo em 26 de junho de 1908.

Pinochet e Allende estudaram na mesma rua, a Avenida Colón. Allende foi colegial no liceu público Eduardo de la Barra, e Pinochet aluno de uma escola de padres franceses, El Sagrado Corazón, a dois quarteirões de distância.

Não há nenhuma placa comemorativa, nem mesmo uma única pichação revoltada nos muros dos dois estabelecimentos. O único sinal visível da história recente é o prédio do Congresso, uma estrutura maçante, pesada. Por amor pela sua cidade natal, a menos que seja por ódio da representação parlamentar, foi aqui que Pinochet instalou o poder legislativo, num bairro bastante desolado. Este afastamento da capital provoca um taxa de não-comparecimento alarmante, a qual seria a verdadeira causa da escassez de leis produzidas pelo Chile, uma vez que a maioria dentre elas não é validada por falta de quorum de deputados.

Segundo Smith, Valparaíso é um anfiteatro, um meio-círculo que escalada a paisagem. "A cidade é a espectadora e o mar é o ator da história", este "mar tranqüilo que te banha e te promete um futuro esplêndido", diz um soneto do hino nacional. Foi graças ao tráfego marítimo que a cidade se tornou próspera, enquanto o declínio do porto, depois da construção do canal de Panamá, marca o início da sua decadência. Contudo, Valparaíso olha para o mar de longe, sem nunca dele se aproximar.

As ondas da história morrem aos pés dos morros. Para entender a cidade, portanto, é preciso tomar certa distância. É preciso abandonar as ruas do centro, suas calçadas estreitas, seus bistrôs baratos, seus antigos edifícios esplêndidos e imundos; é preciso sair das galerias comerciais um pouco suspeitas onde se concentram os cabeleireiros, os cinemas pornôs e essa invenção chilena que são os cafés "con piernas", literalmente "cafés com pernas", surpreendentes lanchonetes populares onde se toma um expresso no balcão, servido por jovens mulheres de biquíni que beijam gentilmente o visitante na bochecha para lhe dizer bom dia.

É preciso se afastar deste simpático inferno, portanto, e subir até o paraíso ("Va al paraíso", "vá ao paraíso", é uma saudação que está na origem do nome da cidade), escalar os morros, os "cerros" aos quais se pode aceder por meio desses elevadores que são para esta cidade o que a torre Eiffel é para Paris. Lá em cima, tudo é calmo. Das casas, que estas sejam lindas mansões ou miseráveis casebres feitos de chapas de ferro onduladas corroídas pela ferrugem, dá para ver o oceano de longe. Se nenhum morador destas alturas o convidar para contemplar a vista da sua janela, basta ir à casa de Pablo Neruda para desfrutar a paisagem.

A casa do poeta, "La Sebastiana", é hoje um museu. E este museu, uma maravilha de cores, de pinturas marinas, de vidraçarias antigas, dá razão a Smith quando ele afirma que em Valparaíso é possível apagar os sinais da história, caso esta estiver incomodando.

Neruda, que foi um simpático diplomata, um comunista elegante e um poeta genial, morreu de um câncer alguns dias depois do golpe de Estado de 11 de setembro. Depois da sua morte, os militares saquearam sua casa. Mas, eles agiram como bons soldados e cometeram seu crime sem provocar o caos. Os objetos e as obras de arte foram devidamente catalogados e conservados nos armazéns dos quartéis. Tudo foi devolvido quando a democracia foi restaurada, e a casa aparece hoje como se ela nunca tivesse sido agredida. "Ah! É muito chileno, isso!", exclama Smith.

Contudo, aqui, a história pode ser lida todos os dias. Existe em Valparaíso o "vigia do tempo", um jornal, "El Mercúrio de Valparaíso", que é o mais antigo diário do mundo em língua castelhana. O seu primeiro número data de 12 de setembro de 1827.

Já naquela época as notícias não eram muito boas. No teatro da cidade, durante a apresentação do quarto ato de uma "sublime tragédia", escreve o redator, um sujeito chamado Fallarton, oficial da Marinha da Sua Majestade britânica, ordena a um cidadão, "num tom ameaçador e insolente", de lhe ceder seu assento. O dito cidadão recusa, "o que não deixa de ser uma reação natural", nota o "Mercúrio", "mas sempre observando a moderação e a decência exigidas pelo lugar". Muito depressa, instaura-se uma pancadaria generalizada e o comandante da praça ordena a prisão do marinheiro inglês, que dois soldados chilenos têm por missão de dominar. Fallarton mata um deles com um tiro de pistola.

