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21/07/2006
No histórico bar A Brasileira, em Lisboa, o fantasma de Fernando Pessoa toma um licor de cerejas

Michel Braudeau

No decorrer de séculos de guerras e de rivalidades, o chamado Velho
Continente forjou-se em volta do Mediterrâneo, cercou-o de portos e de
cidades admiráveis, de Veneza a Atenas, de Marselha a Barcelona, os quais lhe abriram as portas do Oriente, construindo sua potência, sua prosperidade comercial e, quase à sua revelia, sua unidade política.

Trilhando o oceano, os seus navegadores conquistaram o mundo, e, do cabo Norte ao estreito de Gibraltar, talvez não exista um "finistère" ("fim de terra", nome dado a certas regiões e cidades à beira-mar) mais bonito do que Lisboa, com a sua ponta de rosa e de aço mergulhada em direção ao coração do Atlântico.

Sem dúvida, esses tempo já vão longe. O Mare Nostrum (Nosso Mar) tornou-se estreito e convulsivo, e embora o hino português ainda reze: "Heróis do mar, nobre povo, / nação valente e imortal, levantai hoje de novo / o esplendor de Portugal!", foi movido por uma ironia cruel que ao retornar de Angola, António Lobo Antunes (64 anos, um dos escritores que surgiram com a revolução dos Cravos) intitulou um dos seus romances "O Esplendor de Portugal".

Portanto, um país associado ao esplendor e à melancolia. O caso não é
isolado na Europa, longe disso, onde não raro se tem a impressão de que a vida escapuliu, que "as coisas acontecem em outro lugar"; até recentemente na América do Norte, amanhã na China. Em Portugal, um país exíguo que outrora era o mestre de um império desmedido, o sentimento difuso da perda conduz por vezes à esquizofrenia, processo este que Lobo Antunes analisa com tanta argúcia em sua obra, mas raramente à amargura.

Lisboa cultiva a suave loucura dos gigantes que tudo perderam, mas sem
nenhuma arrogância; basta andar de navio no Tejo e voltar-se para a cidade para ver com quanta doçura materna ela oferece ao viajante a grande Praça do Comércio, como se esta fosse um berço colocado sobre o estuário. Quando ele contornou o cabo de Boa Esperança, em março de 1498, para alcançar o porto de Calicut, na orla de Malabar, Vasco de Gama (1469-1524) não tinha como objetivo dominar politicamente a região imensa do oceano Índico, e sim desviar em direção a Lisboa o fluxo das mercadorias que transitavam pelos portos muçulmanos do Mediterrâneo oriental.

Contudo, a frota portuguesa, que dispunha apenas de algumas dezenas de
navios, não resistiu por muito tempo aos negociantes otomanos, iemenitas e mongóis. Antes deles, os ingleses e os holandeses conseguiram cultivar o café nas suas colônias indianas e indonésias.

Foi preciso esperar até 1727, em decorrência de um caso galante entre a
mulher do governador da Guiana francesa e um sedutor oficial português, para ver plantas de café serem introduzidas de maneira fraudulenta no Brasil. Além disso, em 1755, Lisboa foi devastada por um terremoto e um maremoto que deixaram a Europa estupefata - essa catástrofe foi narrada por Voltaire em "Cândido" -, e ela foi redesenhada tempos depois pelo marquês de Pombal. Em conseqüência disso, os mais antigos estabelecimentos onde se podia tomar café na capital lusa e da existência dos quais nós temos indicações seguras, datam do final do século 18, de 1782 ou 1784, dependendo dos historiadores. Um deles foi o Martinho da Arcada (então batizado de Casa da Neve), sob as
arcadas da Praça do Comércio.

Os cafés se desenvolveram em Lisboa - o Nicola, o Rossio, o Montanha, o
Brasileira, o Versailles, e muitos outros - no decorrer da segunda metade do século seguinte, tão rapidamente quanto na Espanha, e se tornaram os pontos de encontro dos estudantes, dos artistas e dos intelectuais tidos como "jacobinos" pela "Gazeta de Lisboa".

Um decreto da rainha Maria 2ª havia instaurado em 1846 um círculo oficial das figuras as mais notáveis da sociedade liberal, o Grêmio literário, equivalente do Ateneu de Madri, que reunia homens de letras, dirigentes políticos e personalidades da aristocracia, no palácio Loures. Com a sua biblioteca, os seus salões opulentos, o seu restaurante e o seu jardim sobre o Tejo, o Grêmio continua sendo até hoje uma das academias as mais distintas da Europa.

