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06/12/2006
Incursão na Coréia do Norte

Philippe Pons
enviado especial a Chongjin


Ao nordeste do vale, se desenham os contrafortes do monte Chilbo, com os seus panoramas espetaculares: picos de granito burilados pelo vento, precipícios vertiginosos, angras que abrigam vilarejos de pescadores. Esta é considerada como uma das "cinco paisagens mais bonitas" da península coreana.

Mas é em direção ao noroeste que o olhar do visitante é atraído, quando este passa por uma pequena cidade cinzenta repleta de prédios decrépitos. Quase nada em Kilju chamaria a atenção, não fosse o seu nome, que foi repercutido pela imprensa internacional: é nesse maciço montanhoso do qual se entrevêem as linhas de crista ao longe que teria sido realizado, segundo os serviços de inteligência americanos, o teste nuclear subterrâneo ao qual a República Popular Democrática da Coréia (RPDC) procedeu em 9 de outubro.

É no cantão de Kilju que teria sido sentido com a mais forte magnitude o abalo sísmico provocado pela explosão.

O país foi informado com grande estardalhaço do sucesso deste teste, mas, oficialmente, ninguém sabe onde ele ocorreu. Os habitantes de Kilju, que se preparam para o inverno colocando milho para secar sobre a calçada e confeccionando na soleira da sua porta tijolinhos de carvão para calefação, parecem ignorar que a sua cidade entrou para a história: muito além do "orgulho" que eles exibem em decorrência deste teste símbolo de "dignidade nacional", é a sobrevivência cotidiana que parece mesmo ser a sua principal preocupação.

Estamos aqui no coração de uma região remota - a província do Hamgyong do Norte -, que foi aberta com reticência para alguns representantes das organizações internacionais que trabalham em programas de assistência. Distante de Pyongyang, vitrine de uma liberalização econômica que tenta timidamente colocar a RPDC na esteira da China, em nome de uma "via coreana rumo ao socialismo", o Nordeste, de acesso difícil em razão de um relevo conturbado e de um clima rigoroso (- 30 ºC no inverno), vive ensimesmado.

São necessários dois dias e meio de carro para percorrer os 800 quilômetros entre Pyongyang e Chongjin, um grande porto e uma cidade industrial que ficam a uma centena de quilômetros da Rússia. Os dois terços da viagem são percorridos em estradas poeirentas, não asfaltadas, que ziguezagueiam pelos vales e escalam as montanhas, e que se tornam, em certos lugares, uma trilha estreita no flanco de um morro rochoso onde os veículos dificilmente conseguem se cruzar.

No decorrer do trajeto, o viajante penetra em uma Coréia onde as condições de vida são rudes e onde a população aparenta ser tosca, endurecida pelas dificuldades. Junto com as províncias setentrionais situadas mais a oeste (Changgang e Yanggang) - inacessíveis para estrangeiros -, o Hamgyong do Norte e o Hamgyong do Sul foram as regiões mais atingidas pela fome durante a segunda metade da década de 90. Segundo a Unicef (agência da ONU de ajuda humanitária às crianças nos países em desenvolvimento), nelas 40% dos habitantes ainda sofrem de desnutrição crônica - cerca do dobro da proporção verificada em Pyongyang.

A partir daquilo que é possível ver, considerando-se os limites de toda reportagem em RPDC - quase inexistência de contatos diretos com a população, inacessibilidade dos mercados populares -, predomina a impressão de que esta região tenta penosamente superar a miséria. Seguindo seu ritmo próprio, contando com meios limitados, à custa de enormes esforços humanos e correndo riscos de recaída.

A Coréia do Norte não se apresenta como um país abandonado, e muito menos parado, e tampouco a população transmite a impressão de estar abatida. A mobilização permanente exigida pelo regime, cujas palavras de ordem são exibidas em letras enormes até mesmo no flanco das montanhas, enquanto aqui e lá, músicas executadas por orquestras campestres exaltam o zelo no trabalho, é certamente um dos fatores que estão na origem desse ativismo.

Os parcos lucros autorizados por uma liberalização incipiente, que garantem uma ínfima melhora no cotidiano, também constituem a mola propulsora desta resistência encarniçada, modelada na adversidade, própria do temperamento dos coreanos, tanto do Norte como do Sul.

Partindo do porto de Wonsan, a 200 quilômetros a leste de Pyongyang, o viajante sai da auto-estrada estratégica, feita de placas de concreta que faz a conexão entre as duas orlas do país, para se embrenhar numa estrada de duas vias em péssimo estado que atravessa a vasta planície de Hamju, conhecida como o celeiro de arroz da costa oeste. A planície irá se estreitando rumo ao norte, enquanto o arroz, cujo rendimento por hectare vem diminuindo, deixa aos poucos o lugar para o milho.

