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22/09/2006
O renascimento de Johannesburgo, a cidade do ouro

Por Fabienne Pompey
correspondente na África do Sul


É uma cena clássica: quatro homens entram num banco, eles têm a cabeça e o rosto cobertos por uma balaclava e empunham metralhadoras. Todo mundo se joga no chão. Mas, daqui para frente, esta não passa mais de uma imagem de arquivo, da recordação de um tempo, não tão remoto assim, em que o centro da cidade de Johannesburgo era considerado como a "capital mundial do crime".

"Havia pelo menos 90 gangues que dividiam entre elas o território. A estação central se parecia com um campo de refugiados do Darfur. O centro da cidade havia se tornado uma zona de não direito", recorda-se Neville Huxham, encarregado da comunicação da Cue-Incident, uma importante companhia especializada em segurança. "Hoje, vocês estão no lugar o mais seguro da África. Aqui, nada pode acontecer com vocês", prossegue.

Na sala de controle da empresa, 200 monitores estão conectados de modo permanente às câmeras que espreitam tudo o que acontece no centro da cidade. Dia e noite, os funcionários da Cue-Incident estão de prontidão, atentos para toda e qualquer concentração de pessoas ou gesto suspeito, nas ruas e nos bancos. "Os furtos de carros e os assaltos perpetrados por delinqüentes armados diminuíram de 80%, enquanto os ataques contra bancos simplesmente deixaram de existir", afirma Neville Huxham.

A cidade do ouro foi salva de uma situação gravíssima. Por muito tempo, o centro da cidade, o Central Business District (CBD), havia sido o símbolo orgulhoso do sucesso dos pioneiros brancos, um monumento celebrando a glória dos garimpeiros. Ali, todas as grandes empresas, fossem elas bancos, companhias de mineração ou a Bolsa de Johannesburgo, haviam instalado a sua sede. Sempre maiores, mais altos, mais bonitos, os prédios beiravam amplas avenidas planejadas com perfeição. Era uma época em que o Central Business era reservado aos brancos.

Para a imensa maioria dos negros, confinados nos seus "townships" (distritos municipais, equivalentes a guetos na época do apartheid) a alguns quilômetros de lá, as luzes da cidade, até o final dos anos 80, não passavam de pontinhos brilhantes no meio da noite, já que eles eram terminantemente proibidos adentrar nela depois do pôr-do-sol. Somente aqueles que tinham um emprego podiam circular na cidade.

Com a derrubada do apartheid, em 1990, a maioria negra recobra a liberdade de circular. Um símbolo de riqueza e de prosperidade, o centro da cidade torna-se o alvo imediato das cobiças. O pequeno e o grande banditismo nele instalam seus quartéis-generais. Uma depois da outra, as grandes companhias fogem rumo aos ricos bairros periféricos do norte, reputados mais tranqüilos.

Até mesmo a própria Bolsa de Johannesburgo se muda de lá, assim como o escritório de representação das Nações Unidas e, entre outros, o consulado da França. Aos poucos, o centro da cidade do ouro vai se esvaziando. Os poucos empregados que ainda trabalham na área evitam permanecer nas ruas; eles estacionam dentro de subsolos, trabalham, almoçam no interior dos edifícios vigiados em permanência por empresas privadas, e retornam para as suas casas na periferia antes do anoitecer. Os teatros, os museus, os parques vão ficando desertos.

Os clientes do grande hotel Carlton não podem mais sair, a não ser acompanhados por uma escolta. Em 1997, o estabelecimento fecha, assim como as suas galerias comerciais. Os prédios abandonados são imediatamente ocupados ilegalmente, enquanto os grandes escritórios são divididos em pequenas oficinas ou em lojinhas para o comércio informal. Em busca de uma moradia próxima do seu local de trabalho, milhares de famílias africanas, elas também aterrorizadas pelas gangues, se instalam. Sem nenhuma manutenção, os edifícios tornam-se logo insalubres. Alguns são fechados por cercas de arame-farpado. É Beirute sem as bombas.

Hoje, a metamorfose já está praticamente consumada. O centro de comando da Cue-Incident instalou-se no Carlton Center, que reabriu. Ao longo do dia, os estacionamentos estão lotados, as lojas, as galerias ficam repletas de gente... e de guardas uniformizados. Comprado por uma sociedade parapública em 2003 por 35 milhões de randes (R$ 10,22 milhões - 1 rande equivale a R$ 0,29), o valor do prédio é avaliado atualmente em 1,4 bilhão de randes (R$ 410 milhões). A mudança foi iniciada a valer há seis anos, com a eleição de um prefeito, Amos Masondo. Foi ele quem fundou a Agência para o Desenvolvimento de Johannesburgo (a JDA), que veio a ser a principal responsável pela grande reabilitação.

Oitocentos mil passageiros transitam todo dia no centro. Os táxis coletivos tornaram-se os donos das ruas. No passado, em cada ponto, dezenas de vendedores de rua costumavam amontoar-se por toda a extensão das calçadas apinhadas de detritos. Estas haviam se tornado locais privilegiados para os roubos, os assaltos e os tráficos de todos os tipos. A prefeitura encomendou a construção de cinco terminais especiais para esses mini-ônibus, dotados de lojinhas pelas quais os vendedores passaram a pagar licenças, e que possuem água e eletricidade.

