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29/05/2008
O Brasil se reconcilia com os nikkei

Por Jean-Pierre Langellier

Ela tem 26 anos, medidas ideais e um sorriso encantador. A coroa que está sobre a sua cabeça combina às mil maravilhas com a sua pessoa. Nesta noite de 17 de maio, em São Paulo, Karina Eiko Nakahara acaba de ser eleita Miss Centenário Brasil-Japão.

Karina é uma "nikkei", uma brasileira de origem japonesa. Os nikkei formam uma comunidade de um milhão e meia de pessoas, ou seja, pouco menos de 1% da população total do país. É a mais numerosa diáspora japonesa em todo o mundo. Em 2008, o Brasil celebra com orgulho o centésimo aniversário da imigração japonesa.

Tudo começa em 18 de junho de 1908, quando o vapor Kasato Maru atraca no porto brasileiro de Santos. A seu bordo estão 781 imigrantes, membros de 165 famílias. A era Meiji promoveu uma abertura do Japão para a Europa e a América. Tóquio acabava de assinar um acordo de amizade e de comércio com o Brasil. A cooperação que se inicia naquela data corresponde a uma necessidade mútua.

O Japão, então em pleno processo de modernização, mas que está às voltas com uma superpopulação, vem enfrentando graves problemas sociais em suas campanhas. Os camponeses estão endividados e carecem de terras. Eles são incentivados a emigrar. O Brasil, por sua vez, está lidando com a falta de mão-de-obra, sobretudo nas plantações de café, o produto rei daquela época. A abolição tardia da escravidão (1888), à qual se seguiu a proibição, decretada pela Itália aos seus cidadãos, de embarcarem para o Brasil, onde eles são considerados como "agitados" demais, instauram uma nova situação que abre o caminho para os japoneses, que possuem a reputação de serem mais dóceis.

Os primeiros imigrantes se mostram profundamente decepcionados pelo que vêem. Eles haviam imaginado que fariam fortuna até o término do seu contrato - cujo prazo variava de um a quatro anos - e retornariam ao seu país em seguida. Mas, nada disso iria acontecer: o trabalho é extremamente penoso, os alojamentos são sórdidos, os salários irrisórios, enquanto as relações com os seus empregadores são quase sempre conflitantes. O choque cultural, e, entre outros, o estranhamento culinário, é rude.

Um ano depois da sua chegada ao Estado de São Paulo, três dentre quatro passageiros do primeiro navio já abandonaram a sua fazenda, fugindo na calada da noite. Alguns deles partiram pela estrada, tornando-se andarilhos e vendedores ambulantes, ou ainda, mais tarde, operários na construção das ferrovias. Os outros optaram por se instalar nas cidades, em primeiro lugar em São Paulo, onde eles se reagrupam numa área formada por algumas ruas que acabarão constituindo o bairro japonês, em volta da Praça da Liberdade.

Alguns desses imigrantes, ainda, que continuaram trabalhando como agricultores vivem enclausurados. Mais tarde, graças à ajuda do Japão, eles conseguirão comprar terras, implantar cooperativas, cultivar o arroz, o algodão, além de diversos tipos de legumes, e principalmente a pimenta-do-reino, esse "diamante negro" da Amazônia do qual o Brasil se tornará o maior produtor mundial.

A imigração japonesa no Brasil conhece o seu apogeu em 1933. É nesta época que Shunji Nishimura, que se tornaria um empreendedor destacado e bem-sucedido, e que hoje é um centenário, desembarca no porto de Santos. Este então rapaz alista-se para trabalhar numa plantação. Até hoje ele se recorda das suas mãos doloridas durante a colheita do café. Ele segue pulando de galho em galho, vivendo de trabalhos modestos e de bicos. Ele ganha pouco e os seus almoços se resumem a um pedaço de pão e uma banana. Em 1938, ele toma um trem com destino a São Paulo, só que ele resolve descer na última estação da linha, 500 km mais adiante. Ali, um barraco chama a sua atenção. Ele decide "viver ali mesmo". Na fachada, ele coloca uma placa com os dizeres: "Aqui, conserta-se de tudo". Graças ao seu gênio inventivo, ele se tornará um industrial próspero.

Os anos 1930 e 1940 constituem o pior período para os nikkei. As teses racistas que vigoram então na Europa contaminam o Brasil, aonde, num movimento que já vem acontecendo há várias décadas, intelectuais e homens políticos denunciam o "perigo amarelo" e argumentam em favor de um "embranquecimento" da população, evolução que eles consideram como uma passagem obrigatória rumo à civilização. A "nipofobia" conta com o apoio dos seus ideólogos, para os quais "o aborígine" japonês é tão "insolúvel quanto o enxofre".

A ascensão ao poder de Getúlio Vargas (1930), a instauração do Estado Novo (1937), nacionalista e ditatorial, e, durante a Segunda Guerra Mundial, a entrada em guerra do Brasil no campo dos futuros vencedores agravarão ainda mais a situação dos nikkei. A Constituição passa a determinar uma cota de imigração para eles. O Estado fecha as suas escolas, bane o uso da sua língua em público, confisca os bens das suas empresas, impõe a obrigatoriedade do uso de salvo-condutos para aqueles que quiserem se deslocar. Milhares de famílias são forçadas, sem qualquer aviso prévio, a evacuarem de São Paulo e do litoral. Embora eles sejam cidadãos brasileiros de pleno direito, alguns nikkei são tratados como prisioneiros de guerra, e até mesmo internados.

Atualmente, o Brasil, que há muito já se reconciliou com os seus nikkei, exalta as suas contribuições para o desenvolvimento da sociedade multicultural que hoje caracteriza o país. Tudo o que eles chegaram a introduzir no Brasil vem sendo objeto de celebração, dos sushis aos mangás, da ginástica à arte do buquê, dos tambores ao karaokê. O Japão está na moda. A imprensa de São Paulo lembra que os nikkei contribuíram para melhorar os hábitos alimentares locais, introduzindo ou popularizando o arroz, a soja e os legumes que eles mesmos faziam questão de consumir. A metrópole lhes deve o "cinturão verde" que a cerca.

Assim, há muito não se fala mais na "questão japonesa". Cerca de um nikkei em cada dois opta pelo casamento misto. Três nikkei em cada quatro se tornaram católicos. Mas, apesar deste intenso movimento de integração, não faltam as adolescentes e jovens mulheres nikkei de São Paulo que preferem, aos sábados à noite, freqüentar as "japotecas", onde os rapazes lhes dão mostras, dizem elas, "de mais respeito".

No decorrer dos anos 1980-1990, a esperança de uma vida melhor incentivou um bom número de nikkei a querer se mudar para a terra dos seus ancestrais. Dentre esses 250.000 "dekaseguis", alguns já tomaram o caminho de volta. Com uma boa formação no bolso, eles optaram por exercer a sua profissão no Brasil. Mas existem outros tipos de retornos ao Japão, bastante diferentes, tais como aqueles que efetuam anualmente, por razões médicas, os aposentados Shunji Mukai, 78 anos, e Nobuaki Honda, 72 anos. Os dois são sobreviventes. O primeiro de Hiroshima, o outro de Nagasaki.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

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