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27/02/2007
As trajetórias complexas e imprevisíveis do vírus H5N1

Stéphane Foucart

Desta vez, o cenário é britânico. No decorrer dos dias que se seguiram ao surgimento, em 3 de fevereiro, do vírus H5N1 na criação de perus do grupo Bernard Matthews, no Suffolk (Reino Unido), as autoridades sanitárias divulgaram espontaneamente relatórios que seguiram um roteiro combinado de antemão. "A primeira pista mencionada foi aquela de uma transmissão pela fauna selvagem, sem que se dispusesse de qualquer elemento de informação concreto", constata François Moutou, um veterinário e epidemiologista da Agência Francesa de Segurança Sanitária dos Alimentos (Afssa).

Em 5 de fevereiro, o ministro britânico do meio-ambiente, David Miliband, declara que não existe "nenhum tipo de relação" entre o foco do Suffolk e aqueles que foram detectados, nos dias 19 e 25 de janeiro, em duas criações de gansos húngaras.

Desde então, a genética desmentiu esta versão. As cepas virais que foram encontradas nos dois países coincidem entre elas, numa proporção de 99,96%. Trata-se de características quase idênticas que excluem uma transferência do vírus por um pássaro migrador. Mais importante ainda, o inquérito sanitário evidencia importações de carne de peru húngara em grandes quantidades: 256 toneladas entre os dias 1º de janeiro e 2 de fevereiro, destinadas a ser tratadas na usina de corte contígua à criação britânica. Esta é uma das chaves da contaminação da criação de Bernard Matthews: no mesmo local estão instalados uma criação de 160.000 perus, um matadouro e uma usina de corte.

Mas, na hipótese em que esta tenha sido efetivamente a primeira a ser infectada por carne húngara, "isso não explica com precisão como o vírus acabou contaminando a criação", diz François Moutou. Responder a esta pergunta é tanto mais difícil que o vírus apareceu em quatro hangares distintos e separados. Apesar de tudo, os investigadores britânicos têm uma pista: gaivotas podem ter voltado às vistas para as sobras da usina de corte e tê-las disseminado pelo conjunto da área. No caso, empregados poderiam ter introduzido acidentalmente, caminhando com calçados sujos, elementos infectados nos hangares.

Por mais que esta explicação corresponda ao que aconteceu de fato, nem todas as perguntas encontrariam resposta com a sua comprovação. Segundo as informações que foram fornecidas ao Reino Unido pelas autoridades sanitárias húngaras, as remessas importadas provinham exclusivamente de dois matadouros, situados respectivamente a 260 km e 50 km da cidade de Szentes, onde foram localizados os dois focos húngaros em janeiro. Ou seja, fora da zona de vigilância de 10 km que foi estabelecida em volta das fazendas atingidas. Portanto, nenhuma falha de segurança poderia ser deplorada.

Mas, dentre os gansos doentes que foram identificados em Szentes, será que alguns teriam permanecido assintomáticos por um tempo longo o suficiente para que eles fossem encaminhados até um desses dois matadouros, desencadeando com isso uma seqüência de contaminações que seguiu caminho até o Suffolk? Ninguém sabe.

No entanto, o transporte de animais, vivos ou não, não é o único vetor possível do vírus. "Os riscos são inúmeros e dizem respeito também aos transportes de ovos, de pintos, e às trocas de equipamentos tais como as gaiolas, os bebedouros e as manjedouras", explica Abdenour Benmansour, um responsável da unidade de virologia e imunologia moleculares do Instituto Nacional da Pesquisa Agronômica (Inra). "Além disso, mesmo se ele teme o calor e a liofilização (desidratação), o vírus pode subsistir por vários meses em materiais inertes, bastando para tanto que ele seja protegido por matérias orgânicas".

Antes que os dois focos de Szentes fossem detectados, no final de janeiro, a última aparição do vírus na Hungria (e na Europa como um todo) remontava a junho de 2006. Entre o vírus da primavera passada e aquele que surgiu muito recentemente, a homologia é forte: os dois variantes são idênticos numa proporção de 99,4%, segundo as informações da Organização Mundial da Saúde Animal (OIE). Isso sugere que o vírus subsistiu nesta parte da Europa durante mais de seis meses até ressurgir. E que, nesse meio-tempo, ele na verdade não chegou a ser importado mais uma vez da Ásia.

