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22/07/2006
Em Praga, ainda subsistem cafés que foram centros difusores da cultura universal

Michel Braudeau
enviado especial a Praga, República Tcheca


A mesma antiga palavra eslava "prag" ("vau" em português) deu o seu nome próprio à cidade de Praga ("Praha" em tcheco), e transformou-se em "prah", que significa na língua comum uma passagem ou uma soleira. Uma única vogal transpõe o rio Vltava, e basta murmurá-la para se encontrar na entrada da "cidade dourada das cem torres", diante de milhares de passagens, de portas, e daquelas famosas janelas que, segundo Jerome K. Jerome (1859-1927, novelista e dramaturgo inglês), "foram desde sempre uma grande tentação para os praguenses".

Não se trata aqui de um costume recreativo ordinário, é claro. Todo aluno do primário terá estudado o episódio da defenestração sem elástico, em 23 de maio de 1618, dos governadores dos Habsburgos no castelo de Praga. Na ocasião, esses dois nobres protestantes e o seu doméstico tiveram a boa idéia de cair sobre um monte de estrume e foram embora ilesos. Mas o que ocorreu em seguida foi bem menos divertido - o incidente deu início à guerra de Trinta Anos, que arruinou a Boêmia e reduziu a população alemã pela metade -, mas aquele gesto impetuoso e cômico, que está gravado em todas as memórias, não deixa de ter algo a ver com une certa brusquidão do humor sim como Veneza, escapou dos bombardeios maciços das duas últimas guerras mundiais, assim como do frenesi dos megalomaníacos que grassaram em Roma, Paris, Bucareste e que devastam atualmente Pequim; por apreço pela elegância, ela recusou os painéis publicitários e o néon, e permanece uma das mais belas cidades do mundo.

Um sonho de pedra, dizem alguns, esquecendo-se de que os sonhos podem vir a ser muito violentos: nesta cidade, o verão é acachapante, o inverno interminável; já, em relação ao aparentemente tranqüilo rio Vltava, o Moldau dos alemães, é preferível vê-lo entrar no ouvido, orquestrado por Smetana (Bedrich Smetana, 1824-1884, compositor tcheco, cuja peça mais célebre é "O Rio Moldavia"), do que dentro da sua casa, de tanto que ele gosta de transbordar.

Descrita pelas agências de turismo como sendo o paraíso dos apaixonados, Praga pode ser tanto o purgatório obscuro das paixões não correspondidas quanto o dos claustrofóbicos angustiados. Isso explica o papel salvador dos seus cafés. No seu excelente livro intitulado "A Europa dos cafés", publicado pela editora Eric Koehler por encomenda do ministério (francês) das relações exteriores, em 1991, o escritor Gérard-Georges Lemaire - do qual nós reconhecemos de bom grado emprestar alguns pontos da sua erudição, conforme manda o costume liberal, de uma mesa à outra, nesses lugares dos quais ele é um especialista - precisa que o primeiro café praguense viu a luz do dia por obra de um levantino, Deodato (ou Deodotus Damascenus).

Nascido em Damasco, o jovem homem viajou para o Cairo e Trípoli, e então foi para Roma em 1699, onde ele se converteu ao catolicismo. Em Viena, ele freqüentou um estabelecimento conhecido como A Garrafa Azul, que já havia sido aberto pelo polonês Kolschitzky depois da vitória sobre os otomanos, e decidiu introduzir esta bebida em Praga, onde ela era desconhecida. Dez anos antes, um francês se vira recusar o direito de abrir um comércio semelhante, mas Deodato, que nada sabia da língua nem dos costumes dos boêmios, tinha ousadia de sobra. Munido de alguns sacos de favas e de uma carta de crédito fornecida pelos jesuítas de Praga, ele foi autorizado a instalar um comércio de bebidas perto da ponte Carlos, que ele batizou de As Três Avestruzes, onde ele preparava seu café à turca e o servia fantasiado de árabe.

O sucesso foi rápido, e Deodato, declarado cidadão da cidade, abriu um
segundo café em 1714, A Serpente de Ouro.

Embora ele fosse hábil e culto, ele se considerava talentoso o suficiente para escrever, e o tom panfletário dos seus opúsculos desagradou alguns poderosos.

Ameaçado de prisão, ele partiu em exílio para a Alemanha; quando ele
retornou, a aventura havia terminado para ele. Durante a sua ausência, o café dos Dois Árabes havia surgido bem ao lado das Três Avestruzes, e, além dele, muitos outros estabelecimentos, que não mais propunham aos seus fregueses o seu grosseiro caldo turco, e sim café na moda, isto é, vienense.

