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09/02/2007
Em Miami, a transição cubana também já começou

Nicolas Bourcier
enviado especial a Miami


"Fidel já morreu, ou então é para logo, o resto é bobagem." Pedro fala alto, com seu porte avantajado e um gosto pronunciado pelos cigarros americanos.

Como praticamente todas as noites, esse banqueiro que está perto de se aposentar senta-se ali, diante do Café Versailles, um dos melhores restaurantes cubanos da Calle Ocho, a 8th Street, eixo principal do bairro Little Havana em Miami. Um ponto de encontro inevitável para os "velhos" como ele, os cubanos no exílio que fugiram da revolução castrista de 1959 e que hoje dão a impressão de ter vivido somente na esperança de saborear esse momento histórico.

AFP - 01.ago.06 
Cubanos exilados em Miami foram ás ruas para festejar o grave estado de saúde de Fidel

Pedro lembra-se da festa, nesse mesmo lugar, na noite de 31 de julho de 2006 depois do anúncio dos problemas de saúde do líder cubano. Eram muitos, segundo ele, que vieram espontaneamente à rua para deixar explodir sua alegria. Desde então Pedro aguarda, apenas contrariado pela evolução em Havana, onde Raúl Castro se instalou na poltrona de seu irmão há seis meses.

"Ele não vai agüentar, é fraco demais. Vai haver levantes e nós os ajudaremos." Ao redor dele, o pequeno grupo de homens concorda educadamente com o chefe. "Nós" são os anticastristas da linha-dura, a extrema-direita cubano-americana sempre pronta a imaginar uma intervenção na ilha para derrubar o regime odiado.

"Washington nunca fez nada contra os irmãos Castro", ele diz. Como prova, cita Luis Posada Carriles, o ex-agente da CIA que está sendo julgado no Texas, acusado de ser o inspirador de um atentado em 1976 contra um avião cubano que provocou a morte de 73 pessoas. "Um herói, e também um amigo, que conheci na América Central...", afirma Pedro. Diante do restaurante, os olhares tornam-se indecisos. Quinze dias atrás, havia apenas uma centena de manifestantes a favor de sua libertação na Calle Ocho. Não é grande coisa, comparados aos 700 mil cubanos de Miami. Um punhado de estudantes chegou a contestar a marcha nesse santuário do anticastrismo aos gritos de "Posada terrorista!" Coisa nunca vista.

"A comunidade cubana muda muito depressa", explica Carlos Saladriga, influente homem de negócios cubano-americano estabelecido na cidade. "Mais da metade dela é composta de cubanos que chegaram depois dos anos 80, a maior parte dos quais conserva laços estreitos com suas famílias que ficaram na ilha." Muitas pesquisas feitas nos últimos anos pelo Grupo de Estudos Cubanos, que ele dirige, mostram que a maioria dos imigrantes se manifesta a favor de uma mudança pacífica em Havana. "A nova geração é menos politizada", ele explica, "mais calma também, com a idéia de que cerca de meio século de anticastrismo virulento e de isolacionismo não deram resultados."

Hoje favorável ao início de negociações graduais com Cuba, esse antigo partidário da linha-dura lembra que uma pesquisa da Universidade Internacional da Flórida, publicada pouco antes do anúncio da operação de Fidel Castro, situou Cuba em oitavo lugar entre os interesses da comunidade.

Uma ilustração, segundo Saladrigas, da normalização dos comportamentos e de uma maior integração dos exilados cubanos na sociedade norte-americana. "A ilha nunca foi prioridade da política americana, exceto durante a crise dos mísseis em 1962", quase lamentava Jaime Suchlicki, cubano exilado desde 1970. Professor na chefia do Instituto de Estudos Cubanos e Cubano-Americanos de Miami, esse republicano "convicto, mas realista", como ele se define, admite que a população originária da ilha está dividida.

Segundo ele, não passam de 60% os que apóiam o embargo americano oficialmente em vigor desde 1962, mas seriamente abalado desde a autorização em 2001 para a exportação de produtos agrícolas para Cuba por motivos humanitários. "O embargo é uma ferramenta de negociação e, portanto, não pode ser abandonado gratuitamente. Veja o exemplo do turismo que floresce na ilha: ele contribuiu com alguma parcela de democracia?" E então? "Então, que a gente seja gentil ou malvado, não muda nada na política deles!", ele admite, desanimado.

