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19/07/2008
Na Venezuela, a música mostra o caminho

Jean-Pierre Langellier
Enviado especial a Caracas


Toda orgulhosa dos seus 7 anos de idade, Aireen dedica-se a fazer jorrarem as notas do seu violoncelo. De pé, com o olhar grudado na partitura, ela retoma incansavelmente um trecho do "Te Deum" de Charpentier (1643-1704). Amílcar, o seu jovem professor, a guia gentilmente: "Lá, sol, lá. Um, dois, três. (. . .) Recomeça. . . Concentre-se. . . Não pense em nada mais". O arco desliza de modo constante sobre as cordas, enchendo de harmonia a pequena sala sem janela onde Aireen, Miguel, Zacari e Rosa praticam o solfejo.

Numa grande sala vizinha, uma centena de crianças e de adolescentes, acompanhados por um pianista, canta com verve, sob os olhares de Beethoven, Liszt e Mendelssohn, cujos retratos gigantes adornam as paredes. Mais adiante, sob a direção de Alejandro, 21 anos, a orquestra em peso - uma centena de intérpretes - toca um concerto de Telemann (1681-1767), e, logo em seguida, "Alma Llanera", uma espécie de hino tradicional da Venezuela. Nesta tarde de junho, no bairro popular de Las Mayas, perto do Hipódromo de Caracas, o colégio Fé e Alegria transforma-se numa escola de música, assim como costuma fazer todos os dias. Um edifício abriga o "núcleo" de La Rinconada, um dos 154 centros de aprendizagem musical que pertencem ao Sistema, a rede de orquestras de crianças e de jovens fundada em 1975 pelo compositor José Antonio Abreu.

Por conta da sua amplidão, da sua ambição e do seu sucesso excepcional, o Sistema é uma experiência artística e social que sem dúvida não tem nenhum equivalente no mundo. O seu fundador, que é o seu atual diretor, conferiu-lhe desde o início três grandes objetivos. Em primeiro lugar, o de ajudar as crianças mais pobres a se livrarem da exclusão. A rede de orquestras, aberta, acolhedora e calorosa, contribui para o desenvolvimento comunitário e para a transformação da sociedade. Ela desempenha em muitos casos o papel de uma família de substituição.

Trata-se então, por meio da prática musical, de inculcar aos jovens um conjunto de "valores nobres": rigor, disciplina, domínio de si, humildade, além do senso da partilha e do trabalho de equipe. Todas essas são qualidades que os ajudarão a construir sua personalidade. Terceiro objetivo: oferecer-lhes uma iniciação estética, e proporcionar-lhes uma "elevação da alma".

O La Rinconada é um dos mais antigos "núcleos" do Sistema. O diretor, Eugenio Carreno, é um clarinetista. Em seu pequeno escritório, ele conta com orgulho que a sua escola inventou o método de aprendizagem que foi adotado por toda a rede: "a orquestra de papel". Durante os seus primeiros meses de estudo, as crianças manipulam falsos instrumentos de papelão, cuidadosamente confeccionados, com o objetivo de adquirirem as posições adequadas do corpo e de domarem ritmos e sons.

Relação afetiva
Cada um dos aprendizes de músico recebe então gratuitamente o seu instrumento. Dele, ele se torna totalmente responsável. Sem demora, quer ele seja talentoso ou não, ele entra numa orquestra e participa de concertos. A preocupação com a integração prevalece sobre a preocupação artística. A alegria de tocar e a relação afetiva com o grupo consolidam a união dentro das equipes. "Nós não estamos buscando constituir as melhores orquestras, mas sim formar o maior número possível de crianças", sublinha Eugenio Carreno.

Desde a sua origem, o Sistema travou vínculos estreitos com a rede escolar. De manhã, ele garante o ensino musical nas escolas; à tarde, ele acolhe os alunos com idades de 2 a 18 anos, interessados em seguirem aulas individuais ou coletivas, a razão de duas a quatro horas por dia, sem contar as sessões de recuperação, que acontecem no ritmo de um em cada dois fins de semana.

Tudo é feito para incentivar os jovens músicos. Eles são transportados e alimentados gratuitamente. É freqüente vê-los nos ônibus ou no metrô de Caracas, trajando sua camiseta azul marinho na qual se destaca o escudo do Sistema, e sempre carregando seu instrumento a tiracolo. Algumas dessas crianças moram nos cafundós dos "barrios", as favelas da capital, situadas a uma ou duas horas de caminhada.

Em La Rinconada, 1.400 jovens seguem as aulas de 70 professores permanentes, dos quais muitos são antigos alunos do "núcleo". No total, o Sistema mobiliza nas 24 províncias do país cerca de 3.000 docentes a serviço de 270 mil alunos. Ao longo de 33 anos, 1 milhão de crianças puderam contar com a formação proporcionada pela rede. A grande maioria é oriunda de um meio pobre, onde predominam a delinqüência, o alcoolismo, as drogas, e onde elas sofrem de uma carência de identidade. A orquestra lhes permite encontrarem a si mesmas, e provarem o que elas são capazes de fazer, aos seus próprios olhos e aos olhos dos outros.

Um "mundo mágico"
Eugenio Carreno acha divertido ouvir um aluno afirmar, um tanto fanfarrão: "Aqui, nós abrimos caminho, avançando sempre para frente com velocidade, assim como elefantes", e se comove ao escutar um outro anunciar que ele pretende, graças à música, "melhorar a existência" da sua família. Maribel Pinango é a mãe de duas crianças musicistas, Lenny e Marian. Ela conta com orgulho de que maneira eles "lutam por meio das notas" contra uma realidade que "ameaça nos afogar": "A orquestra", diz ela, "nos oferece uma evasão rumo a um mundo mágico onde a violência jamais existirá".

Entre 60% e 70% dos alunos de La Rinconada se tornam músicos profissionais. Eles ensinam por todos os cantos do país, dirigindo ora formações clássicas, ora grupos de jazz. Os melhores dentre eles integram a Orquestra de Jovens Simon Bolívar, sob a orientação do mais talentoso dentre eles, Gustavo Dudamel, 27 anos. Este jovem prodígio, fogoso e entusiasta, assumirá em setembro de 2009 a direção musical da Orquestra Filarmônica de Los Angeles. Ele será o mais jovem titular deste cargo.

Graças ao Sistema, alguns músicos tiveram a oportunidade de vivenciar uma verdadeira redenção. Durante a sua adolescência, o clarinetista Lennar Acosta havia sido encarcerado por nove meses por conta de um roubo que ele perpetrara com uma arma e por tráfico de drogas. Quando criança, o violoncelista Miguel Nino passava seus dias inteiros nas ruas. Edicson Ruiz trabalhava como carregador num supermercado até aprender a tocar o contrabaixo e tornar-se, em 2002, aos 17 anos, o mais jovem integrante da Orquestra Filarmônica de Berlim.

O Sistema é uma fonte de inspiração, em primeiro lugar na América Latina e no Caribe. Vinte e três países da região estão no processo de imitar o exemplo venezuelano. Uma orquestra ibero-americana está sendo constituída em parceria com a Espanha e Portugal. Programas similares vêm sendo lançados na Itália e na Escócia. José Antonio Abreu coleciona os prêmios e as recompensas. Entre as inúmeras homenagens que lhe são prestadas, vale destacar aquela de Gustavo Dudamel. Este chama o seu antigo mestre de "o homem da alma infinita".

Tradução: Jean-Yves de Neufville

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