UOL Notícias Internacional
 

06/08/2008

As trajetórias dos dois Roosevelt

Le Monde
Daniel Vernet
Em Hyde Park, Nova York
A carta está dentro de uma vitrine, no domínio de Springwood, situado nas bordas do rio Hudson, onde fica a casa dos Roosevelt, hoje transformada num museu: "Caro Franklin, é interessante constatar que você passou a ocupar um outro cargo, o qual eu mesmo cheguei a ocupar". Assinado: Theodore Roosevelt, 18 de março de 1913. Franklin Delano Roosevelt acaba de ser nomeado secretário adjunto da marinha pelo presidente democrata Woodrow Wilson. Um membro da sua família, só que de parentesco remoto, Theodore ("Teddy"), que fora ele mesmo secretário adjunto da marinha antes de ocupar o cargo máximo na Casa Branca, o felicita com aquela ironia distante que caracteriza as relações entre os dois ramos da família.

Os Roosevelt são os descendentes de um imigrante holandês, Claes Martenzen, que desembarcou em Nova Amsterdã durante os anos 1640. Os seus dois netos são os fundadores de duas dinastias: Johannes, instalado em Oyster Bay, perto Nova York, é o ancestral de Theodore e de Eleonore Roosevelt, que se casará com Franklin em 1905. Jacobus, por sua vez, está na origem da família de Hyde Park, da qual é oriundo Franklin Delano.

1900 - Eleição do republicano William McKinley para um segundo mandato; ele é assassinado em 1901. O vice-presidente Theodore Roosevelt lhe sucede.

1901-1909 - Presidência de Theodore Roosevelt.

1917 - Entrada dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial sob a presidência do democrata Woodrow Wilson.

1919 - O Senado recusa-se a ratificar o tratado de Versalhes.

1929 - Grande Depressão. A taxa de desemprego alcança 24,9%.

1932 - Primeira eleição para a presidência do democrata Franklin Delano Roosevelt; ele triunfa em 46 dos 48 Estados. Ele sucede ao republicano Herbert Hoover.

1933 - Lançamento do New Deal, um programa econômico baseado na intervenção do Estado, nas grandes obras públicas, nas despesas públicas e nas ajudas aos mais desfavorecidos. Início do Estado de bem-estar social.

7 de dezembro de 1941 - Ataque japonês contra Pearl Harbor.

12 de abril de 1945 - Morte de Franklin Delano Roosevelt, algumas semanas depois do iniciar seu quarto mandato.
CRONOLOGIA
Haverá pontos em comum entre o "Bull Moose" (o alce que lidera a manada), que se tornara um dos principais modelos de presidente republicano, e o jovem rapaz um pouco dândi que deixaria sua marca na história como o pai do New Deal ("Novo Acordo": nome dado a sua série de programas econômicos que foram implementados de 1933 a 1945, destinada a reerguer o país depois da Grande Depressão de 1929)? Mais do que possa parecer à primeira vista, porque tanto um como o outro, sem traírem suas origens, conquistarão posições de destaque, pairando acima da sua classe e da sua época. Theodore (o 26º presidente dos Estados Unidos, no cargo de 1905 a 1909), o conservador que se tornou progressista, e Franklin (o 32º presidente, de 1933 a 1945), o patrício que se tornou oportunista, conforme os descreveu o cientista político Richard Hofstadter.

Theodore Roosevelt (1858-1919) será lembrado na história como o partidário da "política do Grande Porrete" ("Big Stick"). Alguns anos antes de Woodrow Wilson (o 28º presidente, eleito para dois mandatos, de 1913 a 1921), o modelo máximo do internacionalismo americano, ele se pronunciou a favor de uma política externa ativa, uma espécie de extensão da doutrina Monroe para o conjunto do planeta. "Os Estados Unidos", dizia Theodore, "são uma grande nação que tem por obrigação, justamente por causa da sua grandeza, de cultivar relações com as outras nações da Terra, e nós devemos nos comportar como um povo que assume tais responsabilidades".

No que diz respeito às questões internas, ele se insurge contra os monopólios, não por ser movido por qualquer convicção ideológica, mas sim porque ele pensa que o capitalismo está fadado a afundar de vez, caso as necessidades dos assalariados não forem levadas em conta. Em 1902, quando ele ainda é o governador de Nova York, ele incentiva as companhias de mineração a encontrarem um compromisso salarial com os seus operários.