Por enquanto esse especialista, que a mídia do mundo inteiro consulta a cada tropeço do regime, prevê uma sucessão cubana calma, mas uma transição longa e difícil: "O país não está à beira do colapso como estava a Alemanha Oriental em 1989. Quando ocorrer a morte de Fidel, Miami terá dois dias de festa antes de despertar de ressaca!" Uma eventualidade que não parece perturbar a municipalidade. Em 1º de fevereiro, um dia depois da breve aparição na televisão de Fidel Castro ao lado do presidente venezuelano, Hugo Chávez, as autoridades da cidade anunciaram a abertura ao público do gigantesco estádio Orange Bowl quando vier o anúncio oficial da morte do líder cubano.

Adolfo Jimenez não diz o que pretende fazer quando a notícia chegar. "Pode parecer obsceno se regozijar com a morte de alguém", ele reconhece, antes de acrescentar: "Mas não esqueça o sofrimento dos exilados. Ninguém escolheu vir para cá". Quarentão, Jimenez é uma das novas figuras da Fundação Nacional Cubano-Americana (FNCA), a mais poderosa organização do exílio, criada no início da era Reagan.

Advogado conhecido de um escritório situado a dois passos da Calle Ocho, ele poderia ser o reflexo dessas mudanças que irrigam a comunidade. Definindo-se como um "moderado" na FNCA, sempre qualificada de "máfia" e "fundação terrorista" pelos órgãos oficiais de Havana, lembra que os mais radicais fecharam a porta do movimento em 2001.

Na opinião dele, o embargo, que há muito tempo é um dos principais cavalos de batalha da organização, continua certamente "necessário, mas deve ser redefinido". Ele mesmo, assim como os outros membros da FNCA, segundo Jimenez, pretende privilegiar o apoio financeiro à dissidência, reconhecendo que hoje a solução deve vir da própria ilha.

"Queremos uma mudança radical do regime", afirma. "Imaginar um retorno dos exilados, que vão recuperar seus bens e suas terras, é uma piada!" Segundo ele, só 10% dos cubano-americanos que vivem nos EUA desejariam voltar definitivamente a Cuba um dia.

Outro sinal de evolução, a FNCA acaba de dar seu apoio, junto com cerca de 20 organizações de exilados, reunidas na coalizão Consenso Cubano, a um texto condenando as restrições que afetam as viagens a Cuba. Essa reunião heterogênea exige a suspensão das medidas adotadas por Washington, principalmente desde 2004, e que dificultam o envio de recursos às famílias cubanas.

Ninoska Perez Castellon não mudou. Dissidente da FNCA e filha de um coronel do ditador Fulgencio Batista ela continua convencida dos benefícios do embargo e das sanções impostas a Cuba. "Elas foram mantidas contra a África do Sul no tempo do apartheid", explica.

Sentada confortavelmente em um grande sofá nos estúdios da Rádio Mambi, principal estação privada dos exilados cubanos, que ela dirige, Ninoska Perez Castellon diz que se preocupa ao ver certos países, especialmente europeus, aceitarem Raúl Castro na chefia da ilha.

Na origem do Conselho para a Liberdade de Cuba (CLC), um grupo de pressão que mantém relações estreitas com o senador republicano Mel Martinez e os três representantes republicanos de origem cubana (Ileana Ros-Lehtinen e os irmãos Lincoln e Mario Diaz-Balart), cuja influência não parou de crescer durante o governo Bush, ela está convencida de que não há nenhum reformador na hierarquia cubana. Na dissidência, ela só cita um nome: Oscar Elias Biscet, o médico preso porque defendeu os direitos humanos e se opôs aos abortos praticados nos hospitais cubanos.

Atrás dela, sobre uma das portas da rádio, também próxima ao Café Versailles, estão afixados recortes da imprensa: primeiras páginas de jornais de 30 de dezembro de 2006, com o retrato de Saddam Hussein no dia de seu enforcamento.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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