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21/10/2006
Os balcões campestres e barrocos de Liubliana

Por Michel Samson
enviado especial a Liubliana, Eslovênia


Liubliana é uma cidade exímia em exibir balcões inesperados. Vale a pena olhar para os bares, à noite, quando toda a juventude se encontra para conversar, beber e flanar perto da Ponte Tríplice sobre o rio Liublianica, o coração desta capital de tamanho humano que, com a sua fortaleza empoleirada no cerne de um meandro, evoca de maneira irresistível a bela cidade francesa de Besançon.

É só descer uma escada situada atrás do cais para descobrir um mini-anfiteatro dotado de alguns degraus, que paira sobre o rio. Nos terraços dos cafés, jovens reunidos em turmas conversam. Diante de taças de vinho branco, eles contemplam o leito do rio. À esquerda, um balcão abaixo do cais forma também um terraço, com as suas mesas protegidas por arbustos inesperados: deste lugar, dá para sentir a suavidade desta cidade atravessada por dois rios. Esta profusão verdejante, que aparece tanto sobre o morro do castelo quando nas praças, nos cais e nas grandes avenidas tranqüilas, transmite uma vontade de perambular ociosamente e confere à cidade um aspecto quase campestre.

Aliás, Liubliana, que, com o seu caráter monumental evidente, não se parece com nenhuma outra cidade da Eslovênia, atrai todos os perfumes e todas as cores do país das tílias. Na mais antiga das ruas da cidade velha, a Stari Trg, que corre aos pés do castelo, estão alinhadas casinhas medievais deslumbrantes. Restauradas e pintadas em cores pastel, elas formam um alinhamento suavizado pela curva da viela e parecem ser remanescentes de tempos muito remotos.

Ali, ao lado das lojas e dos restaurantes elegantes, é possível encontrar uma butique que vende, com a sua decoração de design contemporâneo, o sal marinho que a curtíssima orla eslovena, imprensada entre a Itália e a Croácia, forneceu durante décadas para Veneza. Quanto às lojas-adegas, elas oferecem o que há de melhor neste país, que ninguém suspeitava ser tão vinícola.

Mas o lado atraente da grande cidade reside também nesses alinhamentos monumentais que combinam elementos de arquitetura barroca com fachadas que restituem a imagem de um início do século 20 rico e poderoso. Na praça principal, que é um ponto de encontro dos passantes, dos turistas e das donas-de-casa, ergue-se o inacreditável Centromerkur, um supermercado central que foi construído em 1903. Com o seu teto ornamentado por um Mercúrio alado, ele aparenta-se hoje a um "gum" (centro comercial) soviético, com as suas escadas internas Art déco, seus departamentos estranhamente vazios e suas vendedoras apagadas, enquanto o restante da cidade e do país respira a opulência.

Esse vestígio da era comunista dá de frente para a igreja da Anunciação, com a sua arquitetura no mais puro estilo barroco do século 17, na qual um padre oficia perante uma assembléia numerosa. O teto imenso desta igreja de fachada vermelha e branca é decorado por pinturas barrocas, enquanto as suas cátedras são de madeira dourada esculpida e o altar, é claro, se destaca pelo seu aspecto monumental. Esta praça central dá origem à Rua Miklosceva, que concentra algumas das criações arquitetônicas as mais espantosas do início do século 20, quando Liubliana crescia por ser uma das etapas da ferrovia Viena-Trieste.

O Hotel Union, edificado em 1903, recuperou a sua função primeira após ter sido transformado no quartel-general do alto comando militar durante a funesta Primeira Guerra mundial que, em inúmeras frentes de batalha, assolou este pequeno país do qual todos os beligerantes queriam se apoderar. O prédio que lhe faz frente exibe uma fachada Art nouveau, adornada por gloriosas mulheres de gesso branco. Um pouco mais adiante, um outro edifício traz na sua parte mais elevada grandes estátuas de homens poderosos e célebres.