Ele tornou-se presidente por acidente. Os caciques do Partido Republicano, que estavam irritados com a sua luta contra a corrupção e suas boas relações com os sindicatos, indicaram-no para ocupar a vice-presidência, na chapa do presidente McKinley. Infelizmente, William McKinley morre assassinado pouco após a sua eleição, e Roosevelt assume então a presidência, para a qual ele é reeleito em 1904.

Ele entendeu que a industrialização que tomou conta do país desde o final do século 19, com todas as misérias colaterais que ela acarreta, exige reformas. Os princípios tradicionais do Grand Old Party, o partido da indústria, caducaram. Roosevelt conduz uma política norteada pelo slogan do "Square Deal" (Acordo Quadrado), que anuncia de certa forma o New Deal do seu "remoto" sobrinho, uma expressão que havia sido pronunciada sem nenhuma intenção particular no decorrer de uma discussão. Como o seu nome indica, o "Square Deal" comporta quatro elementos: o Estado deve desempenhar o papel de intermediário para garantir um "compromisso honesto" entre os grupos sociais; o presidente não deve apenas zelar pela execução das leis, como também propor ele mesmo projetos de lei; ele deve ser o "mordomo do povo" e fazer tudo aquilo que a Constituição não lhe proíbe, dentro do interesse de todos.

Teddy Roosevelt compreende também que os imigrantes, que foram repelidos pela pobreza na Europa e atraídos pela industrialização americana, devem ser integrados. Ele é o primeiro presidente a nomear católicos e judeus em seu governo, além de atribuir responsabilidades a negros. Conforme lembra o cientista político francês Denis Lacorne, ele era um grande admirador da peça de teatro de Israel Zangwill (1864-1926, um dramaturgo inglês e judeu), "The Melting Pot". Esta adaptação de "Romeu e Julieta" de Shakespeare, que celebra o caldeirão no qual se misturam as diferentes origens, tornou-se constitutiva do mito americano. Com isso, Teddy Roosevelt devolveu um lado progressista ao Partido Republicano no nordeste dos Estados Unidos onde, alguns anos mais tarde, se reunirão os "Roosevelt Republicans", ou seja, liberais liderados por Nelson Rockefeller (homem político, 1908-1979, vice-presidente de Gerald Ford de 1974 a 1977), no quadro da Ripon Association, do nome do vilarejo onde, em 1854, o partido havia sido fundado.

Ao encerrar seu segundo mandato, Theodore Roosevelt não volta a se candidatar. Ele não demora a se arrepender desta decisão e retoma na África sua antiga vida de aventureiro brigão. Em 1912, de volta aos Estados Unidos, ele se inscreve no Partido Progressista por não ter conseguido obter a investidura dos republicanos. Na eleição, ele alcança o segundo lugar, atrás do democrata Woodrow Wilson, com cerca de 30% dos votos populares, o que é um resultado excepcional para o representante de um terceiro partido.

Ao ser indagado a respeito de quem seria o seu modelo político, John McCain desdenhou as figuras mais recentes do movimento conservador - Ronald Reagan, George W. Bush ou Barry Goldwater -, e citou Theodore Roosevelt, pelo seu reformismo, sua preocupação com o meio-ambiente e sua política externa. E ele acrescentou: "Eu não creio que o governo deva fazer aquilo que podem fazer o livre empreendimento, a empresa privada, o empreendedor livre e os Estados. Mas o governo [central] deve sim se encarregar de cuidar daqueles que, na América, não podem cuidar de si mesmos".

Será possível salvar os capitalistas da sua própria estupidez? Com o tempo, Teddy Roosevelt havia sido tomado por um sentimento de desprezo para com todos aqueles negocistas "cuja alma endurecera enquanto o seu corpo havia amolecido". Ainda assim, ele também detestava a plebe, os movimentos sociais organizados e todos aqueles "humanitários sentimentais".

A mesma questão assombrou a mente do outro Roosevelt (1882-1945), o democrata, durante todos os anos em que o New Deal foi implementado. A sua política de intervenção do Estado na vida econômica, que incluiu o crescimento das despesas públicas, tem sido o objeto de ataques virulentos por parte das grandes companhias e dos meios de negócios. O descendente de uma família de patrícios, ele jamais teria imaginado que um dia ele seria tratado de "socialista disfarçado", ao passo que, durante a Grande Depressão, ele temera o crescimento das forças de esquerda, provocado pela cegueira dos capitães da indústria. Foram os comentários zombeteiros destes últimos que assentaram sua reputação de reformista.

