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05/03/2008
Os estragos que "Rambo" provocou em Mianmar

Sylvie Kauffmann

No campo da diplomacia cultural, expressão máxima do "soft power" (poder "suave"), é também possível existir uma opção "hard" (dura). O concerto que foi apresentado pela Orquestra Filarmônica de Nova York diante de uma platéia de norte-coreanos escolhidos a dedo, em 26 de fevereiro, em Pyongyang, por exemplo, pode ser classificado na categoria de "soft power". Em contrapartida, "Rambo" em Mianmar é puro "hard power". Quando um espetáculo alcança um ritmo de 2,59 mortos por minuto, segundo os cálculos de um espectador que recenseou 236 mortos no filme inteiro, estamos definitivamente muito distantes da abordagem gradativa.

Aliás, esta não é a única diferença entre Lorin Maazel, o diretor da orquestra, e Sylvester Stallone, o ator-realizador de músculos de aço. A turnê coreana da Filarmônica foi objeto de extensas e minuciosas negociações. Já, a irrupção do quarto "Rambo", na forma de uma enxurrada de DVDs piratas, nas telinhas de televisão birmanesas resulta, por sua vez, de uma invasão selvagem e ilegal, uma vez que a difusão deste filme, que estreou nos Estados Unidos no final de janeiro e em alguns países da Ásia no começo de fevereiro, foi proibida pelas autoridades birmanesas.

Divulgação 
Cena de Rambo 4, com Sylvester Stallone, que foi rodado na Tailândia com atores locais

E dá para entender por quê. Neste filme, o quarto do gênero, o antigo combatente do Vietnã, John Rambo, desfruta dias tranqüilos fazendo comercio de serpentes no norte da Tailândia, quando trabalhadores humanitários cristãos lhe pedem para ajudá-los a passarem para o lado de Mianmar, pelo rio fronteiriço. Uma grande quantidade de reviravoltas com alta dose de hemoglobina conduz o nosso herói a enfrentar o exército, sádico e corrupto, da ditadura birmanesa. Ele vence, com a ajuda de alguns mercenários e com o apoio precioso dos rebeldes karen, uma minoria étnica cristã perseguida por aqueles mesmos militares sádicos e corruptos.

Mal o filme havia estreado no circuito, o DVD pirata já estava à venda, por 80 bahts (cerca de R$ 5,00), nos barracos dos mercados de Chiang Mai e de outras cidades tailandesas situadas perto da fronteira. São cópias de uma qualidade bastante medíocre, mas pouco importa; nas salas de estar de Yangun onde elas não tardaram a aterrissar, ninguém iria se fazer de difícil. Os puristas, por sua vez, precisam ter paciência, caso eles tiverem motivação para tanto, e aguardar a estréia do filme na China, uma vez que os chineses pirateiam muito melhor.

Aos 60 anos, Stallone, que também escreveu o roteiro, quis se colocar a serviço de uma nobre causa, mas o resultado parece ter ido muito além das suas esperanças. "As pessoas dizem: 'não é de um Rambo apenas, é de um monte de Rambo que nós precisamos '", conta o professor Win Min, um universitário birmanês exilado em Chiang Mai. "O problema é que alguns acreditam que ele é real; e que, por tabela, a popularidade do filme alimenta a paranóia dos generais birmaneses que, esquecidos do que está acontecendo no Iraque, continuam atribuindo aos Estados Unidos os mais negros desígnios".

O impacto que Rambo exerce sobre uma população desesperada e sobre dirigentes isolados está deixando os especialistas mais sérios preocupados - este é o caso do professor David Steinberg, por exemplo, da universidade de Georgetown, no Estado de Washington, que se mostrou alarmado com o problema num artigo publicado na imprensa asiática. Denunciando esta simplificação desmedida de "relações étnicas e políticas complexas e históricas", David Steinberg enxerga em Rambo uma "versão apenas modernizada do conceito do fardo do homem branco, que remonta ao século 19: salvar os indígenas do jugo de outros indígenas malvados". Ele constata que a fantasmagoria de uma intervenção de países estrangeiros está se disseminando nos blogs birmaneses e teme que "o filme seja interpretado em Naypyidaw, a capital, como um sinal precursor do advento de uma nova aventura americana".

RAMBO ESTÁ DE VOLTA
Divulgação
Sylvester Stallone no papel de Rambo no quarto filme da série
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Sorrindo da sua ingenuidade passada, Win Min recorda-se de que, já naquela época, por ocasião da revolta estudantil de 1988 da qual ele participou antes de ser preso, "nós acreditávamos que os americanos estavam prestes a desembarcar para nos ajudar". Mas ninguém apareceu e a repressão foi terrível: 3.000 mortos. Atualmente, cerca de seis meses depois do grande movimento dos monges, que também foi reprimido, fica difícil dizer de onde poderia vir a esperança.

Após ter se submetido pacientemente às regras do jogo político; após ter se deixado levar da sua residência vigiada para participar de sessões de negociações, atendendo ao bem querer dos generais; para então ser trazida de volta para a sua casa-prisão sem ter obtido qualquer resultado, Aung San Suu Kyi, ícone da oposição e Prêmio Nobel da paz, chegou à conclusão de que tudo aquilo não passara de um simulacro de diálogo. "Esperem pelo melhor, mas se preparem para o pior", disse ela aos seus simpatizantes, em 30 de janeiro.

Dez dias mais tarde, a junta anunciou um referendo constitucional, a ser realizado em maio, numa data ainda desconhecida. Se o projeto de Constituição, que garante aos militares o controle do poder, for aprovado, então eleições serão organizadas em 2010 - sem a participação de Aung San Suu Kyi, desqualificada pelo seu casamento com um estrangeiro, o britânico Michael Aris, morto em 1999. Com isso, a junta opta por acabar com toda e qualquer perspectiva que poderia ajudar Ibrahim Gambari, o emissário do secretário-geral da ONU, que segue aguardando nos últimos dias a chegada de um visto, obtido graças às pressões de Pequim sobre a junta, para dar prosseguimento à sua missão em Mianmar. Mas, um visto para fazer o quê, se tudo já foi decidido?

Nos países vizinhos, predomina neste momento uma visão realista da situação. O novo governo tailandês acaba de explicar que os seus interesses econômicos (30% da eletricidade na Tailândia provêm de Mianmar) prevalecem sobre os direitos humanos. E tampouco existe qualquer motivo para comemorar do lado dos rebeldes karen: o assassinato, em 14 de fevereiro na fronteira tailandesa, do chefe da União Nacional Karen, Pado Manh Sha, foi um duro golpe. Já, para a oposição pró-democracia birmanesa, a eventualidade de se mobilizar tão rapidamente antes do referendo, no momento em que tantos dos seus militantes estão encarcerados e que os monges ainda estão disseminados, constitui um desafio e tanto.

Enquanto isso, as condições de vida em Mianmar não param de se deteriorar. Aung San Suu Kyi já avisou: "Preparem-se para o pior".

Tradução: Jean-Yves de Neufville

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