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28/02/2008
Diversidade linguística é símbolo da transformação da Espanha em terra de imigração

Marion Van Renterghem
Enviada especial a Salt, Catalunha


Na escola primária La Farga, em Salt, as reuniões de pais de alunos são complicadas de organizar. Neste subúrbio de Gerona, para onde segue um grande número de estrangeiros, a escola é freqüentada numa proporção de 80% por filhos de imigrantes (100% se forem incluídos os espanhóis não catalães). Os pais não falam espanhol, e sim outros idiomas, das proveniências mais diversas, como o árabe marroquino ou o berbere; uma das sete línguas da Gâmbia (bambara, wolof, fola, madega, sara...); o chinês; o urdu do Paquistão; o romeno; eventualmente o francês, ou, no melhor dos casos, o castelhano se eles são do Equador, da Bolívia ou de outras regiões da Espanha.

Os professores do curso primário, por sua vez, só se dirigem a eles em catalão. A lei é dura, mas é a lei: nos estabelecimentos públicos da região, o ensino é administrado exclusivamente em catalão (os alunos aprendem o castelhano como uma língua estrangeira). Então, durante essas reuniões, um pai marroquino tenta adivinhar algumas palavras de catalão, que ele traduz em francês para o seu vizinho senegalês. Este, por sua vez, as explica em bambara para a sua vizinha gambiana... "Tudo isso é bastante barulhento", reconhece a diretora da escola, Gemma Boix. "Em geral, essas reuniões se transformam em sessões de trocas de informações na linguagem dos signos, ou por meio de desenhos no quadro-negro".

Esta torre de Babel é representativa da Espanha de hoje: uma terra de emigração que se tornou de repente uma terra de imigração, no espaço de poucos anos e numa escala muito ampla. Os imigrantes ainda não passaram da primeira geração. Os marroquinos são em maior número, a frente dos romenos e dos equatorianos. Um país que esteve submetido à ditadura franquista até 1975, e que enfrentou dificuldades econômicas até a sua incorporação à União Européia, em 1986, a Espanha só começou a atrair a mão-de-obra estrangeira a partir dos anos 1990. Desde o início dos anos 2000, este fenômeno vem se ampliando de maneira espetacular: enquanto 794.000 estrangeiros viviam na Espanha em 2000, o seu número passou agora para 4,5 milhões, ou seja, 10% da população (13,5% na Catalunha). Esta experiência é tão nova quanto brutal. Ela surpreendeu os poderes públicos, que estavam despreparados.

"Tudo aconteceu muito rápido", conta a jovem prefeita de Salt, Iolanda Piñeda. Salt é uma pequena cidade de 29.000 habitantes, dos quais 30% são estrangeiros recenseados, de 75 nacionalidades diferentes, muito majoritariamente marroquinos. Eles trabalham no setor da construção civil, na agricultura, no comércio. Foram atraídos pelas necessidades de mão-de-obra em Gerona e pelos apartamentos de preços acessíveis em Salt, que em muitos casos eles conseguiram adquirir com ajuda de uma política de créditos com taxas reduzidas.

A prefeita desenrola um mapa da comuna. Salt se divide em três áreas: ao norte, fica a parte antiga da cidade, onde vivem os habitantes "antigos". No centro, predominam edifícios dos anos 1960 e 1970 que foram construídos para alojar os operários vindos da Andaluzia ou de Estremadura. Durante os anos 1990, "as pessoas que moravam no centro" se deslocaram rumo à parte nova da cidade, no sul, onde predominam pequenos prédios e espaços verdes. Nos edifícios do centro, que estão deteriorados, hoje se concentram os novos imigrantes.

Tanto os estrangeiros como os residentes locais tendem a viver separadamente. A escola La Farga, como os outros estabelecimentos públicos, se tornou um gueto para estrangeiros, enquanto os catalães preferem se reunir nas escolas privadas. "Os meus filhos não conhecem nenhum espanhol", lamenta Mustapha Ben Azzouz, um marroquino, que administra um açougue halal (em conformidade com as regras do Islã). A recente diminuição de ritmo da economia nacional e o aumento do desemprego, do qual os imigrantes são as principais vítimas, ainda não chegaram a atingir os habitantes de Salt. Além disso, a delinqüência não é significativa na cidade.

Contudo, pela primeira vez, em fevereiro, as associações de comerciantes e de vizinhos de Salt redigiram um manifesto onde denunciam "a invasão" dos estrangeiros, "a criação de dois mundos a parte, terrivelmente distantes um do outro", os comércios irregulares, o sentimento de insegurança. Desde 2000, na Espanha, apenas o Partido Popular fez da imigração um tema eleitoral. Os partidos de extrema-direita são quase-inexistentes, mas um mal-estar passou a predominar. A prefeita socialista de Salt declarou que a "coesão social" se tornou uma prioridade.

Na Catalunha, uma região que preza profundamente a sua singularidade "nacional", e cujo sucesso econômico conduziu a tornar-se a comunidade mais rica da Espanha em número de estrangeiros, a coesão começa pela língua. O governo da Catalunha está preparando uma "lei de atendimento dos imigrantes" que prevê obrigar as municipalidades a administrarem cursos voltados para o conhecimento da sociedade e da língua catalães. Oriol Amoros, o secretário para a imigração, insiste: "O catalão é a língua da mobilidade social. Aqui, falar nesta língua é um sinal de prestígio".

Em Salt, ninguém esperou pela lei. Os destinos misturados acabam se encontrando, à noite, na escola dos adultos para aprenderem o catalão, e acessoriamente o castelhano. Layla, uma jovem marroquina, já redigiu uma redação em catalão para celebrar os méritos "da igualdade entre homens e mulheres", contra as idéias da sua família. Ela também aprendeu o castelhano e irá estudar em Barcelona. Laminé, um senegalês em situação irregular, acaba de chegar de uma viagem de barco na qual arriscou a sua vida. Ele só fala o wolof. Felizmente para ele, ele começará em breve a assimilar o catalão.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

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