Os eslovenos são orgulhosos dessas construções imponentes que celebram a glória da sua capital, mas eles veneram em primeiro lugar o seu arquiteto e urbanista Joze Plecnik (1872-1957), que, após ter realizado suas primeiras obras em Praga (hoje a capital da República Tcheca), modernizou a capital planejando a arquitetura das suas orlas e de um bom números dos seus edifícios, tais como a biblioteca universitária, com a sua fachada austera de pedra e de tijolos, ou o estádio. Em Liubliana ele também projetou o novo cemitério: o visitante penetra neste espaço verdejante e triste passando por entre suas colunatas apertadas de mármore branco que enquadram o necrotério e conduzem até doze pequenas capelas de mesma feitura.

O incansável empreiteiro que foi Plecnik se encarregou do novo projeto do antigo mercado da capital, que se tornou uma das suas maiores atrações. Ao lado da Ponte Tríplice sobre o rio, à qual ele conferiu um toque veneziano, adornando-a com pequenas balaustradas, ele plantou suas linhas de colunas, de traçado um pouco duro, e concebeu curiosas criações arquitetônicas entre a terra e o rio. Basta descer alguns degraus situados ao longo do cais para deparar com impecáveis exposições de peixes, de onde emana um agradável cheiro de iodo.

Neste país alpino, nesta cidade que aparece cercada de muito perto por maciços anunciadores de grandes montanhas, os balcões oferecem polvos, barbos, dourados-do-mar, pratos preparados que incluem uma purê de carne de bacalhau, além de outros produtos do Mediterrâneo. Aliás, a última palavra da culinária sofisticada em Liubliana consiste em incluir no cardápio dos restaurantes um "simples peixe cozinhado com um dedo de azeite" depois de uma entrada típica à base de anchovas, azeitonas e alcaparras - que deve ser acompanhada com um tokay de Goriska Brda, essa região italiana tão próxima que produz bons vinhos.

Mais adiante, nesse grande mercado ao mesmo tempo retilíneo e labiríntico, coberto e aberto, e que é o único lugar do país onde podem ser encontrados pequenos comerciantes individuais, depara-se finalmente com salsicheiros que vendem aquilo que todos imaginam comer neste país tão central da Europa: salame, presunto de todos os tipos e todas aquelas guloseimas defumadas morenas, brilhantes e apetitosas, tão aguardadas pelo visitante.

As vitrines das confeitarias são bastante parecidas entre elas, com os seus strudels de todas obediências, suas frutas variadas, seus cremes, seus grãos de papoula e suas tortas folheadas. Além disso, o lado mediterrâneo volta à tona em frente aos pequenos quiosques de mesas altas, onde se come, em pé, polvo ou sardinhas grelhadas, com um vinho branco da casa servido em garrafão, a bebida nacional que milhares de viticultores vendem "aberta" - ou seja, é preciso levar consigo garrafas vazias para comprar este vinho na sua fazenda de aparência impecável, situada no flanco de um morro.

Um pouco mais acima no mercado, os camponeses e os vendedores da feira oferecem suas frutas e seus cogumelos, suas tisanas e seus legumes, entre os quais predominam os pimentões amarelos, as pápricas, que são encontrados com freqüência na culinária eslovena e, sobretudo, aquelas utilizadas no preparo da "malika", o copioso café da manhã local. Aos pés da barroca igreja de São Nicholas e do seu mosteiro, os quais são grandes edifícios impressionantes e um pouco tristes, encontram-se as vendedoras de flores e os jovens catadores, aqueles que colhem, conforme as estações, os cogumelos e as bagas dos campos e dos bosques, mirtilos, groselhas e cassis.

Assim como nas outras cidades eslovenas, o campo aqui parece estar muito próximo: os subúrbios ainda possuem hortaliças, e um cartaz na entrada da capital proíbe o acesso aos tratores...

Tradução: Jean-Yves de Neufville

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