Mas os escritores, tanto em Lisboa como em outros lugares, nem sempre são pessoas ricas nem origem ou de educação diferenciadas, e a maioria dentre eles acabou se reunindo espontaneamente e sem protocolo nos cafés do Chiado ou da Baixa, para trocar entre si reflexões e conversas sediciosas demais para o Grêmio, e ainda praticar jogos clandestinos ou se embebedar com método.

Num café, os horários são maleáveis; qualquer um pode sentar-se a uma mesa, ler o jornal, beber e falar livremente, sem precisar revelar sua identidade nem trajar uma gravata, ou ainda, ao contrário, para aproveitar-se do anonimato que ele oferece e esconder-se no meio da multidão cinzenta. Ao menos, em princípio, é o que costuma ocorrer. Isso porque numa cidade do tamanho de Lisboa, os poucos cafés onde a oposição se refugiou durante a ditadura militar, de 1926 até a "Revolução dos Cravos" de 1974, foram tanto abrigos quanto armadilhas para os intelectuais, que eram ao mesmo tempo tolerados e vigiados.

O escritor Júlio Moreira recorda-se daquele tempo: "Em certos cafés que eram freqüentados pelo pessoal de esquerda, policiais bem vestidos se misturavam no meio do público. De vez em quando, eles levavam simplesmente um intelectual até uma rua próxima, para torturá-lo. Era assim que essas coisas aconteciam na época de Salazar [regime que durou de 1932 a 1970]..."

Portanto, era mesmo difícil passar praticamente despercebido durante 48
anos. Contudo, um poeta, que não era o mais perigoso entre todos,
aparentemente, logrou esse feito, possivelmente em virtude apenas do seu nome, Fernando Pessoa (1888-1935).

A lenda é bonita demais para ser questionada. Quando eles fundaram a cidade de Lisboa, os gregos lhe teriam dado o nome de Olissipo, derivado de Ulisses (nome que teria se transformado em Olisipona, e depois em Lisapona, até fixar-se em Lisboa). E todos conhecem o episódio da Odisséia no qual Ulisses e seus companheiros, prisioneiros dos Ciclopes antropófagos, são trancados dentro de uma caverna pelo mais forte desses monstros, Polifemo, que empreende devorar dois marinheiros por dia. Quando este já havia engolido o quarto marinheiro, Ulisses decidiu então oferecer vinho a Polifemo, que o agradeceu prometendo-lhe comê-lo por último e lhe perguntou o seu nome.
"Oudéis", respondeu Ulisses, ou seja, "Ninguém". Assim que Polifemo foi
tomado pelo sono da embriaguez, Ulisses furou o olho único do gigante com uma estaca. Polifemo acordou dando urros, os outros Ciclopes acorreram imediatamente e lhe perguntaram: "Quem o feriu?" Polifemo lhes respondeu: "Ninguém". Os seus colegas, considerando que ele estava demente, o abandonaram. Na manhã do dia seguinte, o cego Polifemo empurrou a pedra enorme que tapava a caverna para levar seu rebanho até as pastagens. Os gregos então se agarraram debaixo do ventre dos carneiros e retornaram até o seu navio.

Vale notar que em francês, a palavra "personne" pode significar tanto pessoa como ninguém. Em português, pessoa significa também "personne" e este foi o verdadeiro nome de Fernando António Nogueira Pessoa, nascido sob o signo de Gêmeos, em 13 de junho de 1888, em Lisboa, na cidade de Ulisses. É verdade que isso se deveu ao acaso, mas este caso teve conseqüências inegáveis sobre a trajetória deste sujeito. Após a morte do seu pai, Fernando acompanhou a sua mãe e o seu sogro, em viagens para Durban, na província do Kwazulu-Natal, na África do Sul, onde ele completou sua escolaridade e retornou em 1905 a Lisboa, que ele nunca mais deixou.

Ainda muito novo, ele começou a inventar para si heterônimos, que eram
interlocutores com os quais ele correspondia. "Quando criança, eu já tinha tendência a criar em volta de mim um mundo fictício, a cercar-me de amigos e de conhecidos que nunca haviam existido".

A ciranda das máscaras adquiriu a amplidão de um sistema infinito em 8 de março de 1914, durante uma crise de exaltação na qual ele se sentiu
realmente submerso por "outros que ele", e imbuído da missão de dar voz a outros escritores que habitavam dentro dele de maneira autônoma (foram recenseados 72 desses "outros"). Estes lhes inspiraram diversas obras, as quais ele publicou sob diversos "heterônimos", entre os quais Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Bernardo Soares, António Mora.

