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26/01/2008
Greve em Hollywood está de olho no destino das transmissões na Internet

Yves Eudes
Enviado especial a Los Angeles


Studio City, Los Angeles, 6h da manhã. Assim como vem fazendo diariamente, um grupo de militantes da Writers Guild of America (WGA, o sindicato dos autores e roteiristas de cinema e de televisão) instala o piquete de greve na frente da entrada dos estúdios do canal de televisão CBS. Apesar do vento frio do amanhecer, o ambiente é excelente. Eles trouxeram bules de café, hambúrgueres. Durante a parte da manhã, cerca de sessenta colegas de profissão virão se juntar a eles. Os "strike captains" (chefes do piquete de greve) implantaram um sistema muito eficiente: cada militante deve montar a guarda erguendo um cartaz durante três horas seguidas.

Esta cena vai se repetindo numa dezena de lugares em toda a cidade de Los Angeles, na frente dos estúdios da Disney, Fox, ABC, NBC, Warner, Paramount... A WGA da Costa Oeste conseguiu impor uma disciplina estrita aos seus 7.000 membros. Se um autor tentasse acabar com a greve, ele seria excluído para o restante da sua vida e arriscaria perder as vantagens garantidas pelas convenções coletivas, isso porque a WGA administra as caixas de seguro-doença e de aposentaria dos autores.

O conflito entre a diretoria da WGA e os grandes estúdios, reunidos no quadro da associação AMPTP (Aliança dos Produtores de Cinema e de Televisão), já dura doze semanas. É uma briga complicada, mas, para os militantes de base, ela diz respeito acima de tudo aos "novos veículos de comunicação", isto é, à Internet. A WGA exige que o sistema dos "residuals", os royalties suplementares que os autores recebem toda vez que uma obra de ficção é reprisada na televisão, seja aplicado da mesma forma para as transmissões na Internet. Ela reclama também que os autores que trabalhem em ficções destinadas exclusivamente à Internet possam beneficiar das mesmas convenções coletivas e das mesmas vantagens sociais que se eles trabalhassem para a televisão.

Valerie Macon/AFP - 12.dez.2007 
Atriz Kimberly Elise participa de piquete dos roteiristas diante dos estúdios da Paramount

Aliás, alguns grandes estúdios de Hollywood já começaram a difundir na Internet séries e filmes, seja gratuitamente em sites financiados pela propaganda, seja sob forma de downloads pagos. Nancy De Los Santos, que é membro do comitê diretor da WGA em Los Angeles, está convencida de que os autores estão lutando pela sua sobrevivência: "Uma temporada inteira da série "Lost" está disponível, em tela cheia, no site da ABC. Em breve, as transmissões deixarão de existir na televisão, e todas elas migrarão para a Internet. Além disso, dentro de quinze anos, a Internet terá provavelmente absorvido a televisão. Se as nossas convenções coletivas não forem aplicadas à Internet, nós teremos perdido todas as vantagens que foram obtidas ao longo de décadas de lutas sindicais".

Desde o primeiro dia
Depois de dois meses e meio de inatividade, os pequenos autores pouco conhecidos estão numa situação crítica. Don e Cindy Hewitt, um casal que trabalha em equipe, venderam vários roteiros ao longo dos últimos anos e acreditavam que a sua carreira estava bem encaminhada. Eles compraram um apartamento a crédito e acabam de ter um bebê. Mas a greve, que eles apóiam sem restrição, está prestes a empurrá-los rumo à precariedade. "Há dois anos, nós passamos a trabalhar em filmes de animação", dizem. "Com isso, nós não pudemos mais continuar sendo membros da WGA e, durante um ano, não pudemos contar com a cobertura social. Então, conseguimos vender um projeto de longa-metragem, o que nos permitiu recuperar o seguro-doença, mas, por causa da greve, nós vamos perdê-lo novamente, porque o número de contratos vai se reduzindo, e nós não estamos prestando serviços em quantidade suficiente. Para reembolsar o nosso empréstimo imobiliário, nós estamos recorrendo ao nosso fundo de aposentadoria. Em breve, não teremos mais nada".

Cindy Hewitt já está prevendo que ela será obrigada a revender o seu belo apartamento. Mas, para ela, está fora de cogitação entregar os pontos: "Se optarmos por aceitar fazer alguns 'bicos' para pagar as contas, nós não teremos mais forças para trabalhar em nossos projetos, e acabaremos sendo derrotados em todos os quesitos. Esta greve precisa ser ganha, e rápido". Os pequenos autores ainda conservam as suas esperanças, isso porque eles vêm sendo apoiados ativamente pelos seus colegas mais ricos. Shawn Ryan, o criador de "The Shield" e "The Unit", duas séries de orçamento elevado que foram produzidas pela Fox, está muito envolvido neste combate. Ele é roteirista e produtor executivo, o que faz dele o verdadeiro patrão das suas produções. Apesar do dinheiro e do status que possui, ele vem participando da greve desde o primeiro dia, impedindo a conclusão das filmagens da nova temporada de "The Shield". Recentemente, ele tomou a frente de uma manifestação "selvagem" que visava a perturbar a filmagem em externas de um filme de grande orçamento, cuja produção vem prosseguindo apesar da greve. "Eu gritei tanto que acabei ficando sem voz", conta Shawn Ryan. "Nós conseguimos atrasar as filmagens e causar sérios problemas para o engenheiro do som".

Exércitos de advogados cinzentos
Fox aceitava que Shawn Ryan fizesse a greve na qualidade de autor, mas queria obrigá-lo a prosseguir o seu trabalho de produtor: "Na prática, isso não fazia sentido algum e recusei. Então, eles anunciaram que eu havia violado o meu contrato e estão me ameaçando com um processo. Nós vamos também lutar para que não ocorram represálias depois do término da greve, quando recomeçaremos a trabalhar". Shawn Ryan foi escolhido para integrar a delegação encarregada de retomar as negociações com a AMPTP.

A Internet, que é a causa principal do conflito, também acabou se revelando uma plataforma para enfrentamentos entre os dois campos. A AMPTP criou sites na Web muito ofensivos para com os grevistas, nos quais os roteiristas são descritos como privilegiados birrentos, que não hesitam a empurrar todo mundo rumo ao desemprego, movidos pela ganância. Do outro lado, grupos de roteiristas e de atores puseram para circular na Internet vídeos humorísticos nos quais são ridicularizados os riquíssimos patrões dos estúdios e os seus exércitos de advogados cinzentos.

A WGA conseguiu assinar acordos individuais com algumas produtoras independentes, entre outras a United Artists, que aceitou todas as suas condições. Por sua vez, os grandes estúdios começaram a demitir em massa, começando pelos empregados subalternos, os motoristas, os cozinheiros, os vigias, que são as vítimas silenciosas desta crise. Em breve, chegará a vez dos artistas gráficos, montadores, figurinistas, decoradores, maquiadores, etc. Alguns técnicos já começaram a acusar abertamente a WGA de se mostrar intransigente demais e insensível aos danos colaterais que o movimento está provocando.

Recentemente, as emissoras de televisão começaram a modificar a sua programação. As séries de ficção que foram interrompidas, vão ser substituídas por jogos televisivos e, principalmente, por programas de reality show, o único setor que está se aproveitando da crise.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

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