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21/12/2006
Em Paris, uma exposição desvenda a aventura das aventuras de Tintin

Hervé Gattegno

Uma profecia macabra ou uma promessa de imortalidade? Os últimos esboços de "L'Alph-Art", a derradeira aventura de Tintin, interrompida em 1983 pela morte do seu criador, colocavam o pequeno repórter diante de um destino ambíguo: "Fique feliz, o seu cadáver acabará ficando dentro de um museu", lhe anunciava, sardônico, Rastapopoulos.

ABenoit Tessier/Reuters 
A obra de Hergé encontra finalmente seu lugar no panteão da arte moderna

Ameaçado de se ver transformado à força numa estátua sob a forma de uma compressão de César (César Baldaccini, escultor francês, 1921-1998), com uma arma apontada nas costas, o herói caminhava rumo ao nada. Os quadros seguintes permanecem vazios para todo sempre. Até o fim, Hergé (Georges Remi, conhecido como Hergé, 1907-1983) ignorou como ele os preencheria, legando assim a Tintin a angústia perpétua de uma consagração que também anunciaria a hora da morte.

Um quarto de século se passou e eis que a predição se realiza: com a vasta exposição que o Centro Pompidou em Paris lhe dedica por dois meses, a obra de Hergé encontra finalmente seu lugar no panteão da arte moderna. É uma exposição gratuita, cuja ambição de atrair o grande público fica ainda mais reforçada por ter sido instalada nos espaços situados à proximidade da entrada do Centro, e não no quinto andar, reservado às grandes exposições artísticas.

A mostra do Centro Pompidou evita a armadilha da petrificação: afixadas em amplos painéis brancos e apresentadas com sobriedade, as obras do mestre das histórias em quadrinhos européias curiosamente nada perdem da sua força, dessa magia do movimento que habita as personagens da saga "tintiniana", ainda que por meio de uma incrível economia de traços.

O segredo da famosa "linha clara" está contido por inteiro nesse traço, nessa genialidade gráfica que insufla uma vida nos rostos e anima - no sentido próprio: confere uma alma - corpos de papel. Despidos de qualquer brio estético, os primeiros desenhos de Hergé, publicados nos anos 1920 em modestas revistas para escoteiros, neles já traziam aquela graça nascente que se confirmaria posteriormente, até o virtuosismo dos mais belos álbuns.

Três pontos para os olhos e a boca, dois pequenos arcos para as sobrancelhas, um "u" para o nariz, dois traços arredondados para o rosto e o crânio; de Tintin, Hergé dizia: "ele é sempre um esboço; o seu rosto é um rabisco, um esquema".

Contudo, essa simplicidade absoluta não era nem um pouco evidente: a apresentação das etapas da invenção de Hergé oferece a oportunidade para uma visita virtual no ateliê do artista. Aqui é desvendado o avesso do cenário: croquis de base, rabiscados com lápis para fixar um olhar ou um gesto, até as estampas em grande formato, reforçadas ou corrigidas por meio de Typex, essa busca de perfeição, da qual não é difícil adivinhar que ela foi perpetuamente frustrada, desponta como uma aventura dentro da aventura.

Aqui e lá surgem provas de que a magia segue operando até hoje: ao observar de perto certos desenhos a lápis da epopéia lunar, o visitante poderia acreditar que o desenhista acaba de se afastar da sua mesa quando estava em pleno esforço, de tão poderosa a energia que deles emana... E a emoção não é menor quando se depara com uma das oito estampas míticas dos esboços a lápis de "Tintin e o Thermozéro", uma história de espionagem que Hergé abandonou depois de longos trabalhos preparatórios, mostrada aqui pela primeira vez.

O original de "O Lótus Azul"

A jóia da exposição é a coleção completa das 124 estampas originais de "O Lótus Azul", criadas entre 1934 e 1935. Ela deixará tanto os conhecedores como os neófitos espantados diante da sua beleza perturbadora, da sua atmosfera impregnada de mistério e de poesia, e do claro-escuro azulado das cenas noturnas, realizadas por meio de aquarela. Um "romancista em imagens", tal como ele definiu a si mesmo, Hergé revela-se no auge da sua arte nesta aventura chinesa, um salto qualitativo de marca maior em sua obra.

O seu encontro com um jovem escultor chinês, que estava então estudando em Bruxelas, Tchang Tchong Jen - a partir de quem ele criou o personagem de Tchang - abre então novos horizontes, gráficos e culturais, no universo do criador. O seu novo amigo lhe ensina a arte do pincel e lhe comunica a vontade de descobrir e compreender o mundo; esta dupla inspiração nunca o deixará, até alcançar o seu ápice - a palavra vem a calhar - em "Tintin no Tibet", o episódio o mais pungente, o mais pessoal e o mais realizado em termos estéticos na obra de Hergé.

Após ter ficado por muito tempo convencido de ser apenas um artista menor, o desenhista chegou a se queixar muitas vezes. Ele deplorava os limites do seu exercício, como se as vinhetas dentro das quais os seus personagens evoluíam constituíssem um quadro por demais exíguo, tanto para eles quanto para o seu criador. "Eu sei que valho muito mais do que o que faço atualmente; e pretendo alcançar esse aprimoramento algum dia", escreveu Hergé para um dos seus amigos em 1948.

Perseguido pela depressão, tentado pelo exílio, ele sonhava então com a pintura. Mas a sua experiência neste campo - ele realizou 37 quadros abstratos dos quais já foi dito que eles são marcados pela influência de Miró e de Lichtenstein, mas que nunca foram expostos - o decepcionou.

Sem dúvida fazendo das tripas coração, foi assim que Hergé optou por se dedicar plenamente às histórias em quadrinhos, uma arte da qual ele revolucionou os usos e os códigos, sem nunca ter premeditado isso.

A sua proeza consistiu em fazer entrar nos seus quadrinhos bem mais do que uma coleção de personagens às voltas com a aventura, ou seja, um universo coerente, tanto pelo traço quanto pelo espírito, no qual pode ser encontrado muito dele mesmo. É por isso, sem dúvida, que ele construiu em torno de Tintin muito mais do que uma obra: uma obra-prima.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

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