Os locais de memória, tais como a prisão "Old Ford" em Braamfontein, onde tantas vítimas do apartheid foram detidas e torturadas, foram restaurados. A antiga prisão passou a abrigar um museu e a nova Corte constitucional. Cinco anos mais tarde, depois de um programa de revalorização que custo no total cerca de 62 milhões de euros (R$ 170,59 milhões), os ônibus de turismo voltaram a se suceder nesta área situada sobre um morro onde ninguém ousava mais se aventurar.

A partir dali, a ponte Mandela, ume elegante estrutura de metal que paira acima dos entrelaçamentos de trilhos da estação central, permite passar rapidamente para Newtown, um bairro tradicionalmente dedicado à cultura, ele também inteiramente reabilitado. Há menos de cinco anos, nem mesmo os críticos de arte ousavam correr o risco de ir assistir às produções do Market Theater ou do Museum of Africa. Hoje, restaurantes abriram nos arredores, assim como clubes de jazz. Em menos de três anos, Newtown tornou-se a baluarte dos notívagos. Nos terrenos baldios dos arredores foram construídos pequenos prédios de apartamentos coloridos, de aluguéis moderados. Antigas fábricas e terrenos industriais abandonados vêm passando por um processo de renovação que visa a instalar apartamentos de luxo no lugar. "O centro da cidade deve tornar-se novamente um local de vida e de convivência social", insiste Paul Arrnott, o diretor de desenvolvimento na JDA.

Essas mudanças não teriam sido possíveis sem parcerias da prefeitura com o setor privado. Os bancos e as companhias de mineração deram uma contribuição considerável, assim como as raras sociedades que não abandonaram o navio quando este estava em perdição. O mundo dos negócios reuniu suas forças numa associação chamada "Business against crime" ("Empresas contra o crime"), enquanto a vídeo-vigilância efetuada pela Cue-Incident foi financiada em partes iguais pelos setores privado e público. Um posto de polícia foi instalado nas próprias dependências da sala de controle.

A Main Street, uma extensa avenida que percorre o centro de ponta a ponta, foi inteiramente renovada pelas empresas que nela estão instaladas. "Trata-se de um contrato com a Cidade", explica Paul Arrnott. "As sociedades reformam as calçadas e cuidam da segurança e dos espaços verdes, em troca de vantagens fiscais."

Daqui para frente, na Main Street, é possível flanar, tomar um drinque tranquilamente no terraço de um café, até mesmo quando já é noite. Em Braamfontein, a melhoria da paisagem urbana foi financiada na sua maior parte pelo setor privado. O Estado comprou 80 prédios moribundos do centro, cancelou uma parte das dívidas a serem pagas ao município e os colocou novamente no mercado. Os preços dispararam. O valor total dos prédios do CBD é estimado em 70 bilhões de randes (R$ 20,44 bilhões) - contra 20 bilhões (R$ 5,84 bilhões) há seis anos. Nesta área, a especulação é tão intensa quanto nos bairros chiques da periferia do norte da cidade.

Com a sua sociedade, a Urban Ocean, Alfonso Botha foi um dos primeiros a apostar na revalorização do centre da cidade. "No início", recorda-se este jovem afrikaner que mora num loft luxuoso com vista excepcional para o centro financeiro, "os bancos não queriam nos emprestar um rande sequer: hoje, nós somos proprietários de 20 edifícios". Após terem sido comprados por 36 euros (R$ 99,05) o m2, os apartamentos do primeiro prédio a ser renovado foram vendidos por uma quantia cinqüenta vezes maior. A companhia imobiliária Urban Ocean especializou-se nas moradias de luxo, do estúdio ao penthouse (cobertura) de 350 m2 vendido a 4 milhões de randes (R$ 1.375.525).

"Esta cidade é vibrante. Amanhã, ela será uma verdadeira Manhattan. Nós estamos apenas no começo dessa empreitada", diz Alfonso Botha. "Nós seguimos o exemplo de Nova York. Um dos principais objetivos é não termos mais um vidro quebrado sequer. Em 2010, para a Copa do mundo de futebol, nós teremos solucionado a maior parte dos problemas os mais importantes, mas nós temos um planejamento que vai até 2030, e, então, naquele ano, Johannesburgo terá se tornado novamente uma cidade de classe mundial", aposta Paul Arrnott.

Ainda há muito por fazer. Bem na frente do Carlton Center, debaixo das janelas da Cue-Incident, vários moradores ilegais acabam de reinvestir um edifício que ainda se encontra abandonado. Há roupa lavada estendida nas janelas quebradas, enquanto famílias inteiras se amontoam em dormitórios insalubres. Toda a área situada em volta do estádio Elis Park, onde acontecerão partidas na próxima Copa do mundo, permaneceu miserável. Ninguém se atreve ainda a se aventurar no parque Joubert, apinhado de detritos, e ocupado por dezenas de moradores de rua. O Berea e o Hillbrow, duas bairros próximos do centro, ainda estão sob o controle das gangues: neles, o tráfico de drogas e a prostituição são as atividades as mais praticadas.

Rua após rua, prédio após prédio, a prefeitura tenta, lá também, sanear e reconquistar terreno sobre a selva urbana. Mas, naqueles locais a população é mais densa, mais pobre, geralmente formada por imigrantes, e não existem nenhuma companhia de mineração, nenhum banco e nenhuma multinacional para garantir a manutenção dos jardins.


Tradução: Jean-Yves de Neufville

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