O criminoso foge, mas vários dos seus colegas são presos. É neste momento que intervêm então o governado da cidade, o cônsul britânico e o comandante da fragata Doris, o qual exige a liberação dos seus marinheiros. O governador obtempera, e "começa a ser notado", precisa o jornal, "o descontentamento do povo, que estima que este caso acabou sendo solucionado de uma maneira humilhante para a nação".

Eis então que a tropa inglesa desembarca do navio. "Um grito de alarme geral é ouvido de uma extremidade à outra da cidade, enquanto os senhores comissários de guerra e da marinha, don Victorino Garrino e don Joaquin Ramirez, correm até o quartel da artilharia e armam os soldados e os cidadãos". O jornalista do "Mercúrio" nos informa de que "num curto espaço de tempo, tudo estava pronto para salvaguardar a independência nacional e cobrir de vergonha e de terror os impudentes que tiveram a temerária arrogância de provocar nossa intrepidez".

Hoje, as coisas são bem mais tranqüilas. Os únicos sinais da influência britânica são, com a exceção do nosso amigo Esmit e dos seus semelhantes, alguns edifícios de colunatas decrépitas do centro da cidade e bonitos casarões vitorianos sobre os morros, os quais não raro foram transformados em pensões que oferecem o café da manhã, com vistas para a baía capazes de lhe dar vertigem, e onde é servido um horrível café solúvel no fundo de uma xícara para a primeira refeição do dia.

Para o visitante um pouco cansado que gostaria de tomar um drinque no nível do mar, uma boa pedida é sempre El Tradicional Bar Inglês, no n.º 851 da Rua Lord Cochrane, uma boa casa no estilo antigo, com um vasto balcão de madeira envernizada, gravuras de batalhas navais, toalhas de mesa brancas, onde é servido um rosbife mal passado e onde um velho barman de bochechas avermelhadas e de cabelos loiros, sem dúvida aparados pelos seu vizinho o cabeleireiro especializado em corte naval, respeitosos do corte regulamentar da marinha. Com a sua gravata-borboleta e a sua camisa de mangas curtas, o barman é um chileno com cara de inglês. Aliás, como todo bom inglês que se preza, ele nunca sente frio, nem mesmo quando, como hoje, a cidade tirita em meio a uma bruma glacial vinda do oceano.

Num sinal dos tempos, o bar perdeu muitos dos seus clientes, enquanto o "Mercúrio" tem poucas notícias boas para anunciar. O jornal não se descreve mais como uma publicação "mercantil, política e literária", nem diz que "serão publicadas todas as opiniões que nos serão encaminhadas com esta finalidade, em qualquer idioma estrangeiro que elas estejam redigidas". Aqui, declara o redator-chefe, Alfredo Larreta Lavin, "a vida não é simples". A morte tampouco, aliás, segundo deixa adivinhar um cartaz na fachada de uma empresa funerária na Avenida Colón: "Funerário Divino Corazón de Jesus, facilidades de pagamento".

Larreta Lavin é um senhor calmo que traja um pequeno colete de lã cinza sem mangas, o qual parece ser a vestimenta predileta de todos os homens de idade madura no Chile, principalmente na temporada das primeiras friagens trazidas pelo inverno austral. Ele chegou a Valparaíso vindo da sua cidade natal de Talca, mais ao sul, para fazer seus estudos de direito - após ter fracassado no exame para a universidade de Santiago - e ele acabou ficando, sem saber ao certo por quê. Ele acabou gostando da cidade que foi o palco da sua juventude estudantil e ele a observa todo dia, com uma ternura um pouco triste, como se ele estivesse diante do leito de hospital de um doente teimoso, que ainda resiste a aceitar os últimos sacramentos.

Aqui, diferentemente de Santiago onde ela é mais bem dissimulada, a miséria se vê. Há mendigos nas esquinas, vendedores ambulantes que espalham suas bugigangas patéticas sobre a calçada, bistrôs operários, uma deliqüescência urbana generalizada. O porto não é mais o que ele era, enquanto a indústria foi literalmente sugada por Santiago, que fica a uma hora e meia de estrada apenas. A taxa de desemprego na cidade chega a 18%, contra 9,5% em nível nacional. Valparaíso, que conta 280.000 habitantes, perdeu, em dez anos, 10% da sua população.

