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23/05/2007
A Nova Caledônia doente da poeira de amianto

Claudine Wéry
Correspondente em Nouméa


Níquel, cromo, cobalto... Calhau, como é chamada familiarmente a região da Nova Caledônia, é um verdadeiro eldorado mineiro. Mas, sendo este o reverso da medalha, ele também contém amianto. Onde? Em qual proporção? De qual tipo?

Já faz dois anos, uma vasta perícia vem sendo conduzida, encomendada e financiada pelo governo local, com o objetivo de identificar as zonas potencialmente perigosas. A meta principal, conforme recomendou em fevereiro de 2006 a missão de informação sobre os riscos e as conseqüências da exposição ao amianto, enviada pela Assembléia Nacional, é "de pôr fim às incertezas em relação à situação na Nova Caledônia", as quais são inúmeras.

"Estamos investigando; temos progredido um pouco às cegas, mas nós já sabemos que vai ser difícil determinar um quadro de risco zero, tendo em vista a história geológica do país", reconhece Caroline Fuentes, encarregada das questões de saúde e do meio-ambiente na Diretoria dos assuntos sanitários e sociais.

No início de maio, uma missão de especialistas enviados pela metrópole, na qual estavam associados o BRGM (Bureau de pesquisas geológicas e mineiras), o LEPI (Laboratório de estudos das partículas inaladas) e o Inserm (Instituto francês da saúde e de pesquisas médicas), compareceu na região para validar os primeiros estudos das equipes locais e ajudar na definição de protocolos para minimizar os riscos.

"Trata-se de um assunto bastante difícil, pois este tipo de configuração geológica é relativamente raro na França, exceto na Córsega", reconhece Bernard Robineau, do serviço de geologia.

Mas os números falam mais alto. Na Nova Caledônia, com os seus 240.000 habitantes, a incidência do mesotelioma, um tumor maligno da pleura causado pelo amianto, é trinta vezes superior à média mundial, enquanto os cânceres pulmonares são anormalmente elevados. Neste território francês, onde, além do mais, o Fundo de indenização das vítimas do amianto (Fiva), ativo na metrópole, até hoje não foi tornado aplicável, o amianto, segundo as fontes, causa entre 16 e 30 mortes anualmente.

O risco é 16 vezes mais elevado entre os melanesianos do que entre os europeus. E não é por menos. A primeiríssima vez em que foram identificados os riscos do amianto na Nova Caledônia data de 1994, quando o Inserm recomendou a utilização de um ocre esbranquiçado para untar as cabanas das tribos canaques, o "Pó", confeccionado a partir de uma rocha friável: a tremolita.

É a administração colonial que, na origem, havia recomendado aos canaques "embranquecer" as suas habitações, de modo a conferir um aspecto mais limpo às tribos. Da família dos anfibólios, a tremolita, cujas fibras são particularmente compridas, é a forma de amianto a mais perigosa. Na época, análises haviam revelado, durante as atividades domésticas, a existência de concentrações que chegavam a ser superiores a 7.000 fibras por litro de ar, enquanto o valor limite tolerável nas construções é de cinco fibras.

Mas, apesar desta grande faxina, as dúvidas persistiram. O presidente da Adeva-NC (Associação de defesa das vítimas do amianto), André Fabre, afirma que os grupos de estudos "se polarizaram inicialmente na tremolita para não prejudicar a indústria do níquel", que é o principal pilar da economia local.

Geologicamente indissociável do níquel, o amianto está de fato presente sob forma de crisotila, um silicato de magnésio fibroso menos perigoso do que a tremolita, na base dos maciços montanhosos. Entretanto, medidas preventivas têm sido aplicadas já faz alguns anos pelas indústrias. Segundo o Serviço das Minas, que reconhece ainda assim que "a colocação de uma cobertura de betume sobre as pistas seria a melhor solução", os levantamentos que foram efetuados nas minas em fase de exploração apontaram teores "amplamente aquém" das normas regulamentares.

Segundo os primeiros resultados obtidos a partir do mapeamento em fase de realização, é a tremolita que permanece o principal perigo. Isso porque, enquanto as cabanas untadas com Pó foram praticamente erradicadas, os afloramentos, por sua vez, seguem presentes efetivamente na natureza. Uma geógrafa da saúde, Marianne Houchot trabalhou no vale da Hienghène (nordeste), onde estão instaladas pequenas tribos canaques. Ali, crianças brincam sobre solos tremolíticos, e habitações estão totalmente empoeiradas, enquanto obras foram realizadas sem precaução alguma.

Sobre plaquetas de "teste", não menos de 3.000 fibras por cm2 foram encontradas no interior de uma casa, depois de um mês de exposição. Além disso, este número alcança 50.000 no material colhido numa pista que conduz até a tribo de Tiendanite.

Numa primeira etapa, as autoridades vão recomendar às populações expostas que medidas de precaução sejam tomadas no sentido de limitar a dispersão das fibras (rega, vegetalização, isolamento...), enquanto o parecer de um geólogo será tornado obrigatório antes do início de toda obra financiada por fundos públicos. No que diz respeito aos cerca de 5.000 km de pistas cobertas por rochas perigosas, aquelas que atravessam zonas habitadas deverão ser recobertas. Um mal menor.

Léxico

Amianto: designa rochas metamórficas naturalmente fibrosas cujas propriedades físico-químicas são utilizadas para fins de isolação, e na fabricação das juntas e das guarnições de fricção.

Crisotila ou "amianto branco": do grupo das serpentinas, ela é supostamente o tipo de amianto o menos perigoso. Mas ela foi classificada como cancerígena, na França, desde 1977, e proibida a partir de 1997.

Anfibólios: eles também proibidos. Esta categoria de minérios inclui rochas contêm amiantos tais como o amianto azul ou crocidolita, o amianto pardo ou amosita, a tremolita, a actinolita e a antofilita.

Mesotelioma: forma rara e virulenta de câncer que atinge os pulmões, a cavidade abdominal ou o envelope do coração, causado especificamente pela exposição ao amianto. Ele pode aparecer de 20 a 50 anos depois da inalação das fibras. O amianto pode também engendrar o câncer do pulmão, a asbestose (fibrose pulmonar), assim como placas, espessamentos e efusões pleurais. Cerca de 125 milhões de pessoas estão expostas ao amianto profissionalmente, e 90.000 morrem anualmente em decorrência da sua inalação.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

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