No decorrer do século 18, o estilo de Viena tornou-se a referência em todo o Império, e conheceu sortes diversas, dependendo do temperamento das nações que ele ainda unia. Em Praga, Mozart (1756-1791), que não detestava nem o vinho nem as farras, havia conhecido um triunfo quando dirigiu a primeira audição de "Don Giovanni", em 29 de outubro de 1787, em presença de Casanova (Giovanni Giacomo Casanova, 1725-1798, aventureiro e memorialista italiano de expressão francesa), ainda sensível, aos 62 anos, ao tema desta ópera. Mais tarde, a obra-prima foi vaiada em Viena, que pretendia então ser o árbitro do gosto em todos os campos da cultura. Desde então, a posteridade decidiu.

Embora os cafés de Praga muito cedo tiveram o charme e esbanjaram o luxo daqueles da então capital (Viena), segundo explica Patrizia Runfola, citada por Gérard-Georges Lemaire, nem todos foram inicialmente "catedrais da razão" comparáveis ao café Griensteidl: "O vai-e-vem dos extravagantes, dos beberrões, dos pés-rapados que levavam uma existência prosaica, emaranhava-se com o destino dos poetas, dos romancistas e dos artistas que, em muitos casos, compartilhavam a mesma exaltação burlesca e patética".

É no decorrer da sua adolescência e da sua maturidade que os cafés refletem a alma viva de uma cidade, sempre única. Ao longo de algumas décadas, ao sabor dos encontros, seja em tempo de guerra ou de paz, eles são muito mais reveladores da história do que os monumentos aos quais eles se juntarão algum dia no museu das alegrias defuntas.

Praga, a cidade santa da Boêmia, barroca e mágica, com os seus labirintos de vielas e suas fábulas místicas, não era tão solene quanto Viena, cuja loucura burguesa era mais bem dissimulada, e nem tinha esta ambição. Nem por isso ela era menos inteligente e criativa, segundo escreveu o poeta Jaroslav Seifert (1901-1986), o autor de "Todas as belezas do mundo": "O tédio não existia nos nossos cafés. Neles, as pessoas discutiam, traçavam planos, travavam polêmicas com paixão e eu nunca tinha a impressão de estar perdendo meu tempo. Assim como em qualquer outro lugar, ninguém freqüentava os cafés apenas para tomar café. A sua raridade era célebre. As 2 coroas que ele custava equivaliam ao preço do ingresso num ambiente aquecido durante o
inverno, e de fumaça espessa durante o verão. Mas a atmosfera acolhedora sempre valia a despesa".

Foi no Café National, onde se reuniam os membros do movimento de vanguarda Devetsil, que ele se apaixonou à primeira vista por uma jovem pintora singular, Manka Cerminova (1902-1980), que estava em busca de um pseudônimo. Jaroslav Seifert lhe sugeriu o nome de Toyen, que ela adotou para assinar sua obra visionária e sem concessão.

Em 1947, ela comprou uma passagem de ida simples para Paris, onde ela aderiu ao surrealismo, tornou-se integrante - assim como escritor croata Radovan Ivsic - do grupo restrito dos derradeiros fiéis de André Breton (1896-1966, escritor francês considerado como pai do surrealismo), e nunca mais retornou a Praga.

Entretanto, nem por isso o apaixonado Jaroslav renunciou a freqüentar o
National, onde ele se encontrava regularmente com Rainer Maria Rilke
(1875-1926, escritor austríaco nascido em Praga), os poetas Nezval e
Khlebnikov, e de vez em quando com Apollinaire (1880-1918, Guillaume
Apollinaire, poeta francês) e Maiakovski (1893-1930, poeta russo). Em certas ocasiões, o lingüista Roman Jakobson, menos familiar com esses pontos de encontro de notívagos, porém apaixonado por poesia, nele vinha recitar os versos revolucionários de Maiakovski, conforma se recorda Seifert, um inconsolável pilar deste estabelecimento que deixou de existir.

Outros também desapareceram ou foram submetidos a curas de rejuvenescimento que os mataram. O Café Arco, que acolheu Kafka (Franz Kafka, 1883-1924, escritor tcheco de língua alemã) e os intelectuais de cultura alemã (batizados de "Os Arconautas" por Karl Kraus), antes de se tornar ponto de encontro dos partidários do Devstsil, é hoje uma cafeteria nova em folha que não inspiraria mais nenhum verso ao seu antigo deus, Guillaume Apollinaire.

Segundo muitos dizem, o Café Union está em processo de declínio. O Café
Louvre, que expulsou por um tempo Max Brod (1884-1968, escritor judeu nativo de Praga e de língua alemã) e Franz Kafka, e do qual Albert Einstein (1879-1955) foi o hóspede semanal de 1911 a 1912, preservou sua decoração de dominante rosa e branco, e os seus bilhares. Nele, hoje, os seus fregueses almoçam, sem surpresa nem efeitos secundários indesejáveis, mais do que falam de literatura.