Por todo lugar, sucedem-se as plantações de cor verde tenro de couves, as quais são colhidas no final de novembro para fazer o "kimchi", o qual, misturado com pimenta vermelha e depois fermentado, constitui o condimento de base na Coréia. Aqui, a terra argilosa torna-se pedregosa. A vegetação mais esparsa e o caos dos rochedos formam uma paisagem não raro magnífica, porém hostil.

Até o anoitecer, a estrada é o teatro de um labor intenso. Estamos no final das colheitas. Nos campos repletos de reflexos dourados da pós-safra, camponeses, operários e soldados, homens e mulheres, estão ocupados a armazenar o arroz e o milho. Todo atraso no plano do transporte significa perdas. "Os ratos experimentam antes do homem o arroz do ano", dizem. O trabalho é feito com as mãos: os feixes de arroz são carregados sobre a cabeça até charretes puxadas por bois ou reboques amarrados a raros tratores que os transportam até os centros de processamento do arroz onde eles serão beneficiados. As rodas das charretes não raro ficam cambaleantes, mas os animais são vigorosos.

Em certos lugares, a estrada está cortada: a reconstrução de uma ponte ou a obstrução de um túnel obrigam a atravessar a vau o leito de um rio ou a seguir um extenso desvio que passa por caminhos escarpados. Mas, por todo lugar, ela beneficia de uma manutenção minuciosa. Às centenas, ao longo de quilômetros a fio, homens e mulheres empunhando picaretas, pás e ancinhos tapam os buracos por meio de cascalho, aterram e aplainam a calçada. Cooperativas e unidades de produção são responsáveis pela conservação de um determinado trecho.

Segundo afirmam testemunhas que utilizaram essas estradas nos dias que se seguiram à "marcha forçada" - uma expressão que designa aqui os anos de fome -, o seu estado melhorou bastante. Embora o litoral oriental seja uma região estratégica, é muito raro ver um soldado armado.

Nos acostamentos das estradas, homens e mulheres acompanhados de crianças formam filas e avançam, envergados pelo peso de uma carga, ou ainda pedalam. Apoiados no guidão, homens empurram bicicletas carregadas de sacos. As mulheres carregam um fardo, um fagote ou uma bacia em equilíbrio sobre a cabeça; outras levam um bebê nas costas. Algumas pedem carona. O fluxo dos veículos é intermitente, mas a procissão dos andarilhos prossegue até o anoitecer.

No caminho, cruza-se com freqüência com caminhões verde-oliva, lotados de viajantes amontoados, de pé dentro da parte basculante ou sentados, agasalhados, no topo da carga, além de veículos pesados de marca japonesa que aceleram em meio a nuvens de poeira. Outros, ofegantes, despejam fumaça assim como locomotivas. Eles são equipados de uma caldeira à lenha cujo gás carbônico serve de combustível. Muitos deles estão parados, com o capô levantado, envoltos em uma nuvem de fumaça branca.

Todos os vilarejos foram planejados seguindo o mesmo modelo: alinhamento de casinhas que comportam apenas um andar térreo e são cobertas por um teto de telhas cinzentas, suavemente curvado para cima nas extremidades, conforme o estilo tradicional. Cada casa tem o seu pedaço de terra cultivada até a última parcela.

As aldeias, quase sempre planejadas de maneira ordenada, regular e limpa, são cercadas com muretas de pedra ou paliçadas. Na montanha, as casas são mais pobres e remendadas. Na planície, elas são mais bem projetadas, e até mesmo novinhas em folha. Sobre os tetos, secam pimentas vermelhas e milho. Estes formam toques vermelho escarlate ou amarelo ouro que alegram a paisagem na qual predominam as cores apagadas do outono e com as quais contrasta o verde intenso das coníferas.

As cidades industriais concentradas no litoral oriental apresentam um aspecto mais morno. Nelas, o trânsito é praticamente inexistente, a não ser alguns raros troles mais que lotados e que avançam aos solavancos. As filas de andarilhos, as nuvens de bicicletas, de carroças e de charretes cujos bois não raros somem debaixo de montes de hastes e de folhas de milho lembram o ritmo lento e o silêncio das cidades da China maoísta. Por todo lugar, pessoas puxam, empurram ou ficam envergadas sob as cargas. Homens conversam de cócoras - a posição de descanso na Ásia -, enquanto outros aguardam.

Em termos de vestuário, a boné proletário é usado por muitos homens, enquanto as mulheres amarram os cabelos para trás com uma fita e os cobrem com um lenço. Em certos casos, algumas aparecem levemente maquiadas, dando mostras de um toque de vaidade. Mas as roupas são simples e a roupa que seca nos varais não raro tem um aspecto pobre.

