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15/05/2008
O sorriso de Isabella assombra o Brasil

Jean-Pierre Langellier

Uma boneca grande como uma criança está pendurada da janela de um edifício em São Paulo, na ponta de um fio mantido por um policial. Em uma sacada vizinha, outro policial filma a cena. Um pouco mais tarde, o pequeno manequim articulado se encontra sobre o gramado seis andares abaixo, no lugar exato onde a criança que ele representa, Isabella, 5 anos, caiu na noite de 29 de março, pouco antes de morrer.

No dia 27 de abril, domingo, milhões de brasileiros ficaram colados a seus televisores para acompanhar a reconstituição do drama. Ela duraria sete horas. A fim de poder trabalhar tranqüilamente, a polícia recorreu a grandes medidas. Cercou o quarteirão. Atiradores de elite vigiavam ao redor. O espaço aéreo foi interditado em um diâmetro de 3 quilômetros para impedir o vôo dos helicópteros da mídia. Barreiras de segurança mantiveram à distância uma centena de curiosos, alguns dos quais clamavam por vingança. Cerca de 20 membros de uma seita religiosa distribuíram folhetos ornados com a foto de Isabella e que condenavam seus assassinos à "justiça de Deus".

Pois trata-se de um assassinato, e sem dúvida o pior que se possa imaginar; segundo os investigadores, Isabella foi morta por seus pais. Sua madrasta, Anna Carolina Jatobá, 24 anos, a agrediu e estrangulou, e depois seu pai, Alexandre Nardoni, 29 anos, a atirou, ainda viva, do sexto andar.

Reprodução 
Isabella Nardoni, 5, morta em São Paulo, e sua mãe, Ana Carolina Oliveira

A notícias desse infanticídio provocou uma verdadeira comoção social em um país que bate recordes de violência, com 50 mil homicídios por ano. Há várias semanas o Brasil parece assombrado pelo sorriso de Isabella, como a Inglaterra foi há um ano pelo da pequena Madeleine McCann, desaparecida em Portugal sem que se tenha encontrado até hoje sua pista. O interesse do público por esse caso, e sua repulsa, não parou de crescer por um motivo simples: o casal clama sua inocência, apesar dos diversos indícios que os apontam como culpados.

É inútil entrar nos detalhes da investigação. Basta saber que na noite da morte de Isabella o casal chegou tarde em casa de carro, com a menina e seus dois meio-irmãos, muito pequenos. Na garagem, a madrasta agride Isabella. Dois vizinhos ouvem um dos meninos gritar: "Papai, papai, faça-a parar!" Segundo o relatório do Ministério Público, o pai é o primeiro a subir ao apartamento, levando nos braços a filha, sem dúvida inconsciente, e com um ferimento sangrando. Ao chegar a um quarto, ele corta com uma tesoura a rede de segurança da janela e atira a criança.

A versão do pai é inverossímil. Ele pretende que o crime foi cometido por um intruso que entrou no quarto de Isabella durante os poucos minutos em que ele teria voltado à garagem. Diversas testemunhas afirmam que o casal muitas vezes se mostrou brigão e violento. Anna Carolina tinha o hábito de gritar, xingar e atirar objetos pelo apartamento.

Se, além da negação declarada pelos acusados, esse fato sanguinolento provoca tanta emoção popular é primeiro porque seus protagonistas pertencem a uma família de classe média, com a qual muitos brasileiros podem facilmente se identificar. É também porque o respeito à presunção de inocência e a habilidade dos advogados do casal permitiram que ele continuasse em liberdade por seis semanas -antes de ser finalmente encarcerado em 8 de maio- e desse uma longa entrevista a um programa de televisão de grande audiência.

Aí está o último fermento da comoção pública. A mídia manteve um clima de frenesi em torno do acontecimento. Para cobri-lo, a Rede Globo, a mais poderosa do país, mobilizou permanentemente 15 equipes de repórteres e câmeras, três veículos de transmissão ao vivo e um helicóptero. O próprio presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, se preocupou com a midiatização, no seu entender excessiva. Pedindo prudência, Lula lamentou que o casal "tenha sido declarado culpado" antes de ser julgado.

No Brasil, segundo os números do Ministério da Saúde, uma criança de menos de 14 anos é assassinada a cada dez horas. Uma parte desses crimes ocorre no contexto familiar. Segundo estimativas do laboratório de estudos sobre a infância da Universidade de São Paulo (Lacri), menos de 10% dos casos de violência física e psicológica chegam ao conhecimento das autoridades.

O caso Isabella permite que os brasileiros reflitam sobre as causas dessa violência e os meios de reduzi-la. Além das considerações gerais (pobreza, falta de educação, distúrbios familiares), os especialistas do Lacri lembram que a violência contra as crianças faz parte da cultura brasileira. O castigo corporal continua sendo para muitos pais um método pedagógico eficaz e legítimo. A duração da escravidão no Brasil -mais de três séculos- e o caráter tardio de sua abolição (1888) influíram na persistência desse preconceito.

Hoje o esforço se concentra na prevenção. Um "número verde" permite que qualquer pessoa indique anonimamente por telefone as agressões contra crianças que tenha presenciado. Em 2007 foram recebidas cerca de 2 mil denúncias desse tipo. Em 29 de março vários vizinhos da família de Isabella ligaram para o número de emergência. Mas era tarde demais. A menina acabara de morrer.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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