Ao longo da sua vida, Pessoa assinou seu próprio nome apenas numa plaqueta e em artigos publicados em revistas. Ele vivenciou um breve amor não correspondido, levou uma vida regulada de modesto empregado numa agência de importação-exportação, e gostava de "subir" até o Chiado no final do dia para beber, no café A Brasileira, um drinque de licor de cerejas - um ou vários, já que uma crise hepática lhe tirou a vida em 1935. Quando ele morreu, foi descoberta uma mala que continha 27.543 textos inéditos, manuscritos ou redigidos em folhas esparsas, um quebra-cabeça do qual o autor havia levado a chave.

Evitaremos aqui evocar mais precisamente a possível herança psíquica da sua avó Dionísia, que morreu num sanatório. Os supostos vínculos que podem existir entre a loucura, a infância e o gênio são geralmente tolices cômodas que só servem para tranqüilizar pessoas tão pateticamente normais que são estas que deveriam ser isoladas. Deixaremos também cada leitor abordar a sua obra como bem entende, pois este não é o nosso objeto. Mas é evidente que o caso da assombração plural e semi-lúcida de Pessoa está muito distante da astúcia de Ulisses. O ardil da História vem do fato que este campeão do anonimato reina hoje sobre a literatura moderna, muito além das fronteiras
de Portugal, em todos os lugares onde as noções de obra e de autor são
questionadas. Antonio Tabucchi (63 anos, escritor italiano, professor de literatura portuguesa na universidade de Pisa) prestou-lhe homenagem em inúmeras oportunidades, com admiração e ternura, dialogando com ele no final de "Réquiem", fantasiando os "Três últimos dias de Fernando Pessoa", e publicando suas obras completas em italiano.

A monumental "Foto-biografia" de Pessoa escrita por Maria José de Lancastre e publicada (na França) pela editora Christian Bourgois, mostra do poeta adulto a imagem pouco heróica de um pequeno funcionário agasalhado no seu impermeável, qualquer que seja a estação, com o seu chapéu mole, seus óculos, seu bigode. De uma banalidade finalmente assombrosa. Mesmo se o seu rosto fosse apagado, esses atributos imutáveis bastariam para identificá-lo, assim como a bengala e o chapéu-coco de Carlitos. De tanto apagar-se, de tanto dedicar-se a não ser ninguém, Pessoa tornou-se todo mundo e a sua silhueta é a mais célebre de Lisboa.

Apesar do incêndio que destruiu uma parte do Chiado em 1988 e da
concorrência das discotecas, muitos são os cafés antigos que subsistem, e que não são reservados à terceira-idade nem aos turistas. É o caso do Bénard ou do Nicola, cuja decoração interna foi renovada com tino. Enquanto o Versailles, pomposo e antiquado, se mostra sonolento em meio às suas confeitarias, os fregueses continuam se embriagando bravamente no British Bar, onde eles podem também contemplar a curiosidade local, um relógio dinamarquês cujos ponteiros giram em sentido contrário, na contramão do tempo. Os fervorosos admiradores de Pessoa, após terem visitado sua casa natal e seu túmulo, não deixarão de sentar a uma mesa do venerável Martinho da Arcada, que ele costumava freqüentar. Lá, o que mais se vê é o nosso escritor "invisível", em azul em retratos sobre azulejos, em preto e branco em fotos de jornais ampliadas: a sua caneta, o seu cachimbo, a sua carteira de identidade, em artigos que lhe dizem respeito, nos quais os mestre discute com um confrade, escritos neste templo que lhe é inteiramente dedicado.

O Martinho, infelizmente, não passa de um restaurante medíocre e deserto que é aconselhável evitar. A decoração do café A Brasileira pouco mudou e ele continua sendo muito freqüentado, sem nenhuma nostalgia. Mas, se por um milagre o tímido Pessoa retornasse entre nós, é bem provável que um detalhe de peso o impediria hoje de entrar neste estabelecimento e o obrigaria a dar uma extensa volta, passando perto dos muros. Isso porque acharam por bem honrar sua memória instalando no terraço uma estátua de bronze, de tamanho natural, que representa o poeta sentado a uma mesa, diante de um copo tão vazio quanto o seu olhar pensativo. À sua esquerda, uma cadeira de bronze permite que todos aqueles que nunca leram seus livros e ignoram até mesmo seu nome, possam posar em sua companhia, ao menos durante o tempo necessário
para bater uma foto.

Os portugueses dizem que o único que poderia sentar-se sem parecer ridículo nesta cadeira é Antonio Tabucchi. Mas é muito difícil imaginar esta cena. Além disso, Tabucchi já conhece de cor e salteado o número de telefone secreto do seu amigo no além.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

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