Então, como será que ele sobreviveu por tanto tempo naquele meio? Várias organizações, dentre as quais a associação Birdlife, sugeriram um vínculo possível com as lagoas de aqüicultura, que são "fertilizadas" pelos excrementos de aves. Esta prática tradicional, originária da China meridional, é também empregada na Europa do Leste. Ela permite aumentar a atividade biológica das lagoas e aumenta os rendimentos das criações de piscicultura. O risco é de espalhar os efluentes de criações atingidas pelo vírus aviário. "Na água fria, o vírus pode subsistir por dois a três meses", confirma Abdenour Benmansour. "Toda dispersão das emanações de criações contaminadas é extremamente perigosa". Em particular, ela poderia contribuir para infectar a fauna selvagem.

Uma outra hipótese também está sendo considerada: o vírus poderia circular em meio a espécies selvagens - migradoras ou locais - que não manifestariam nenhum sintoma. Esporadicamente, contatos desses portadores saudáveis com as aves domésticas poderiam ocasionar surtos epizoóticos (de gripe aviária) nas criações. "Mas, até agora, não foi encontrada nenhuma prova da existência de tal "reservatório" da cepa patogênica", precisa, entretanto, François Moutou. "Mesmo se a fauna, em certos casos, pode desempenhar um papel neste processo, nós temos antes o sentimento de que a parte mais importante do que está acontecendo atualmente é ligada à multiplicação rápida do vírus nas criações e, em particular, nas grandes criações, que lhe conferem um potencial multiplicador enorme".

Até agora, as organizações internacionais encarregadas da luta contra a epizootia, ao contrário, se mostraram mais propensas a apontar a "culpa" dos pássaros selvagens e, em particular, dos grandes migradores. A situação que prevalece desde o início do inverno de 2006-2007 alterou os dados. Casos reapareceram em criações na Ásia, na África e, mais recentemente, na Rússia, sem que nenhuma mortalidade causada pelo H5N1 tivesse sido constatada entre os migradores.

"No inverno passado, os pesquisadores estavam mais propensos a afirmar que a fauna selvagem é responsável pela difusão do vírus por novos territórios, mas nós talvez tenhamos exagerado o seu papel", diz Samuel Jutzi, diretor da divisão para a saúde e produção animal na Organização das Nações Unidas para a agricultura e alimentação (FAO). As autoridades sanitárias russas, que vêm enfrentando desde 17 de fevereiro um retorno da epizootia, procuram, elas também, outros vetores possíveis do vírus. Nesse sentido, elas declararam suspeitar dos tráficos de pássaros exóticos, cuja exposição, no mercado dos pássaros de Moscou, poderia ter favorecido a transmissão da doença para aves de criação.

Países que aplicam medidas estritas de polícia sanitária e que exercem um controle rígido sobre as suas importações também conheceram no decorrer dos últimos meses um retorno do vírus. "A influência dos pássaros selvagens é possível, mas o mercado das aves de criação é um dos mais globalizados", comenta Samuel Jutzi. "O trânsito de animais ou de produtos animais é tão intensivo que não se pode excluir que, até mesmo na Coréia do Sul e no Japão, os focos que apareceram recentemente sejam relacionados ao comércio internacional". O caso da criação de Bernard Matthews, portanto, não seria uma exceção.

Um mutante perpétuo

Para o grande público, ele não mudou de nome. Mas, para os virologistas, o vírus de tipo A e de subtipo H5N1 que está circulando atualmente é muito diferente daquele que apareceu brevemente em 1997 numa criação de Hong-Kong. Ele continua sendo um vírus aviário, incapaz de se transmitir de homem para homem, mas nem por isso ele deixa de sofrer, de modo permanente, inúmeras mutações.

"Atualmente, a cepa de Qinghai, que parece ser predominante e que é encontrada mais ou menos em todos os focos, sofreu mutações bastante preocupantes", diz Abdenour Benmansour, o responsável da unidade de virologia e de imunologia moleculares no Instituto Nacional da Pesquisa Agronômica (Inra). "Por exemplo, uma das proteínas do vírus, que serve para a sua replicação, adaptou-se à temperatura do corpo humano, que é inferior em vários graus àquela das aves".

Vias de humanização

Os cientistas observam também mutações nos genes codificadores para as proteínas que permitem que o agente patogênico possa "se agarrar" às células do hóspede, que ele seja uma ave ou um humano. Além disso, certas cepas virais apresentaram mutações que conferem ao vírus uma resistência ao Tamiflu (a vacina mais conhecida contra a contaminação de humanos pela gripe aviária).

Uma das vias de humanização possível do H5N1 é uma "mistura" genética com um vírus gripal humano. "Em relação a esta eventualidade, as indicações são antes tranqüilizadoras", diz Benmansour. "Pesquisadores americanos tentaram reproduzir em laboratório este processo de 'reprogramação' e só obtiveram cepas nitidamente menos patogênicas do que o H5N1". O qual, na sua forma atual, apresenta uma taxa de letalidade no homem de cerca de 50%.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

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