Na categoria das antiguidades que foram restauradas, mais vale optar pelo Café Slavia, construído em 1884, frente ao Teatro Nacional, nas ribanceiras da Vltava. A vida intelectual, artística e política de Praga como um todo, freqüentou em peso e mais de uma vez na vida o Slavia: os burgueses, os atores de teatro, os estudantes, os escritores ou as meretrizes.

Durante os anos 30, sob a Primeira República, o local foi transformado
radicalmente. Para tanto, abateram as paredes internas e refizeram a
decoração por completo, escolhendo o estilo Art déco francês. O público
voltou então a freqüentá-lo, e nele passaram a ser notados os rincipais
protagonistas da intelligentsia progressista, futuros pontas-de-lança da dissidência. Foi assim que, nos assentos do Slavia, Vaclav Havel (69 anos, escritor e homem político tcheco, presidente do país de 1990 a 2003) teve o seu primeiro encontro com aquela que se tornaria a sua primeira mulher, Olga, quando ele tinha 16 anos.

Com os seus amplos vãos de vidro com vista para o rio e o morro no
horizonte, ofuscado pela massa escura do castelo de janelas pouco
diplomáticas e das torres góticas da catedral de São Vito, o Slavia
proporciona uma sensação repentina de espaço, de libertação eufórica.
Alugado em 1992 a uma companhia americana que não cumpriu seus compromissos, ele permaneceu fechado, para a viva indignação dos praguenses, até 1997, quando ele reabriu suas portas ao público.

Embora hoje a cidade não esteja de todo desprovida de cafés - dos 1.500 que haviam sido recenseados em 1930, ainda sobraram alguns -, o Slavia permanece um emblema e nela a vida ainda jorra generosamente. Além disso, Praga é uma das raras capitais onde a grande tradição dos cafés parece estar se mantendo, a despeito das investidas do turismo. As ditaduras desconfiam dos cafés e do que sai deles. Mas nem todos os povos, é verdade, tiveram a "sorte" de conhecer um tal regime.

Os praguenses, por sua vez, seguem se vendo, se falando e se ouvindo nos cafés, assim como nós fazíamos há um século ou dois. As belas instituições do passado, lideradas pelo National, morreram? Não há de ser nada, outras novas, diferentes, menos douradas, são construídas, e o rito continua. Basta entrar no Café Ebel ou na Tynska Literarni Kavarna, por exemplo, os quais foram bem-sucedidos ao fincarem raízes na cidade, para ver pessoas lendo ou escrevendo, discutindo a respeito de um artigo de jornal, de um capítulo de romance. Em geral, são jovens que têm pouco dinheiro.

Os preços não são muito altos, e os patrões não esperam nenhum lucro
exorbitante desses letrados estudiosos que só tomam um café em três horas e arrancam páginas dos jornais estrangeiros colocados à sua disposição gratuitamente. Contudo, esses donos de estabelecimento não são filantropos iluminados, e os seus clientes não estão fingindo, nem são meros figurantes. Eles compartilham o mesmo amor pela literatura, no único palco acessível a todos, no café.

Alguns explicam os projetos que eles pretendem realizar, lêem em voz alta as páginas que eles acabam de redigir ou as de um confrade. E ninguém zomba deles, porque isso é muito apreciado por todos, que o autor tenha ou não talento. As palavras são também corpos e a linguagem uma presença. A leitura em público é um costume comum. Kafka lia trechos de "O Processo" para os seus camaradas no Arco e deixou Ernst Pollack apresentar a primeira versão de "A Metamorfose" numa pequena sala do Café Stefan.

Desde a morte de Franz Kafka, em 1924, aos 41 anos, o fantasma do escritor paira sobre Praga, assim como o de Fernando Pessoa sobre Lisboa. Nascido e enterrado em Praga, ele não queria ser "ninguém", uma vez que ele já não era de lugar nenhum, um judeu para os alemães, um alemão para os tchecos, um estranho para ele mesmo, para a vida ("Eu poderia viver e eu não estou vivendo"), e para esta cidade também, que ele amou a ponto de sentir ódio por ela, mas sem nunca conseguir deixá-la.

Hoje Praga se vinga: aqui e lá a imagem de Kafka é vendida, reproduzida em camisetas, em pôsteres. Cada um dos lugares que ele freqüentou é assinalado num percurso flechado. Ele tem o seu museu, a sua rua, a sua estátua enigmática e feia, assim como Pessoa e seus colegas em Lisboa. Essas são todas honras que ele teria execrado. E, para enfiar a estaca mais fundo ainda, existe um Café Kafka.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

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