O chileno tem a reputação de ser austero, trabalhador, introvertido, respeitoso da ordem e da autoridade, herdeiro dos genes dos seus ancestrais obstinados que levaram adiante sua viagem "até o lugar mais distante onde se possa ir sem cair do planeta", conforme escreve Isabel Allende (64 anos, escritora, filha de Tomás, um primo do ex-presidente Salvador Allende) num belo livro de recordações, "Mi Pais inventado" ("Meu País Inventado"), após terem atravessado as montanhas dos Andes, acompanhados por mulas.

O porteño, por sua vez, é conhecido, ao contrário, por ser uma pessoa simpático e antes rebelde, um filho de marinheiros e de aventureiros, movido pela alegria de viver numa cidade onde qualquer um pode vir e ir embora como bem entende, "esse porto sem porta" tal como ele foi cantado por Pablo Neruda.

De fato, a cidade acolheu o mundo inteiro; ela leu, já no final do século 18, todos os livros das Luzes, que têm em castelhano o bonito título de "La Ilustración". Muitos foram os navegantes que permaneceram em Valparaíso, e até hoje, os seus atos e feitos podem ser reconstituídos. Foram alemães (o restaurante Hamburg serve até hoje chucrute e a salsichas), italianos (a sua escola, situada na Avenida Pedro Montt, cuja arquitetura fascista mereceria ser incluída nos monumentos históricos do Cone Sul, está prestes a ser destruída; ela deverá ceder o lugar a um supermercado); franceses, que fundaram colégios religiosos, e ingleses, portanto, cuja influência foi tão grande que a primeira dívida externa do Chile foi aquela do país com a Grã-Bretanha.

Todas essas comunidades organizam suas próprias brigadas de bombeiros, suas fanfarras, suas igrejas, apresentam peças de teatro, formam clubes. "A cidade era um esplendor", nos diz Smith. "Ela era alegre, ela abrigava um número considerável de bares para marinheiros, com garotas e música. O último dentre eles, o Roland Bar, fechou suas portas recentemente".

O declínio de Valparaíso começa com a abertura do canal de Panamá, "e a triste verdade, é que ele prossegue até hoje", constata Larreta Lavin.
Assim, o início de século 20 constitui o começo do fim da prosperidade da cidade. E este fim não é muito bonito de se ver. Mas ele marca também o início de uma reação, segundo garante um economista otimista (eles são raros), um antigo ministro regional da economia e, ele também, um apreciador do colete de lã sem mangas: "Nós estamos recuperando o tempo perdido!"

Este economista chama-se Alejandro Corvalan. Ele está convencido de que existe para Valparaíso uma saída de emergência: "a economia do patrimônio". Este patrimônio, que a Unesco reconheceu como sendo propriedade da humanidade, Corvalan o define como um bem único, não reprodutível, o motor de uma nova economia emergente na qual estariam misturados o turismo, os serviços e a indústria da comunicação.

"Nós somos iguais aos cães vadios", nos dirá Ronald Smith para falar do futuro, referindo-se a esses animais que erram pela cidade. "Eles são muito parecidos conosco, astuciosos, prudentes, sem agressividade, eles procuram por comida. Eles são iguais a nós, sem história e preocupados apenas com a sua sobrevivência".

Tradução: Jean-Yves de Neufville

ÍNDICE DE NOTÍCIAS  IMPRIMIR  ENVIE POR E-MAIL

Folha Online
Reforma visual da Folha facilita a leitura; conheça as mudanças
UOL Esporte
Após fiasco de público, CBF reduz preços de ingressos para partida
UOL Economia
Bovespa reduz ritmo de perdas
perto do fim dos negócios

UOL Tecnologia
Fãs do iPhone promovem encontro no Brasil; veja mais
UOL Notícias
Chuvas deixam quatro mortos e afetam mais de 4 mil no Paraná
UOL Vestibular
Cotista tem nota parecida com de não-cotista aponta Unifesp
UOL Televisão
Nova novela da Record terá máfia e Gabriel Braga Nunes como protagonista
UOL Música
Radiohead entra em estúdio para trabalhar em disco novo
UOL Diversão & Arte
Escritor indiano Aravind Adiga ganha o Booker Prize
UOL Cinema
Novo filme dos irmãos
Coen tem maior bilheteria nos EUA





Shopping UOL

Gravadores Externosde DVD a partir
de R$ 255,00
Câmera Sony6MP a partir
de R$ 498,00
TVs 29 polegadas:Encontre modelos
a partir de R$ 699