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25/02/2008
O legítimo lenço palestino está com os dias contados

Benjamin Barthe
Enviado especial a Hebron


Vestido com um robe, em um passo lento e arqueado, Yasser Hirbawi vistoria os teares alinhados no ateliê que ele dirige há 45 anos na parte alta de Hebron, no sul da Cisjordânia. Das quinze máquinas que importou do Japão no começo dos anos 60, somente quatro estão em atividade.

O movimento intermitente dos teares desenhava com um ruído mecânico o xadrez branco e preto do "keffieh", o lenço tradicionalmente usado pelos palestinos, e do qual o velho homem é o último produtor nos territórios ocupados. As outras máquinas pararam há cinco anos, por falta de pedidos. "A concorrência dos produtos têxteis chineses derrubou o meu negócio", suspira Yasser Hirbawi, de 78 anos.

Muhammad Hamed/Reuters - 26.jan.2008 
Palestinos usando keffieh participam de protesto em Amã, na Jordânia

Nos bons tempos, a fábrica da família Hirbawi produzia quase 150 mil unidades por ano. Uma atividade que foi fomentada pela irrupção na cena política dos guerrilheiros fedayins da Organização pela Libertação da Palestina (OLP), e de seu líder Yasser Arafat, cujo inseparável lenço tornou-se a assinatura do movimento nacional palestino. "Todos os jovens que atiraram pedras na primeira Intifada tinham que ter o rosto coberto de um keffieh", conta Yasser Hirbawi.

Nos anos 90, o boom do turismo na Terra Santa também engordou o livro de pedidos da tecelagem. A crise começou por volta dos anos 2000, com o crescimento acelerado da economia chinesa, a desregulação cada vez maior do comércio e o início da segunda Intifada. Mais caros do que os da concorrência, os keffieh "made in Palestina" também foram prejudicados pelos check-points do exército israelense que bloqueavam as entregas de encomendas.

"Todo o setor têxtil desmoronou no espaço de um ou dois anos, diz Tareq Souss, líder da Federação das Indústrias de Vestuário Palestinas. Nosso governo, que não tem nenhum controle sobre as fronteiras, foi incapaz de enfrentar o desembarque de produtos chineses."

As fábricas de keffieh em Hebron e Nablus pararam de funcionar. A tecelagem da família de Hirbawi funciona em marcha mais do que lenta, com apenas 15 mil peças por ano e um punhado de empregados. "Até mesmo os cachecóis com o rosto de Arafat e que traziam a inscrição 'Jerusalém é Nossa' distribuídos pela Fatah em seu aniversário no começo do ano, vieram da China", reclama Izzat Hirbawi, filho de Yasser.

Acessório da moda
A má sorte é ainda mais dolorosa porque o lenço palestino acabou virando um acessório de moda, reciclado num recente desfile da grife Balenciaga e exibido por celebridades como o ator Colin Farrell ou o jogador de futebol David Beckham.

Será que os 7 bilhões de dólares prometidos pela comunidade internacional durante a conferência de Paris no outono de 2007 poderão salvar a indústria têxtil palestina? Tareq Souss duvida. "Três quartos desse dinheiro são destinados a desencalhar o orçamento da Autoridade Palestina, diz ele. O objetivo da doação é manter o regime de Mahmoud Abbas de vento em popa e não recuperar a nossa economia."

Yasser Hirbawi, no entanto, quer guardar as esperanças. Ele acredita que, com um simples aumento das taxas sobre as importações, seu negócio poderia se renovar. Mas o olhar resignado de seu filho, que deveria lhe suceder, leva a crer que a última fábrica de keffieh palestina não sobreviverá a seu fundador.

Tradução: Eloise De Vylder

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