As obras da construção são realizadas por homens, ou até mesmo mulheres, que carregam sacos de cimento nas costas sobre os andaimes. Outros executam tarefas de terraplanagem e aquecem o piche com fogo à lenha. As mulheres que, tanto na cidade como no campo, participam das tarefas as mais penosas são principalmente as animadoras do embrião de economia liberalizada. São elas que tomam conta das barracas nas feiras, ou aqui e lá nas calçadas. As movimentações de populações em busca de alimentos do tempo da "marcha forçada" cessaram. Mas, os mais depauperados continuariam a levar uma vida errante.

As onipresentes estátuas de bronze do "Grande Dirigente" brilham assim como um fanal nas noites das cidades. Elas permanecem iluminadas quando estas ficam mergulhadas na escuridão em razão de cortes de eletricidade causados, segundo explica um morador da região, pela prioridade consentida às cooperativas na época das safras. O regime procura compensar a penúria de energia por meio da construção de pequenas centrais hidráulicas. Este é o caso na comuna de Chongpyong. A barragem, que foi concluída "com as mãos e sem ferramentas" em 2002, fornece eletricidade para a aglomeração cujas janelas cintilam na noite ao passo que a uma dezena de quilômetros mais adiante, Hamhung, a segunda cidade do país, está mergulhada na escuridão, no meio da qual se destaca aqui e lá o clarão de lâmpadas a óleo acesas em apartamentos.

Lentamente, o nosso carro tenta abrir passagem à luz dos faróis, em meio a uma confusão de andarilhos e de bicicletas, de charretes com ou sem bois e de caminhões. Na manhã seguinte, descobriremos bairros que foram engolidos na véspera pela noite. As cores flamejantes dos gingos (árvore sagrada e ornamental chinesa) nas amplas avenidas mal conseguem alegrar esta cidade industrial fosca, estirada ao longo do litoral. Nas ribanceiras dos rios, mulheres lavam roupa.

Os cortes de água são freqüentes. Na cidade mineira de Tanjong, a uma centena de quilômetros ao norte, a captação da água na fonte por meio de mecanismos que permitem tirar vantagem da força de gravitação para alimentar cerca de mil casas, compensa a carência de bombas elétricas. Essas inovações vão se multiplicando, uma vez que o acesso à água é, junto com o abastecimento em eletricidade, cada vez mais problemático.

Os dois terços das casas dispõem de água corrente. Mas, em 60% dos casos, elas são abastecidas por menos de seis horas por dia. Em razão da vetustez do sistema de bombeamento, a metade dos apartamentos acima do primeiro andar não são alimentados, o que obriga os habitantes dos andares superiores a bombear a água com as mãos. O estado das canalizações e a evacuação das águas usadas comportam graves riscos sanitários.

Segundo a Unicef, a população da região do Nordeste é uma das mais vulneráveis. No hospital provincial de Chongjin, que está em processo de renovação, as "doenças do abdome" são numerosas. Nele são tratados "alguns casos" de desnutrição. Além disso, o frio ocasiona frieiras que, em certos casos requerem amputações.

Chongjin lembra as cidades do Extremo-Oriente soviético. Com os seus prédios em tons pastel desbotados e os salgueiros majestosos que beiram as amplas avenidas, ela parece ser acolhedora. Mas ela permanece secreta, em função das "barricadas" erguidas diante dos raros estrangeiros de passagem, que são obrigados a permanecer em seu hotel ou no local que lhes foi alocado pelo seu programa de assistência. A despeito da presença de marinheiros de uniforme, Chongjin possui muito pouco da animação de um porto. Com a exceção de alguns troles de uma outra era, o trânsito nela é inexistente. Passantes aglutinam-se em volta de pequenas barracas nos passeios, enquanto outros se apressam cedo de manhã rumo às feiras - as quais estão fora do alcance do visitante.

A grande aciaria Kim Chaeak funciona em velocidade lenta, e Chongjin vive do comércio com a China que, a duas horas de estrada de ferro, é mais fácil de acesso do que Pyongyang. Na ferrovia eletrificada que segue o litoral do sul do país até a fronteira russa, os trens são raros. As negociações com Moscou para construir uma conexão entre esta ferrovia e o Transsiberiano já estão na sua fase final. Esta conexão deverá desencavar Chongjin e dinamizar as atividades da zona de livre comércio do porto de Rajin, que está no cerne do projeto de desenvolvimento conjunto da bacia do rio Tumen, a ser realizado pela China, a Rússia e a RPDC.

No Nordeste, as penúrias são evidentes, mesmo se a indigência tenta dissimular-se por trás de uma grande dignidade. A desnutrição aguda é pouco visível, mas, segundo a Unicef, ela atinge 7% das crianças de menos de 5 anos. A desnutrição crônica que, segundo a mesma fonte, regrediu de 62% para 37% entre 1998 e 2004 segue preocupante. Além disso, os progressos realizados - tais como o de uma taxa de vacinação que passou de 40% em 1997 para 90% em 2004 - são precários.

Às vésperas da chegada das primeiras friagens siberianas e das borrascas geladas, a Coréia do Norte permanece em estado de luta constante.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

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