Ao ser eleito presidente em 1932, Franklin Delano Roosevelt - FDR, conforme ele passaria a ser chamado por todos - não assume o cargo carregando uma pesada bagagem ideológica, nem mesmo movido por uma idéia política bem definida. Enquanto o seu predecessor, o republicano Herbert Hoover, carecia de "movimentação", ele carece de "direção", escreveu Richard Hofstadter. Em relação às questões fundamentais, ele não se posiciona em desacordo com os princípios do seu predecessor. É porque ele não tem nenhum, ou, pior ainda, ele defende diversos princípios perfeitamente contraditórios. Hoover tinha certa razão quando dizia de FDR: "Ele é um camaleão sobre um cobertor escocês". Mas ele está disposto a ouvir todo mundo, a sentir o humor da opinião, a utilizar os métodos modernos de propaganda para suscitar o apoio da maioria. Após ter se posicionado inicialmente como um partidário da organização da raridade para lutar contra a recessão, ele se joga de cabeça na experimentação e no ativismo. A unidade do New Deal não é econômica, mas sim política. Sempre deve haver alguma forma de fazer com que cada cidadão seja beneficiado de alguma forma e, se novos descontentes vierem a surgir, será preciso apaziguá-los por meio de novas soluções.

Foi no decorrer do seu segundo mandato - ele será o único presidente dos Estados Unidos a ser eleito por quatro vezes, apesar da doença que deixa as suas pernas paralisadas - que FDR deu uma guinada em direção à esquerda, provocada ao mesmo tempo pelas críticas que recebeu dos meios de negócios e pelo fracasso da primeira fase do New Deal. Ele reuniu os sindicatos e os negros em volta dele e do Partido Democrata. Ele saboreou esta popularidade sem, contudo, alimentar quaisquer ilusões em relação à sua profundidade. Ele se comparou ao presidente Andrew Jackson (1829-1837), de quem ele dizia que era amado pelo povo "por causa dos inimigos que ele andou criando contra ele no caminho". FDR impôs os dissídios coletivos, o imposto sobre a riqueza, a seguridade social.

O jornalista Walter Lippman avalia que o New Deal é "o programa de reformas mais completo que já tenha sido implementado neste país por qualquer administração". Além disso, as suas realizações ultrapassam os limites de uma presidência e de um partido. Roosevelt ancorou tão profundamente seus valores no espírito nacional que os republicanos serão obrigados a levarem essas realizações em conta em seus programas.

A sua política externa também contribuiu para consolidar o lugar de FDR na História, tanto com a entrada em guerra dos Estados Unidos ao lado das democracias européias contra o nazismo e o fascismo quanto com a criação das Nações Unidas. Da mesma forma que em matéria de economia, Roosevelt não tem uma opinião muito definida, no início do seu governo, em termos de política externa. No momento da Primeira Guerra Mundial, ele não é nem isolacionista, nem intervencionista. Depois do tratado de paz de Versalhes (1919), ele se mostra inicialmente favorável à criação da Sociedade das Nações, que havia sido proposta por Woodrow Wilson, e então se posiciona contra ela quando o projeto é derrubado pelo Senado americano. No final dos anos 1930, ele volta a pôr sobre a mesa a idéia de segurança coletiva, a qual ele pretende implementar ao sair da Segunda Guerra Mundial, contando para tanto, conforme ele espera, com o apoio de Stálin (Joseph Stálin, 1878-1953, que governou a União Soviética do final dos anos 1920 até a sua morte), que ele chamava de "Tio Joe".

A marca de Franklin Delano Roosevelt permaneceu profundamente impregnada na vida política americana muito além dos treze anos que ele passou na Casa Branca. A coalizão do New Deal, dos desfavorecidos, dos "colarinhos azuis" (os operários), dos negros, garantiu o sucesso político dos democratas até meados dos anos 1950. FDR também alterou a imagem do seu partido, que parou de se apresentar como o defensor dos direitos dos Estados federados contra o Estado Federal, desistindo de apoiar a idéia de um "governo mínimo". Ao contrário, ele foi o próprio exemplo do intervencionismo e da consolidação do Estado central. Uma controvérsia que já opunha entre eles os federalistas e os antifederalistas em torno da criação da União, e que até hoje permanece na ordem do dia.
Jean-Yves de Neufville

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